05/01/2009

Caliban: desafios, idéias e quadrinhos.


A primeira edição da revista Caliban, lançada em agosto de 1997, encerrava com o texto “Manifesto Caliban”, no qual eu apresentava, em tom desafiador, a proposta e as motivações da revista. Já na edição n°5, de janeiro de 1998, publiquei o texto “Caliban Manifesto”, no qual explicava um pouco melhor a razão para o título da revista. Nesta postagem, reapresento os dois textos para que vocês possam saber mais sobre o que era aquela revista de quadrinhos, idéias e desafios.

- Manifesto Caliban -
Onde evocamos nossa origem ancestral
e manifestamos que queremos ser perigosos.


Bem-vindos ao banquete-ritual! Nosso mestre de cerimônias é Caliban. Isso mesmo! Aceitamos o nome pelo qual nos chamou Shakespeare: somos bárbaros e perigosos! Não somos os nativos colonizados da periferia de Patópolis ou o indolente “mexicano que dorme”. Mas também não somos os canibais estereotipados. Somos, sim, antropófagos culturais.
Não rejeitamos o quadrinho estrangeiro. Queremos devorá-lo, assimilando o que ele tem a oferecer de original e fecundo. Adoramos os mestres Tezuka, Kirby, Pratt, Moebius, Eisner, e muitos outros. Não somos xenófobos... Temos gosto apurado. Os europeus inventaram os quadrinhos; os norte-americanos inventaram os comics - não discutimos paternidades! O que queremos é ampliar, renovar, reutilizar, traduzir para nosso mundo, recriar a partir de nossa realidade.
Nossos heróis são o Corto Maltese, o Brucutu e o Pererê. As heroínas: Valentina, Mafalda e Grauna. Não estamos hermeticamente fechados nos universos habitados por clones dos clones de clones de um certo super-herói. Já descobrimos a literatura, a filosofia, a história, o cinema, a pintura - o mundo real. Viva Homero, Chaplin e Picasso! Mas viva também (e sempre) Henfil, Guimarães Rosa e Darcy Ribeiro!
Contra o consenso totalizante e os modismos estéreis, contra a narrativa fragmentária e paralisante, propomos o diálogo criativo, a trama instigante, o quadrinho vivo! Desafiamos o leitor a entrar em nossos mundos e ir além, a recriar e criar novas realidades, superando nosso trabalho.
Contudo, Caro Leitor, se estas linhas - onde humildemente copiamos Mários, Oswalds e Outros - vos causam aborrecimento, esquecei-as e pensai que não passam de devaneios de um louco. Caso contrário, prestai atenção no que digo, pois queremos evoluir e nos transformar sempre, para fazermos jus ao clã de Pindorama.
Tupi or not tupi? Oh yes, Caliban é a resposta.

