14/11/2007

Meu encontro com Will Eisner.


Em outubro de 1997, Will Eisner visitou Belo Horizonte (MG) como convidado do projeto Conferências do Centenário e da 3ª Bienal Internacional de Quadrinhos. Para minha felicidade, eu estava “no lugar certo, na hora certa”! Na primeira manhã da visita de Eisner à cidade, fui interprete em sua coletiva para imprensa e tive o prazer de acompanhá-lo numa visita às exposições da Bienal. No dia seguinte, nós nos reencontramos rapidamente, quando pude presenteá-lo com um exemplar da revista SOLAR, em que faço uma pequena homenagem a The Spirit (a foto ao lado registra este momento e foi publicada numa revista da época). O texto a seguir saiu como uma matéria especial para um jornal de BH e foi atualizado para sua veiculação aqui. Ele relata como foi meu encontro com este mestre da "arte sequencial", falecido em janeiro de 2005.

É comum se dizer que as obras de um grande artista refletem sua alma. Essa frase pode não ser uma verdade absoluta, mas ela certamente se aplica a Will Eisner, o criador da série The Spirit e um dos mais importantes autores da história dos quadrinhos. Dedicando-se à criação e estudo das HQs por mais de sete décadas, ele foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da narrativa, estética e temática desta arte. Isso lhe garantiu reconhecimento e deferência não apenas por parte dos amantes dos quadrinhos, mas também daqueles que vêem as artes em geral como formas de expressão pessoal e interação entre as pessoas. Tendo sido um dos grandes artistas do século 20, em sua visita a Belo Horizonte Will Eisner mostrou-se sempre amável e acessível àqueles que se aproximavam para entrevistá-lo, pedir um autógrafo ou simplesmente trocar algumas palavras.

Se The Spirit foi fruto de um processo de desenvolvimento que, segundo seu criador, corresponderia à sua própria evolução enquanto artista, desde que surgiu em 1940 o personagem tornou-se um caso muito especial na galeria de heróis dos quadrinhos norte-americanos. Como o próprio Will Eisner o definia, Spirit é um herói com as fraquezas e limitações, medos e paixões dos seres humanos comuns. E ao introduzir em suas histórias questões da existência humana, Eisner mostrou que os heróis dos quadrinhos podiam ser mais que figuras unidimensionais que se espancam enquanto bradam falas cheias de clichês. Com The Spirit, os comics tornaram-se mais humanos.

De fato, algo inegável nos trabalhos deste grande mestre é a empatia. Da mesma forma que seu autor se mostrou amável e atencioso, suas histórias e desenhos são capazes de cativar a atenção valendo-se de uma simplicidade poética. Partindo de questões concretas do mundo real, seus roteiros criam situações que envolvem o leitor, tornando-o um cúmplice no desenrolar da trama. Afinal, como disse Eisner, “o leitor de quadrinhos jamais é um espectador passivo”.

Em obras-primas como Nova York - A Grande Cidade, o desenhista mostra-nos seu universo pessoal, através de impressões e opiniões sobre o mundo contemporâneo. Com um traço que se vale da precisão e da expressividade para dar vida a personagens e situações únicos, esse verdadeiro cronista da vida nas grandes cidades fazia poesia através de imagens. A “belíssima Belo Horizonte” que ele encontrou em 1997 não tem nada da “pequena cidade provinciana” sobre a qual ouvira falar, aproximando-se mais da clássica Nova York de seus livros, onde as contradições e conflitos da sociedade moderna tornam-se visíveis e o ritmo da vida ainda permite-nos vislumbrar personagens especiais perdidos na multidão.

Para um artista com décadas de atuação, o segredo da permanência de seus personagens e histórias é a simplicidade dos mesmos; é o fato de lidarem com questões básicas da existência que se mantêm ao longo do tempo. Mas, se a vitalidade do artista se refletia na permanência de sua obra, a paixão com que Eisner se referia aos quadrinhos era resultado da contínua renovação desta forma de arte, que a cada convenção ou bienal lhe presenteava com novidades como o “expressivo traço” de Henfil ou as “fortes imagens” dos desenhos de Marcelo Lelis.

Talvez a rápida transformação e superação do mundo que ele interpretava com tanto lirismo tenha sido o fato que levou Eisner a interromper as aventuras de Spirit, nos anos 50. O que ele não poderia prever é que seu personagem continuaria vivo, através de reedições e de uma fiel legião de fãs, ou que quando retornasse aos quadrinhos, na década de 1970, ele fosse o principal responsável pela formação de um novo gênero, as graphic novels. Como era de se esperar, alguém que iniciou duas grandes revoluções qualitativas sabia como poucos identificar os mecanismos de funcionamento e as especificidades dessa linguagem artística, como ele fez nos livros teóricos Quadrinhos e Arte Seqüencial e Narrativas Gráficas.

Se fôssemos comparar os quadrinhos a outras artes, teríamos que comparar Will Eisner a artistas como Picasso ou Fellini. Compreendendo e revolucionando as linguagens que escolheram, cada qual interpretou o mundo a partir de um ponto de vista particular, conciliando personalidade e universalidade. Transformando a estética, reinventando a linguagem, apropriando-se do clássico para popularizar a arte, eles deixaram suas impressões sobre o século 20. Mas é claro que dentre esses artistas, Will Eisner é o que tem menor reconhecimento. A desprestigiada arte por ele escolhida para se expressar continua não sendo tratada com a devida atenção e seriedade.

Se o leitor que percorreu estas linhas ainda não conhece a genialidade de Will Eisner, espero que minhas palavras tenham contribuído para despertar seu interesse. Tendo conhecido pessoalmente o criador, pude perceber que a paixão, vitalidade e grandiosidade de sua obra eram reflexos dele mesmo. Meu encontro com Will Eisner foi um daqueles momentos incomparáveis em que se recupera uma profunda paixão pelo que se faz. Enfim, não é todo dia que se conhece um grande gênio!

4 comentários:

_Loot_ disse...

Um senhor sem dúvida.
Sabes que vão adaptar a sua obre The Spirit ao cinema e vais er pelas mãos de Frank Miller.

abraço

Wellington Srbek disse...

Sei sim, e espero escrever algo sobre isso futuramente. Para breve, teremos novos textos sobre Frank Miller.
Grande abraço!

Alba disse...

Caramba!
Adoro Will Eisner.
Contrato com Deus
Pequenos Milagres
The Spirit
O cara era sensacional.
Adorei o blog.

Wellington Srbek disse...

Olá Alba,
Will Eisner era um gênio, e uma pessoa muito amável pelo que percebi no breve contato que tive com ele. Há outros textos sobre o trabalho dele aqui.
Legal que gostou do blog. Volte sempre!