01/05/2008

Kafka nos quadrinhos de Kuper.


Nos últimos quinze anos, a utilização de cores produzidas por computador tornou-se uma técnica muito difundida nos comics. Conciliada a um visual dinâmico e detalhista, a colorização digital tem sido um importante recurso para atrair a atenção dos leitores e mascarar a deficiência dos roteiros e desgaste dos super-heróis em geral. Mas, felizmente, nem só de truques mercadológicos se fazem os quadrinhos norte-americanos. Com criatividade, alguns autores continuam provando que os recursos técnicos mais elementares podem ser o bastante para se produzir um verdadeiro quadrinho-arte. Um bom exemplo disso é Desista!, uma adaptação de contos de Franz Kafka feita por Peter Kuper. Lançada no Brasil originalmente pela L&PM em 1997, essa inventiva HQ acaba de ser relançada pela Conrad, numa edição mais caprichada.

Desista! não foi a primeira adaptação de Kafka para os quadrinhos lançada no Brasil. Em 1987, a Press Editorial publicou Kafka em Quadrinhos, uma coletânea de HQs desenhadas pelo argentino Léo Durañona. Com influência dos desenhos do francês Moebius, esse trabalho mistura realismo e fantasia, embora peque pela falta de dinamismo. Desista! também não foi a última adaptação inédita do escritor tcheco publicada no Brasil, uma vez que em 2003 a própria Conrad já havia lançado A Metamorfose. Desenhada por Peter Kuper, A Metamorfose traduziu em setenta páginas de quadrinhos um dos textos mais famosos de Kafka: a história de Gregor Samsa, um homem que um dia acorda transformado numa enorme barata. Infelizmente, essa HQ não está disponível na loja da editora, mas talvez ainda possa ser encontrada, com alguma sorte, em sebos ou livrarias.

Quanto ao recém relançado Desista!, o livro traz nove contos de Kafka quadrinizados por Kuper. Ao contrário da maioria das adaptações de obras literárias, Desista! não apresenta um estilo visual realista ou naturalista, tampouco tenta reproduzir fielmente a sociedade em que Kafka viveu. A jogada de gênio e a grande virtude do quadrinista e ilustrador norte-americano estão no fato de ele ter buscado reproduzir o clima e o espírito dos textos kafkianos. Na caracterização dos personagens, na forma como estrutura as páginas e no visual pesado e conciso dos desenhos, a adaptação de Kuper consegue traduzir o elemento central dos contos de Kafka: a condição precária e angustiante do indivíduo, frente à opressão e ao absurdo do mundo. Num estilo expressionista, o brilhante autor da série Spy vs. Spy e da graphic novel O Sistema nos apresenta uma tradução perfeita, uma metáfora visual ideal para o texto original, sempre denso e um tanto claustrofóbico.

Em termos técnicos, além dos traços fortes e contrastados, a característica mais marcante de Desista! é sua peculiar forma de organizar e articular os desenhos nas páginas. Na maioria das HQs, o que liga um quadro àquele que o antecede e ao que o sucede é uma relação de interação, na qual o sentido de uma imagem completa e é completado por outra. No trabalho de Kuper, soma-se a isso uma relação orgânica entre as imagens, na qual partes de uma cena mesclam-se a elementos de outra ou surgem a partir de outra, adquirindo quase sempre novos sentidos. Por exemplo, o que ora é o mundo sob os pés do personagem, em seguida torna-se apenas parte de seu chapéu, enquanto em outra sequência é a silhueta de um guarda que se funde e confunde com uma parede de tijolos e os limites do quadro. O resultado é um trabalho de arte visual muito inventivo que, mais uma vez utilizando apenas recursos elementares e a criatividade, coloca possibilidades novas e originais para a arte dos quadrinhos.

A reedição de Desista! e outras histórias de Franz Kafka tem 72 páginas, formato 16cm x 23cm, capa cartonada com orelhas e impressão em preto e azul, custando R$22,00. Altamente recomendado e realmente imperdível para quem gosta de quadrinhos de qualidade!

2 comentários:

Bongop disse...

Só li um livro de Kafka, "O Covil", e não acho que alguem consiga transpor aquela obra para Arte Sequêncial! LoooL

Wellington Srbek disse...

Uma adaptação de qualquer linguagem para outra é uma releitura, uma tradução de elementos estéticos e narrativos de uma linguagem para outra.
Já li vários textos de Kafka, incluindo A Metamorfose, já assisti também a uma montagem teatral de O Processo e a filmes feitos a partir de sua obra. Tendo isso como referência, para mim, as adaptações de Kuper são transposições perfeitas da literatura de Kafka para os quadrinhos. Elas não são obviamente as únicas possíveis, mas são muito eficientes em traduzir os principais elementos da obra daquele autor, da linguagem literária para a linguagem quadrinística.