- Caliban Manifesto -

Desde que foi lançado o primeiro número da revista Caliban, algumas pessoas manifestaram interesse pelo significado de seu nome. Naquela edição de estréia, foi publicado o "Manifesto Caliban", no qual já havia referências a William Shakespeare, pois Caliban é o nome de um dos personagens da peça A Tempestade. Sendo um anagrama da palavra canibal, este nome e o personagem a que ele é atribuído representam os nativos incivilizados que habitariam o Novo Mundo.
Embora não existissem realmente, os fantásticos canibais das ilhas caribenhas povoavam o imaginário e a imaginação dos europeus. Shakespeare, que muito se inspirou na cultura clássica e popular, foi buscar no relato de viajantes os elementos para dar vida a seu bárbaro personagem. Pela pena do dramaturgo inglês e de outros que voltaram sua atenção para as Américas, entramos para História sob o signo da barbárie, como um híbrido de cão e homem, incapaz de controlar seus impulsos de voracidade, lascívia e destruição.
Paradoxalmente, a imagem que projetaram do Outro é o espelho que mais nitidamente revelou as intenções e motivações dos próprios europeus. Como o personagem Próspero, senhor das artes ocultas, os homens do Velho Mundo aqui chegaram impondo-se através do poderio de suas artes nefastas: a traição, a guerra bacteriológica (não-intencional) e a pólvora. Neste espelho de Próspero que é a América, os europeus enxergaram a imagem inversa daquela que tinham de si mesmos. Ou seja: se acredito que sou o representante da civilização cristã, aquele Outro que desconheço, e que tanto difere de mim em sua aparência e hábitos, nada mais pode ser, senão meu oposto.
Apesar dos europeus ainda se referirem aos latino-americanos em termos como “novos bárbaros”, há muito tempo já não inspiramos medo. Desde Rousseau (que se inspirou nos índios ao idealizar seu Bom Selvagem), para os europeus as Américas são mais exóticas, que ameaçadoras. Porém, o surgimento do titã norte-americano e de movimentos de resistência como a Revolução Cubana mostraram que, se não somos o bestial Caliban, também não somos o nativo Uga-uga que, trajando seu inconfundível saiote de palha de coqueiro, curva-se às vontades de prósperos colonizadores.
Enfim, por que o nome Caliban? Porque a disputa que se estabelece quando duas civilizações se encontram não se restringe ao mundo material, existindo também no plano das idéias e consciências. Se os europeus criaram a arte dos quadrinhos e os norte-americanos deram-lhe a forma dos comics, apropriamo-nos destas linguagens, mas não rezamos o credo do colonizador. Em A Tempestade, Caliban diz a Próspero que por este ter lhe ensinado a falar, então que as palavras que ele venha a proferir sejam para amaldiçoá-lo. Nós, que também aprendemos uma linguagem estrangeira, não faremos tanto. Ao invés de amaldiçoar, nossa escolha é representar e discutir nossa própria cultura, história e realidade, através dos quadrinhos.
Ser um voraz Caliban que cria a si mesmo.

Especial agradecimento aos autores e obras: William Shakespeare (A Tempestade); Tzvetan Todorov (A Conquista da América); Richard Morse (O Espelho de Próspero); Roberto Retamar (Caliban).

6 comentários:

Ismael Fancito. disse...

Desfruto deste tipo de post como A capital brasileira dos quadrinhos e Caliban.

*No blog Deskartes mil postaron uma historieta de José Ortiz, o link:: Erase una vez un milagro

Wellington Srbek disse...

Hola Ismael!
"A capital" é um daqueles textos que buscam reconstituir a história dos quadrinhos no Brasil, com um componente autobiográfico, já que participei do momento que tento reconstituir.
Já "Caliban" é um retrato do artista quando jovem. Ele expõe o que eu pensava naquele momento e o que eu buscava alcançar nos quadrinhos. Vou ver se te envio algum exemplar da Caliban.
Conferirei o enlace. Grande abraço!

Anônimo disse...

Boa tarde.

Tenho um sebo de livros e discos de vinil cá no Ed. Maletta (centro BH) e estou organizando uma feira no dia 07/02/2009 (sábado) que acontecerá neste mesmo edifício/galeria no piso das sobrelojas. Na organização já temos uns 12 expositores de discos de vinil confirmados e participantes da já tradicional "FEIRA DE VINIL" que ocorre todo mês em BH e gostaríamos de acrescentar outros tipos de materiais, desde que sejam públicos similares - razão para tal contato contigo. Você não conhece alguém interessado em expor/vender quadrinhos diversos? O custo funcional do evento é de R$ 30,00 (total) para cada expositor, rateando assim o pagamento de mesas, cadeiras e divulgação em geral (panfletos, lambe-lambes, etc).
Agradeço desde já pelo contato. Contatos:EMAIL: usadoscomarte@hotmail.com, LOJA USADOS COM ARTE ED. MALETTA SOBRELOJA 33 TEL. 3273 60 58 CEL: 8892 5091

ALEXANDRE VELOSO

Wellington Srbek disse...

Olá Alexandre,
Talvez o Anderson, que é dono da loja Casa da Revista na Rua da Bahia, possa se interessar em participar do seu evento. Mas fica aí registrado o convite e parabéns pela iniciativa!

Paulo Muzio disse...

É uma beleza de texto para cérebros refinados e joviais...

Wellington Srbek disse...

Legal o comentário, Paulo!
Posso completar dizendo que os manifestos também foram escritos por um cérebro jovial (e contestador).
Abraço!