12/11/2010

As fantásticas aventuras de Tristán Karma.


Creio que foi em 1991 ou 1992. Um amigo chamado Fernando, fã do Homem-Aranha e dos Novos Titãs, mas que colecionava também alguns quadrinhos mais alternativos, como Groo e MAD, mostrou-me uma edição original da revista Heavy Metal. Nela, em meio a histórias de ficção científica e aventura, HQs em cores e em P&B, encontrei uma verdadeira joia: “The Adventures of Tristan Karma: Zoo”. Com belíssimas páginas, temas quase mitológicos, algum erotismo e uma referência ao filme A Marca da Pantera, a obra me fascinou no primeiro instante. Somando 46 páginas e assinada por Beroy, aquela era uma das histórias em quadrinhos mais interessantes e originais que eu tinha visto até então (e continua sendo, passados quase vinte anos!).

Começou aí uma verdadeira saga: não encontrando outro exemplar para comprar, iniciei um persistente trabalho de convencimento para que Fernando me vendesse ou trocasse comigo seu exemplar. Triunfei ao final e fizemos uma troca não sei pelo quê. O que importa é que aquela Heavy Metal passou a fazer parte de minha coleção. Recentemente, visitando um dos blogs do amigo Ismael Marfull, descobri que o autor daquela fascinante HQ, José Maria Beroy, é espanhol (e não francês como eu imaginava). Quis então conhecer a versão original de Las Aventuras de Tristán Karma: Zoo, a qual Ismael gentilmente comprou e me enviou de España (gracias novamente, Ismael, e não me esqueci de que estou te devendo alguns quadrinhos!).

Se eu já adorava a HQ no formato magazine, gostei ainda mais ao conhecê-la em sua versão original, no formato álbum europeu. Las Aventuras de Tristán Karma: Zoo tem como figura central o personagem que lhe dá título, um jovem garçom mudo que parece ter a sorte de atrair pessoas e situações fantásticas. Mas, como em muitas das melhores HQs, o protagonista não é exatamente o personagem central das histórias, as quais ele testemunha ou lhes são narradas por outros. Sua primeira aventura envolve uma mulher-pantera e um casaco enfeitiçado; na seguinte, ele descobre um segredo envolvendo magia e antigos baleeiros; no próximo capítulo, entram em cena baratas gigantes e lixo radioativo; no que se segue, vemos marionetes trágicas e um pássaro espectral.

Nas partes finais, temos o retorno de personagens e um desfecho em que os fios narrativos se cruzam. Neste, a atmosfera onírica e a temática ecológica da HQ assumem o primeiro plano, entretecendo um diálogo entre texto e imagem. Antes deste encerramento, porém, a obra de Beroy já conduziu o leitor por um deleite visual, com um estilo predominante, mas diversas variações nas técnicas. Se a base é o traço arte-finalizado, sobreposto por tons e volumes cromáticos, os capítulos trazem outros tratamentos de pintura, colagem e aerógrafo, que ressaltam as diferenças temáticas e o clima de devaneio. Composta de consciência crítica, precisão técnica, inventividade narrativa, sombras e sonhos, Zoo pode ser definida como a mais pura poética em quadrinhos!

Se você é fã da série The Sandman ou gostou de trabalhos como Mr. Punch, essa singular HQ espanhola também irá te encantar. Bela e inteligente, literária e cinematográfica, clássica e contemporânea, Las Aventuras de Tristán Karma: Zoo é (em diferentes sentidos) uma obra rara. Como eu disse anteriormente, uma verdadeira joia dos quadrinhos que merecia continuações e, há quase duas décadas, espera por reedições e também por uma edição brasileira!

6 comentários:

Lillo Parra disse...

Como sempre meu amigo, seus textos são fascinantes e nos instiga a querer ler as obras resenhadas. Fico inconformado com a predileção de nossas editoras em publicar tanto material duvidoso e louco da vida por saber que gibis assim jamais terão uma edição nacional. Ainda bem que algumas raras editoras - como a ARX - ainda possuem lucidez e bom senso e estão começando a investir nos quadrinhos europeus. Parabéns pelo post.
Grande abraço.

Wellington Srbek disse...

Amigo Lillo, quem sabe algum dia... Sejamos otimistas!
Se dependesse de mim, obras fantásticas como Tristán Karma seriam na certa publicadas por aqui!

J. M. Beroy disse...

Thank you for your review, mr Srbek, this will make me happy during weeks :-).
I have sent you an email through another internet server, since it seems you are not received my previous message.

Wellington Srbek disse...

Glad to know that, Mr Beroy! I really love your book!
New e-mail arrived. Gracias y saludos!

Ismael Fancito. disse...

Eu já disse que Tristan Karma era um de meus personagens favoritos? Seria uma grande obra para o programa de quadrinhos escolares.
Creio que o protagonista é um filho errante da noite e um amante do mundo. A união de um protagonista mítico da imaginação ocidental como Tristan com o Karma formam um percurso dramático estruturado por uma dominante vital romântica como era a narração acabada de descobrir em sua repetição rítmica de símbolos e referencias, ademais, sem distinção, cultas e populares. Até hoje só conheci outro desenhista com um universo encadeado de símbolos parecido ao de Beroy, o argentino Alcatena, outro atrtista maravilhoso dominador de iconografias fantásticas e sagradas (no último quadrinho que encontrei utilizava a lenda do Buda Mucalinda e a cobra protetora, com Marco Polo).

Wellington Srbek disse...

Belo comentário, Ismael! Como sempre, você é um mestre em desvendar os meandros simbólicos das obras.
Saludos!