
Meu leitor e amigo de terras de España, Ismael, que já havia escrito um interessantíssimo ensaio sobre SOLAR: Renascimento, publicou agora em seu blog um novo ensaio que ilumina boa parte da simbologia oculta nas páginas de SOLAR: Solo Sagrado. A análise de Ismael é tão atenta que em alguns pontos ela traz à tona elementos simbólicos que não haviam sido conscientemente dispostos por mim (dando uma prova de que muitas vezes uma obra ultrapassa as intenções conscientes de seu autor, ampliando-se nas leituras feitas pelos leitores). Não deixem então de conferir os ensaios iniciáticos de Ismael, a quem fica aqui registrado meu agradecimento.
Mais SOLAR! Quando lancei a revista SOLAR: Renascimento, o colaborador do Universo HQ Lielson Zeni fez uma extensa entrevista de preparação para uma resenha que ele escreveu, com questões gerais sobre meu trabalho e específicas sobre o personagem Solar. A parte principal dessa entrevista acaba de ser publicada numa matéria do amigo Sidney Gusman, podendo ser lida aqui. Aproveitando a oportunidade, com o consentimento de Lielson, reproduzo aqui as partes de nossa conversa que ficaram de fora da matéria. Assim, todos poderão conhecer um pouco mais sobre meu trabalho e minhas ideias. Mas não deixem também de ler as demais perguntas no Universo HQ!
Como você começou a ler quadrinhos?
Quando criança, eu costumava ganhar revistas em quadrinhos, especialmente de super-heróis, pois eu adorava o desenho animado Superamigos. Também ganhava algumas com personagens de seriados da tevê, como Sítio do Pica-Pau Amarelo e Spectromen. Durante toda minha infância, a maior influência cultural que tive foi a televisão, e eu era fã de coisas como Jornada nas Estrelas e os heróis da Hanna-Barbera. No início de 1987, meu desenho preferido era Thundercats e com o sucesso do programa foi lançada uma revista em quadrinhos. Quando vi a propaganda, fiquei louco para comprar a revista, mas quando consegui ir a uma banca, ela já tinha acabado. Comecei então a folhear as revistas de super-heróis que estavam em exposição e uma cena com um monte de super-heróis reunidos chamou minha atenção. Era uma página da Heróis da TV n°91, de uma aventura dos Vingadores desenhada por John Byrne. Gostei tanto que comprei e foi com aquela revista, meio por acaso, que comecei a ler e colecionar quadrinhos. E aqui ainda estou, 22 anos depois.
Como essa leitura se tornou em vontade de produzi-los?
Na verdade, meu caso foi diferente, pois comecei a escrever e desenhar quadrinhos em 1986, antes de comprar a primeira revista de minha coleção. Eu tinha 11 anos e estava naquela fase em que os adultos começam a implicar com a gente para pararmos de brincar com bonecos Comandos em Ação e Transformers. Para evitar as implicâncias, eu guardei os brinquedos e passei a brincar no papel, criando minha primeira HQ, que foi uma supersaga de ficção científica intitulada: “X – A Batalha Final”. Não havia qualquer qualidade artística ou pretensão autoral naquelas 20 páginas arte-finalizadas com caneta esferográfica e coloridas com lápis de cor. Mas foi com ela que tudo começou para mim, como uma brincadeira criativa. Depois que comecei a colecionar quadrinhos em 1987, passei a desenhar e escrever quadrinhos de super-heróis, que basicamente copiavam os X-Men e os Vingadores da Marvel.
Sei que você lê muita literatura e filosofia. Quais são suas influências principais dessas áreas? É influenciado pelo cinema e artes plásticas? E quem são seus quadrinistas de referência?
As influências da literatura e filosofia variam de roteiro para roteiro. Faço muita pesquisa e as influências acabam dependendo de cada trabalho. Em ALIENZ, por exemplo, temos elementos da Física Quântica e da Teoria do Caos. Em SOLAR, temos os mitos indígenas brasileiros. Realmente depende do trabalho. Em relação às artes acontece a mesma coisa, pois pode ser a influência de Guimarães Rosa em ESTÓRIAS GERAIS ou de Ingmar Bergman em FANTASMAGORIANA. Especificamente no caso dos quadrinhos, como queria me tornar um bom autor de quadrinhos, procurei pesquisar e estudar o maior número de autores possível. Mestres como Jack Kirby, Hugo Pratt, Moebius e Flavio Colin influenciaram muito meu trabalho, assim como John Byrne que me transformou num leitor de quadrinhos e Frank Miller que foi o responsável por eu me apaixonar de vez por essa linguagem artística. E há, sobretudo, a influência de Alan Moore, que é meu roteirista favorito e alguém com quem aprendi muito.
