14/11/2016

Para Leonard Cohen, com amor

Dear Leonard,

Começo me desculpando por chamá-lo pelo primeiro nome, em vez de utilizar um mais solene “Mr. Cohen”. Mas você gostava de chamar o público de suas apresentações de “friends”, então me sinto convidado a chamá-lo de Leonard. Você que, com suas canções singulares e arrebatadoras, se tornou alguém tão familiar nos últimos 15 anos. Alguém tão significativo para mim, que ler a notícia de seu falecimento foi como levar um soco no peito. Um forte golpe, que me deixou com um aperto no coração e sem muitas palavras com as quais responder. Foi algo como perder um amigo de longa data, ou um grande mestre.

Lembro-me que, ainda criança, eu já tinha ouvido canções como “Suzanne” e “So long, Marianne”, pois trechos delas tocavam numa propaganda de TV anunciando coletâneas de discos com sucessos de décadas passadas, nesse caso, dos anos 60. Mas nosso primeiro encontro realmente significativo para mim foi em 1994, numa sala de cinema, logo na abertura de Assassinos por Natureza de Oliver Stone, em que somos magnetizados por seu timbre ecoante e abismal na incomparável “Waiting for the miracle”. E você volta a emprestar sua voz a cenas do filme, e é com ela que vemos subirem os créditos ao final, ao som da profética “The Future”.

Eu era então jovem e absolutamente dedicado ao ofício dos quadrinhos, de forma que música e poesia eram periféricas em minha vida. Isso mudaria, porém, no começo de 2001, quando um fim de namoro deixou-me sentindo totalmente perdido. Fiquei sem a amada da época e sem um rumo certo, prosseguindo como uma sombra de mim mesmo. Quando consegui me organizar um pouco melhor, era hora de encontrar novos sentidos e resolvi começar por “descobrir o rock”. Fiz uma lista de músicas e saí para comprar CDs com clássicos dos Beatles e dos Stones, The Doors e mais. A maior parte desse “mais” sendo Bob Dylan, em vários CDs e vinis.

Eu já começava e me tornar fã de carteirinha de Dylan, quando me lembrei daquela voz incrível na abertura daquele filme de 1994. Foi aí que meu amigo e mestre nos quadrinhos, Nilson Azevedo, contou-me de quem era aquela canção e quão fantástico era o cantor e compositor canadense chamado “Leonard Cohen”. Naqueles meados de 2001, Nilson fez algo que eu mesmo faria para outras pessoas ao longo dos anos seguintes, que é oferecer essa senha, hoje menos secreta, quase pop até, para um universo inteiro de melodias e letras, beleza e sabedoria. E bastou ouvir sua coletânea "The Greatest Hits" para logo voltar às lojas de discos, obstinadamente em busca de CDs e vinis que tivessem o nome “Leonard Cohen” na capa.

“Time out of mind” de Dylan e o seu “Songs of love and hate” me resgataram da “avalanche” que havia coberto minha alma e me ajudaram a encontrar um rumo novo em 2001. Claro que os processos de cura deixam suas cicatrizes, e um coração partido jamais se refaz o mesmo de antes, mantendo algumas fissuras. O que é parte dos maravilhosos paradoxos da vida, pois como nos conta uma de suas lindas canções: “há uma falha em todas as coisas / é assim que a luz adentra”. E o coração partido se regenerou, para amar mais e de novo, depois e agora, tendo ganhado fissuras pelas quais a poesia, de Dylan, de Drummond e a sua em especial, chegou para fazer de mim alguém outro.

E você, dear Leonard, nos ensinou tanto sobre a vida e o mundo, sobre amor ao próximo e amar a Humanidade! É claro que você ter ensinado não quer dizer que nós aprendemos, não é mesmo? De qualquer forma, com o tempo que passa, como têm feito sentido para mim seus versos que falam: “não se prenda ao que já passou / ou ao que ainda está por vir”... Viver o presente, cada momento plenamente, outro ensinamento seu, um discípulo budista de origem judaica, que citava Jesus em várias de suas canções e talvez tenha sido a melhor personificação de um monge-trovador, a cantar as verdades e os reveses, as delícias e as amarguras do amor, físico e espiritual.

Não vou aqui repetir a lista de suas canções que mais gosto, pois na certa acabaria por deixar alguma de fora. Afinal, você é o único músico de quem tenho todos os discos. Que Dylan não me ouça dizer isso... E como foram excelentes seus mais recentes discos de estúdio e os CDs e DVDs de apresentações ao vivo! Nestes últimos, em particular, é possível ver como você se sentia realizado durante sua Grand Tour, entrando correndo no palco, reverenciando seus virtuosos companheiros e companheiras de turnê, brincando com as plateias pelo mundo, saindo de cena dançando e sorrindo. Confesso que achei seu último disco de estúdio muito sombrio, mas o título já nos avisava disso, e de fato estamos em tempos pouco iluminados.

Mas já me delonguei demais nesta carta, dear Leonard. Passa do meio-dia, de um dia chuvoso e frio. Dizem que hoje teremos a maior Lua dos últimos 70 anos, mas por aqui parece que só um milagre permitirá que a vejamos. De qualquer forma, continuemos esperando pelos milagres, certo? Bem, levei alguns dias para poder sequer pensar em te escrever algo, e acabei escrevendo mais do que imaginaria a princípio. Pois, na verdade, tudo que está dito nas linhas acima pode ser resumido num: Obrigado, mestre, por tantos belos ensinamentos, por tantas belas canções de amor e sabedoria, trilha com a qual sigo a estrada desta vida!

Com amor,
W. Srbek

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