11/03/2009

Watchmen, absolutamente!


Em 1985, com a ótima repercussão de público e crítica alcançada pela revista Swamp Thing, a DC Comics ansiava por novos trabalhos escritos por Alan Moore. Por sua vez, o roteirista inglês vinha há algum tempo pensando numa obra conceitual sobre os super-heróis, envolvendo um misterioso assassinato. Juntando a receptividade editorial com a criatividade autoral, surgiu a idéia de reformular os antigos personagens da Charlton Comics (cujos diretos de publicação a editora do Super-Homem havia adquirido recentemente). Nascia ali o que viria a ser Watchmen, minissérie em doze edições lançadas entre 1986 e 1987, graphic novel recordista de vendas e uma das melhores e certamente a mais complexa HQ de super-heróis já escrita.

A premissa básica da série era: como seria o mundo se os super-heróis existissem realmente (ou: como seriam os super-heróis se eles realmente existissem). Sua frase-tema: “Who watches the watchmen?” (“Quem vigia os vigilantes?”), tomada emprestado do autor romano Juvenal. O conceito agradou aos editores, mas eles temiam (com razão) que a abordagem realista proposta por Moore acabasse por inutilizar os personagens que pretendiam incorporar ao “Universo DC”. A solução encontrada foi relativamente simples: ao invés de lidar diretamente com os personagens da Charlton, um novo elenco de heróis seria criado pelo roteirista, em colaboração com o desenhista Dave Gibbons. Assim, no lugar do Pacificador entraria o Comediante, substituindo o Capitão Átomo viria o Dr. Manhattan, em vez do Besouro Azul surgiria o Coruja Noturna, enquanto o Questão daria vez a Rorschach.

Porém, mais que mascarar os antigos personagens sob novos nomes e feições, os autores evidenciaram seus elementos mais estruturais, trazendo à tona o que os ligava a outros super-heróis mais conhecidos. Não é à toa, portanto, que podemos ver no Comediante e no Dr. Manhattan as contrapartes do Super-Homem (de um lado o soldado a serviço do governo norte-americano e do outro o herói sobre-humano, virtualmente onipotente). Da mesma forma, encontramos no Coruja Noturna e no Rorschach as facetas do Batman (o combatente do crime fantasiado e cheio de aparatos tecnológicos, em contraposição ao detetive traumatizado e psicótico, violento e de convicções quase fascistas). Uma pista para essa duplicidade é o fato de esses personagens aparecerem atuando em duplas (Comediante com Manhattan, Coruja com Rorschach). Mas Watchmen é muito mais que a desconstrução de antigos super-heróis!

Dividida em capítulos de 28 ou 32 páginas com citações pertinentes ao final, acompanhados de textos que simulam trechos de livros, reportagens e relatórios, a série traz nas capas detalhes ampliados do primeiro quadro de cada capítulo, enquanto as contracapas mostram (edição após edição) um relógio que se aproxima das 12 horas, enquanto uma massa de sangue vem escorrendo até cobri-lo quase completamente. Com uma diagramação de página bastante regular (inspirada nas HQs de Steve Ditko, principal autor da Charlton), a obra de Moore e Gibbons alcança a complexidade de uma sinfonia, em suas múltiplas camadas significantes, simetrias e auto-referências, composições ressonantes e imagens recorrentes (inspiradas pela Teoria do Caos e seus fractais). Como criticaria mais tarde o próprio Alan Moore: “Watchmen é uma obra sobre sua própria estrutura”. Mas é mais que isso também!

A história começa em outubro de 1985, com o mundo à beira de um conflito nuclear entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética. Nas ruas de Nova York, crime e desesperança dividem espaço com carros elétricos e placas indicando abrigos antinucleares. Há quase uma década, uma lei federal proibiu a atividade dos heróis mascarados, enquanto o inescrupuloso comediante e o superpoderoso Dr. Manhattan continuam atuando a serviço do governo norte-americano. Nesse contexto, um assassinato aparentemente insignificante toma proporções de conspiração quando o detetive mascarado Rorschach descobre que a vítima era na verdade o Comediante. Essa é a trama apresentada no número 1 de Watchmen, narrado (ao estilo de um William Burroughs) através do diário de Rorschach, retratado como um anti-herói paranóico às voltas com uma investigação sobre um suposto complô para eliminar os heróis mascarados.