De onde surgiu a ideia de usar leis do incentivo pra publicar?
Surgiu da mais pura falta de alternativas para publicar a série SOLAR. Em meados dos anos 90, a situação para os autores brasileiros era ainda pior do que é hoje e eu não conseguiria uma editora para minha HQ. Ao mesmo tempo, eu precisava conseguir recursos para pagar ao desenhista Ricardo Sá para ele poder continuar a se dedicar à série e também para pagar a impressão da revista. As leis de incentivo estavam surgindo e, em 1995, consegui a aprovação para os 7 primeiros números da revista SOLAR, pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. Embora já tivessem acontecido outras iniciativas com financiamento público, acredito que a SOLAR tenha sido a primeira revista em quadrinhos a ser aprovada por uma lei de incentivo.
Qual o maior entrave para publicação de uma revista de HQ no Brasil?
Em termos diretos, o desinteresse dos editores e o preconceito de grande parte dos leitores em relação aos quadrinhos brasileiros. Em termos mais estruturais, as baixíssimas taxas de leitura e a péssima distribuição de renda na sociedade brasileira.
Você acha que o futuro das HQs é os álbuns em livrarias ou acredita em uma volta à distribuição em bancas?
Acho que o futuro dos quadrinhos, se eles quiserem ter um futuro a longo prazo, seria uma conciliação entre veiculação gratuita pela Internet, edições periódicas mais baratas e edições em álbuns e livros mais elaborados. Os quadrinhos precisam continuar formando leitores jovens, por isso veiculações pela Internet e edições mais acessíveis são uma alternativa importante. Ao mesmo tempo, o público mais maduro e com maior poder aquisitivo pode investir nas coletâneas e edições especiais, que ajudam inclusive os quadrinhos a deixarem de ser vistos como uma arte menor ou como apenas “coisa de criança”.
Muita gente acha que o principal problema dos quadrinhos nacionais é, salvo exceções, o roteiro. O que você pensa disso?
Eu penso que isso é uma bobagem. O principal problema dos quadrinhos brasileiros é a falta de interesse dos editores e leitores brasileiros em geral. Além disso, basta ver os trabalhos de autores como Lourenço Mutarelli para sabermos que temos sim ótimos roteiros de quadrinhos no Brasil. Há é claro muita porcaria sendo publicada por aí, mas isso não justifica se dizer que no Brasil não se escrevem bons quadrinhos. Pessoalmente, a resposta que dou para isso são as próprias HQs que escrevo, coisas como ESTÓRIAS GERAIS, FANTASMAGORIANA, QUANTUM, APÓCRIPHA, MUIRAQUITÃ, ALIENZ, entre outros trabalhos.
Como funcionam suas parcerias com os desenhistas? Quem é responsável pela aparência de Gabriel e de Solar, por exemplo?
Sua pergunta tem dois sentidos: um profissional e outro criativo. No primeiro sentido, busco estabelecer uma relação que seja o mais profissional possível com os desenhistas, assinando contratos e pagando pelo trabalho, que passa a ser de direito exclusivo meu. Pagar aos desenhistas foi uma necessidade que surgiu já na primeira versão do Solar, pois sendo um pai de família o desenhista Ricardo Sá não poderia se dedicar ao projeto apenas por diversão. Quando passei a trabalhar com outros desenhistas, mantive esse acordo profissional, pois sou um editor exigente e para exigir qualidade tenho que oferecer uma contrapartida, que no caso é pagar pelas páginas. Esse esquema funcionou bem por muito tempo e possibilitou que obras como ESTÓRIAS GERAIS fossem produzidas e possam hoje ser reeditadas. No outro sentido, criativo, eu passo para o desenhista todas as informações básicas sobre os personagens e ele vai trabalhando o visual até chegarmos a um resultado satisfatório. Assim, tudo começa com minhas ideias, mas tem a marca final do estilo do desenhista. O próprio Gabriel variou muito no traço dos diferentes desenhistas que trabalharam na versão original e também no desenho do Rubens Lima nesta versão atual.


