14/08/2009

Memórias Póstumas de Brás Cubas, a adaptação.


Memórias Póstumas de Brás Cubas foi um dos primeiros livros que me conquistaram como leitor na época em que eu ainda iniciava minha paixão pela literatura. Nos anos seguintes, ampliei meus conhecimentos literários, ao mesmo tempo em que me aprimorava como autor de quadrinhos, lancei álbuns e revistas, enquanto descobria novos autores. E sempre que pensava num livro que eu gostaria de adaptar para os quadrinhos, a obra-prima de Machado de Assis surgia no topo da lista. Foi assim que, no fim de 2008, dediquei-me ao trabalho de transpor Memórias Póstumas de Brás Cubas para os quadrinhos.

Minha concepção sobre as adaptações é a de que elas são uma espécie de tradução; ou seja, elas devem buscar transpor as concepções estéticas e os efeitos narrativos de uma linguagem para outra. No caso específico, buscar reproduzir na linguagem dos quadrinhos os elementos literários presentes na obra original, respeitando é claro as especificidades de cada forma artística. Uma adaptação, portanto, não deve ser apenas a repetição automática das palavras do texto original, mas sim um trabalho de entendimento e reelaboração do conteúdo literário. Minha abordagem específica para a adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas seguiu exatamente essas diretrizes.

Ao estabelecer um diálogo constante entre o narrador, Brás Cubas, e nós, leitores de suas memórias, o texto machadiano é pontuado pela utilização da metalinguagem, dando margem a uma rica recriação através da linguagem dos quadrinhos. Por outro lado, em se tratando de um texto literário delicioso e simplesmente brilhante, o máximo de fidelidade às palavras de Machado de Assis foi uma regra que me impus desde o primeiro momento. Foram necessárias, é claro, pequenas atualizações e edições de texto, para uma adequação à narrativa quadrinística e inclusive à nova ortografia da língua portuguesa*.

No semestre passado, apresentei meu projeto de adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas a algumas editoras. Ao mesmo tempo, busquei um parceiro para este trabalho, encontrando no amigo J.B. Melado alguém, no mínimo, tão entusiasmado quanto eu. Decidimos então pela melhor proposta e, há um mês, assinamos contrato com a Editora Agir do grupo Ediouro que será a responsável pela publicação de nosso álbum, que totalizará 78 páginas de quadrinhos e saíra pelo selo Desiderata. Melado já está trabalhando nos desenhos e a HQ deverá ser lançada em 2010.

Para mostrar um pouco de meu trabalho nessa adaptação, nas próximas postagens vou disponibilizar as doze primeiras páginas de meu roteiro desenhado, acompanhadas do texto machadiano editado para a narrativa quadrinística. Tudo, é claro, começa pela célebre dedicatória reproduzida no alto desta postagem. Espero que gostem do que verão aqui e confiram o álbum quando ele for lançado!

*Já que falei na nova ortografia da língua portuguesa, e não temos mesmo escolha, aproveito então para adotar aqui no blog, a partir desta postagem, o novo padrão de escrita do português.

10 comentários:

Amalio Damas disse...

Parabéns Wellington! Machado de Assis é o cara e Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, são livros mundialmente conhecidos e idolatrados, são daquelas obras eternas que nunca sairão de "moda".

Wellington Srbek disse...

Eh, Amalio, Machado é um gênio e a obra dele é realmente eterna. Reler "Memórias Póstumas" para esta adaptação foi um reencontro muito bacana com um texto que foi muito importante para minha formação enquanto leitor.
A partir de segunda vocês poderão conferir aqui as primeiras páginas do roteiro.
Grande abraço!