A partir daí, Moore e Gibbons vão nos apresentando aos demais personagens da série, como o milionário Adrian Veidt que havia atuado como o mascarado Ozymandias e Laurie Juspeczyk que substituíra sua mãe no papel da heroína Espectro da Seda. Aliás, duas gerações de heróis são apresentadas, na medida em que passado e presente se misturam em flashbacks que vão do fim dos anos 30 a meados dos anos 70. É assim que conhecemos, no número 2 da série, os heróis que formavam o grupo Minutemen, sabemos do envolvimento do Comediante e do Dr. Manhattan na Guerra do Vietnã e testemunhamos os protestos urbanos que levaram ao banimento dos vigilantes mascarados. Violência e política, conspirações e memórias vão se interligando e influenciando mutuamente numa história que parece cada vez mais intrincada, como os mecanismos do relógio sugerido em seu título e desenhado em suas capas.

O capítulo 3 adiciona mais uma camada significante à narrativa, quando comentários corriqueiros e situações cotidianas são sobrepostos e mesclados às cenas e narrações da fictícia revista em quadrinhos Contos do Cargueiro Negro (as velas do navio pirata ganham até mesmo a forma de um aviso antinuclear). Se os trechos do diário de Rorschach já haviam estabelecido um clima de desesperança, as páginas da revista de piratas, “lidas” por um jovem leitor, imprimem ainda mais angústia à nossa leitura. A mensagem é: o mundo está à beira do abismo e estamos todos ilhados e enterrados até o pescoço na luta individual pela sobrevivência. Embora uma visão pessimista da vida seja parte do Realismo enquanto gênero literário, a atmosfera niilista presente em alguns trechos de Watchmen tem muito a ver com o contexto em que a HQ foi escrita, no qual o temor de um conflito nuclear entre EUA e URSS era algo palpável.

Na edição 4, o mundo avança em direção ao armagedom nuclear, depois que um emocionalmente acuado Dr. Manhattan deixou a Terra para ir morar em Marte. Mas o que verdadeiramente avança ali é a linguagem dos quadrinhos. Em linhas gerais, temos a história de origem de um personagem bastante interessante, contextualizada na cultura e política dos Estados Unidos dos anos 40 a 60. Mas o capítulo “Relojoeiro” vai muito além, revelando o trabalho de um autor capaz de integrar (como poucos em qualquer linguagem artística atualmente) estrutura e tema de maneira perfeitamente orgânica. Em outras palavras, um roteirista que nos apresenta a biografia de um super-herói quântico, por meio de uma concepção quântica do tempo (ou do fluxo narrativo), na qual passado, presente e futuro são percebidos simultaneamente. Enfim, uma HQ brilhante, que exemplifica o trabalho criativo-intelectual de um gênio da narrativa.

O número 5, com sua estrutura simétrica, acrescenta peças à trama, posicionando personagens e situações para futuros desdobramentos. Na edição 6, mergulhamos de cabeça num abismo existencial (de inspiração nietzschiana), quando descobrimos a origem secreta de Rorschach. O capítulo 7 abranda as coisas, mostrando Coruja Noturna e Espectro da Seda (heróis que herdaram a identidade de membros do Minutemen) num romântico vôo noturno. O número 8 traz um pouco de nostalgia, narrativas paralelas, uma fuga da prisão, alguns assassinatos e muito sangue. A edição 9 tem mais nostalgia (na forma do perfume que leva este nome) e uma reveladora conversa em Marte. O capítulo 10 desvenda que grande mente está por trás da trama conspiratória. No 11, chegamos a um clímax em que tudo é revelado. Já a edição 12 fecha a história, amarrando as pontas restantes, mas deixando uma última porta entreaberta.

