27/03/2008

Spirit de Will Eisner, por Darwyn Cooke.


A Panini começa a publicar neste mês as seis primeiras edições da série Will Eisner’s The Spirit, escritas e desenhadas por Darwyn Cooke, com arte-final de J. Bone e cores de Dave Stewart. Lançada em dezembro de 2006, a nova revista chegou com a proposta de atualizar esse personagem clássico dos quadrinhos, tornando-o mais atraente ao público do século 21 e antecipando a chegada do filme dirigido por Frank Miller. Mas, apesar do visual interessante e da boa produção gráfica, será que o novo Spirit faz jus ao original?

De seu refúgio subterrâneo num velho cemitério de Central City, o detetive mascarado Denny Colt surgiu, em 1940, para combater o crime e revolucionar os quadrinhos norte-americanos. Publicado em vários jornais e revistas, Spirit foi definido por Will Eisner como sendo: “um homem comum, oficialmente morto, mas vivendo na verdade sob uma identidade secreta; era vulnerável; podia ser ferido, como qualquer outro ser humano, e não possuía um único superpoder”. Em várias histórias, o simpático herói de chapéu e terno azul aparecia como um simples coadjuvante, em outras chegava a ser vencido por seus inimigos, tendo que ser salvo por interferência de outros personagens ou por pura sorte. Na verdade, Spirit era um pretexto para Eisner e seus assistentes contarem histórias com ação e suspense, nas quais o tema era a condição humana.

Publicada até 1952, a série The Spirit trouxe, sobretudo, preciosas contribuições para a linguagem e a temática dos quadrinhos, reinventando sua narrativa e incorporando elementos do cinema, literatura e, é claro, da vida real. Com isso, ao longo dos anos, diversos autores manifestaram sua gratidão às lições artísticas aprendidas com a HQ noir de Eisner. Não faltaram também edições de tributo, como Spirit Jam e The New Adventures, lançadas pela Kitchen Sink nos anos 90, além de seguidas reedições das HQs originais. A mais recente delas é a bela coleção The Spirit Archives, lançada pela DC Comics, com vinte e quatro volumes em capa-dura, reunindo a série completa, de 1940 a 1952. O que talvez não se esperasse é que, tendo adquirido os direitos de publicação do personagem, a editora fosse dar o passo além, produzindo novas histórias com o detetive mascarado.

A primeira investida da DC foi o especial Batman & Spirit, escrito por Jeff Loeb e desenhado por Darwyn Cooke, que não passa de uma apresentação do herói de Central City aos leitores mais acostumados com o cavaleiro de Gotham. Então, no mês seguinte, a editora lançou Will Eisner’s The Spirit, dessa vez com Cooke assinando também as histórias. Hábil em criar um clima de época para HQs passadas nos anos 40 e 50, na nova série, porém, o quadrinista canadense optou por uma ambientação contemporânea. E talvez esteja aí o “calcanhar de Aquiles” desse trabalho. Não quero estragar o prazer de quem possa se interessar em ler a série lançada pela Panini, mas atualizar o Spirit, colocando-o diante de questões político-sociais de hoje ou dando-lhe um telefone celular, pode sim torná-lo mais familiar aos leitores do século 21, ao mesmo tempo em que mata o “espírito” original do personagem.

Na edição de estréia, Spirit liberta uma apresentadora de tevê das garras de perigosos bandidos. Na edição seguinte, ele se envolve com uma mulher-fatal em busca de se vingar de um cruel ditador do Oriente Médio. O número 3 começa com assassinatos num restaurante de Central City, levando a uma recriação da história de como Denny Colt tornou-se o Spirit. A seguir, uma viagem à fronteira com o México, um encontro com uma agente federal, tiros e explosões dão o tom da edição. O quinto número, com um humor bastante questionável e um tema não muito original, trouxe Spirit às voltas com antigos vilões e uma estranha guloseima que lhe plagia a imagem. O golpe final veio numa HQ que mistura uma banda de rock e um asteróide azul, numa batida metáfora para a dependência de drogas.

Apesar de desenhos bem ruins em sua penúltima edição, as revistas produzidas por Cooke & Cia. têm um visual tecnicamente competente. Mais uma vez, o traço cartunizado do autor combina bem com as cores e efeitos de computação gráfica produzidos por seus colaboradores. Por outro lado, não vemos nem uma sombra das invenções narrativas e gráficas trazidas por Eisner na série clássica. E se a opção na nova série foi por divisões de página mais regulares, o único elemento narrativo mais formalista é a regra de, sempre após a introdução da trama, abrir uma página dupla com o título da HQ e o nome The Spirit incorporado à cena. Em resumo, com suas referências veladas à CNN e outras atualidades, seu conservadorismo político-social e ainda que traga os vilões e coadjuvantes do passado, a nova série não chega aos pés da original. A versão produzida por Cooke não tem o “charme” do original de Eisner.

Ao contrário do que acontece em outras artes mais tradicionais, as noções de “clássico” ou “obra-prima” são muito frágeis em se tratando dos quadrinhos, podendo sofrer não só os ataques do tempo, mas também serem vítimas dos oportunismos empresariais. O resultado é que mesmo as criações mais renomadas podem acabar se desgastando ou perdendo sua força, em nome da exploração comercial e do interesse financeiro. Por seu prestígio e qualidade, isso provavelmente não acontecerá com The Spirit de Will Eisner. Quanto à versão século 21, podemos dizer que ela prova que Darwyn Cooke é um ótimo desenhista, mas deveria deixar os roteiros por conta de autores mais capazes e inventivos. Para ler outros textos sobre Eisner e Cooke, clique nos nomes destacados abaixo.

2 comentários:

J Júnior disse...

Velho essa revista está surpreendendo minhas espectativas...
o personagem é humano d+, e de uma personalidade muito legal! o encontro dele com batman foi duca! foi até premiado com o premio eisner.
mas o roteiro do cooke ta me agradando a beça, mas como vc falou o problema do contemporâneo até que não atrapalhou tanto, mas como vc disse não deixa de ser um problema!

Wellington Srbek disse...

Olá JJ,
Sim o trabalho de Cooke na revista é interessante. Contudo, não se compara à qualidade e inventividade da obra original de Eisner.
Aí meio que me vem aquela sensação de 'por que fazer de novo, se o antigo é melhor?'
Essa sensação, aliás, eu sinto em todas as reformulações do Shazam!, por exemplo, que sempre ficam aquém da obra do C.C. Beck.
Ah, o Homem-Borracha é outro que é melhor no original do Jack Cole.
Mas não venham me chamar de "velho saudosista"!