Eduardo disse...

caro wellington, saude.fiquei feliz que voce ainda se lembre dos nossos papos,afinal,apos a publicaçao do segundo album de ze gatao,eu optei por sair de cena dos quadrinhos e me dedicar apenas as ilustraçoes que me davam melhor retorno, eu tava cansado de dar murro em ponta de faca, veja bem, eu amo as hqs.(principalmente as nacionais) nao deixei de cria-las, afinal,quem as faz e porque e devotado a esta arte, apenas ao conclui-las elas vao pra minha gaveta. quem sabe um dia eu corra novamente atras de publicaçao? outro dia eu comentava com nosso amigo shima sobre essa nova geraçao de artistas pos-mutarelli que tem sido premiada la fora e como isso e positivo,mas qual a fatia que nos cabe deste bolo? bem,deixemos estas filosofias, estou te escrevendo pra informar sobre um video do ze gatao no you tube. quando puder de uma conferida. e comentar tambem que machado de assis e meu autor preferido de todos os tempos e voce e corajoso em adaptar memorias postumas. vou acompanhar o processo aqui no teu blog. alias hoje em dia nao tenho mais tanto tempo,mas na primeira oportunidade pretendo adaptar um dos chamados "contos avulsos" de machado.
meu caro,nao importa que fantasmagoriana tenha a capa manchada,estou atras deste seu trabalho faz tempo. entao se voce conseguir...
abraços e bons projetos.
eduardo schloesser.

Wellington Srbek disse...

Olá Eduardo,
Depois mande o link direto do vídeo para eu poder conferir.
Eu não acho que as coisas tenham reflexo direto umas nas outras e as premiações beneficiam diretamente apenas os premiados. O importante, na minha opinião, são iniciativas como as da Agir / Ediouro, que tem investido na produção de quadrinhos nacionais - como foi o caso da adaptação de "O Alienista" feita pelos gêmeos e de "Os Sertões" feita por Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa, além é claro de meu próprio trabalho em parceria com Melado, nesta adaptação de "Memórias Póstumas". O que quero dizer com isso é que, na minha opinião, o importante mesmo é criarmos e mantermos um mercado interno para os quadrinhos brasileiros. Ele já existiu nos anos 50 e 60 com o terror e pode ser restabelecido agora com as adaptações literárias e outras obras. Estou trabalhando por isso há muitos anos e acho que as coisas estão ficando mais interessantes agora.
Sobre Fantasmagoriana, escreva direto para meu e-mail que resolvemos isso.
Grande abraço!

Eduardo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=4ArrYtcFgJY
oi wellington, o link e esse acima.
eu nao tenho o teu e-mail.
o que quis dizer em relaçao ao sucesso desses artistas (talentosissimos na verdade)e que muita gente acredita que isso aqueça o mercado abrindo caminho pra outros talentos com menos oportunidades. ja vimos isso antes e concordo com voce nas suas consideraçoes.
e isso ai.
abraçao.
schloesser.

Eduardo disse...

ah, perdoe as minusculas e falta de pontuaçao. e que eu digito mal.

Wellington Srbek disse...

Eh, não sei, acho que o que importa mesmo é termos editoras produzindo quadrinhos brasileiros, para termos cada vez mais mercado para os quadrinhos brasileiros aqui no Brasil.
Meu e-mail wellingtonsrbek @ig.com.br.
Abraço!

Wellington Srbek disse...

Bem legal o vídeo promocional, Eduardo.
Convido a todos para conferir!

Cinthya disse...

Boa sorte, Wellington. Adaptar Machado de Assis para qualquer outra linguagem é um desafio complicadíssimo. Tanto que raramente vemos o texto machadiano no teatro, no cinema ou na TV. Isso porque, ao transpor suas palavras para imagens, muitas vezes sua genialidade é diminuída. Mas sei que você é uma pessoa crítica e conseguirá contornar essa questão!
Um grande abraço!

Wellington Srbek disse...

Olá Cinthya,
Para ser sincero, não achei complicado traduzir a obra de Machado para os quadrinhos. Achei na verdade deliciosíssimo! Deu trabalho, é claro, e tive que deixar passagens do livro de fora, por limitações de espaço (sem falar que uma adaptação que reproduza a obra original mecanicamente, ipsis literis, não é uma boa adaptação). Para mim, esta é uma função da adaptação: criar uma obra nova (por ser em outra linguagem), respeitando e compreendendo a obra original.
Mas meu trabalho de roteiro já está concluído e todos poderão acompanhar as primeiras páginas dele aqui no blog a partir desta segunda.
Aguardarei os comentários! Abraços, Cinthya, e obragado pelos votos!