Em termos visuais, Watchmen é um verdadeiro trabalho hercúleo e certamente a melhor obra de Dave Gibbons. Desenhar algumas dezenas de personagens, vários deles em diferentes idades ao longo da história, mantendo as identidades visuais marcantes e coerentes não é algo fácil. Desenhar o mesmo cenário de múltiplos ângulos ou variar, numa edição para outra, de um cruzamento em Nova York para as montanhas de Marte, sem perder o senso de ambientação, também não é uma tarefa simples. Aliadas a isso, temos as cores atmosféricas de John Higgins, que servem bem ao estilo cotidiano e realista dos desenhos. Sua melhor expressão está na recolorização feita para Absolute Watchmen, na qual os tons de cinza, roxo, marrom, carmim, magenta e laranja escolhidos pelo colorista colaboram para reforçar o clima lúgubre da HQ (e também contrastar as cores primárias do smiley, do Dr. Manhattan e do sangue).

Como toda obra, Watchmen tem seus altos e baixos (perdendo um pouco da força e originalidade a partir do capítulo 7), sem falar em alguns excessos (parte dos textos complementares é desnecessária e Contos do Cargueiro Negro não é exatamente indispensável à trama). Mas, com seu mundo em 360°, de um 1985 no qual Richard Nixon é o presidente dos Estados Unidos e os heróis mascarados envelhecem e têm vida sexual, essa HQ dissecou e reinventou os super-heróis, dando-lhes um contexto político e uma profundidade psicológica. Junto com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, a obra de Moore e Gibbons levou às últimas (e contraditórias) consequências a idéia da recriação realista (?) dos super-heróis. Por isso mesmo, na época do lançamento da série, ao ouvir a afirmação de que ele e Miller haviam salvado os super-heróis, Moore retrucou que, na verdade, o que eles tinham feito era “um trabalho de assassinato”.

De fato, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, uma onda de quadrinhos de super-heróis mais sombrios e violentos tomou conta do mercado norte-americano. Repletos de sangue, psicologia barata e textos pretensamente literários, os imitadores de Miller e Moore contribuíram para quase enterrar de vez os aventureiros mascarados. Após o lançamento de Watchmen (e a conclusão de Miracleman), Moore havia jurado jamais escrever uma nova HQ de super-heróis. Porém, no início dos anos 90, enfrentando problemas financeiros e desgostoso do impacto negativo que sua obra acabara tendo (principalmente devido aos imitadores que tentaram reproduzir seu estilo), o roteirista retornou ao gênero que o consagrara. Além de se recuperar financeiramente, seu objetivo então era resgatar o brilho e a ingenuidade dos antigos super-heróis, o que ele tentou realizar com as séries 1963 e Supremo.

A qualidade e a importância de Watchmen são inegáveis. Homenageada, premiada, parodiada e copiada, essa complexa obra colaborou para expandir as possibilidades e o repertório da linguagem das HQs. Sua absolute edition (com estojo, capa-dura, sobrecapa, tamanho estendido, impressão de alta qualidade e galeria de extras) apenas atesta seu prestígio editorial (sem falar no valor de mercado, que se multiplicou com a adaptação cinematográfica que acaba de estrear). E é interessante notar que, embora tenha ganhado o prêmio Hugo de ficção científica, Watchmen está cada vez mais para um romance de época, devido à sua ambientação nos anos 80. Quando a li pela primeira vez há vinte anos, eu não tinha maturidade para compreendê-la completamente. Tendo acabo de relê-la agora para escrever esta resenha, fica a sensação de uma obra que resistiu bem à passagem do tempo, merecendo absolutamente o título de clássico!

(Para saber mais sobre os temas tratados aqui e ler uma entrevista exclusiva com Dave Gibbons, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

10 comentários:

Paulo Muzio disse...

O ator que interpretou o Rorschach fez o melhor Batman já visto nos cinemas até hoje... na minha humilde opinião de quem lê Batman há mais de 15 anos.

Zerramos disse...

Belo comentário,Wellington, aproveito para registrar que a ediçào encadernada dessa obra recém lançada pela Panini perde em muito para o material da Abril de 21 anos atrás.Falo porque comprei esse volume e me arrependi pois o papel jornal em que foi impresso estragou a colorizaçào.Uma pena, pois por R$28,90 o consumidor merecia um tratamento melhor.Pena mesmo...mas,finalizando convido-o a visitar meu recém cirado blogue:www.bloguimduzerramos.zip.net.
Ficarei feliz se puder visitá-lo.
Abraços
Zerramos

Ivan disse...

Olá. Acompanho seu trabalho como autor e gostei muito dos seus textos aqui no blog. Mas qual não foi minha surpresa ao ler uma entrevista do Ziraldo falando sobre o Pererê - e mais, saber que ela foi utilizada na sua dissertação de mestrado sobre a revista!
Bem, neste momento estou pesquisando a revista no mestrado também e gostaria muito de ler seu trabalho. Vamos conversar via e-mail? Meu contato é igomes2@gmail.com
Abraço!

Wellington Srbek disse...

Olá Paulo,
Ainda não tive tempo para assistir o filme, mas deverei (talvez) fazer isso em breve e escrever uma resenha aqui pro blog.
Abraço!

Wellington Srbek disse...

Olá Zerramos,
Não vi essa edição da Panini, mas acho que se refere à edição em capa mole, certo?
Para mim, as melhores edições brasileiras de Watchmen foram a primeira e a segunda da Abril (embora nesta as cores estejam meio aglutinas).
A edição em capa-dura da Panini não tive tempo de conferir ainda.
Mas não há dúvida de que a melhor edição dessa obra é a luxuosa Absolute Watchmen em inglês.
Abraço, vou conferir seu blog!

Wellington Srbek disse...

Olá Ivan,
Aqui no blog há também um texto que resume minha pesquisa sobre a Pererê - para encontrar, basta clicar no marcador com o nome do Ziraldo ou da revista.
Vou entrar em contato.
Abraço!

Volnei disse...

Achei seu texto ótimo.

So acho que você deveria ter destrinchado os caps. 5 a 12, sem medo do texto ficar muito grande porque Watchmen merece uma bela resenha!

Queria saber por que você acha que a série caiu da metade pra frente. Fiquei curioso.

A edição da Panini veio com alguns erros. O original deve ser melhor mesmo.

Abraço!

Wellington Srbek disse...

Olá Volnei, mas acho que a minha já ficou "uma bela resenha", bastante detalhada e aprofundada. O motivo do resumo nos comentários sobre os capítulos 5 a 12 é que a partir daí não há nenhum elemento mais diferenciado na narrativa, que justificasse uma explicação mais detalhada (também quis evitar dar informações demais para nã atrapalhar a leitura de quem não conheça a obra ainda). Quanto ao que falei sobre a edição 7 em diante, para mim as maiores inovações narrativas e o conteúdo mais contundente de Watchmen estão mesmo nos seis primeiros capítulos. O sétimo, por exemplo, é muito fraco (especialmente se comparado ao que Moore havia feito nos seis anteriores). Quanto aos demais capítulos, tenho a sensação de que Moore estava mais encerrando o trabalho ali, amarrando as pontas e encaminhando a obra para seu desfecho. Aliás, ele chegou a comentar em entrevistas que só tinha planos para as seis primeiras edições de Watchmen (onde ele é simplesmente brilhante), mas aí se viu na obrigação de produzir mais seis capítulos e encerrar a história. Além disso, ele também admitiu que para o final da série já estava saturado de lidar com os personagens. E acho que isso acabou transparecendo na obra, e como a reli por inteiro para escrever minha resenha, para mim isso ficou bem evidente. O capítulo em que é contada a história de Ozymandias chega a ser verborrágico.
Valeu pelo comentário. Abraço!

Amalio Damas disse...

Falar, ler, reler, admirar e babar sobre Watchmen nunca é demais. Watchemn está para os quadrinhos de super-heróis assim como Cidadão Kane está para os cinema.

Wellington Srbek disse...

Realmente Watchmen é um marco que deve ser lido e relido. Aliás, esta foi uma vantagem do filme, pois motivou a reedição de Watchmen no Brasil e vai fazer com que muitas pessoas leiam a HQ pela primeira vez.
Abraço, Amálio!