13/02/2009

Quadrinhos em tempos de guerra (V).


Cinco anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, soldados norte-americanos encontravam-se há milhares de quilômetros de suas casas, lutando em mais uma guerra, esta motivada por disputas locais que foram amplificadas por questões ideológicas globais. O mundo naqueles tempos de Guerra Fria dividia-se entre Capitalismo e Comunismo, duas formas antagônicas de organização econômica e dominação ideológica. Com isso, muitas vezes, conflitos locais em países do chamado Terceiro Mundo acabavam envolvidos no contexto mais amplo da disputa entre as duas super-siglas: EUA e URSS (ou USA e CCCP). Em 1950, a “bola da vez” era a Coréia, e tropas norte-americanas e britânicas desembarcaram no país para auxiliar seus aliados locais a combaterem as investidas do grupo coreano rival, apoiado pelos soviéticos e chineses. Com o país em guerra, alguns quadrinhos norte-americanos reproduziram as fórmulas tradicionais de engajamento patriótico. Não faltaram, é claro, os símbolos nacionais, a exaltação da bravura e do heroísmo dos soldados compatriotas e a detratação dos inimigos, mostrados geralmente como covardes e cruéis.

Contudo, aqueles eram outros tempos e algumas revistas remavam contra a maré do conformismo patriótico. O melhor exemplo são os quadrinhos de guerra produzidos por Harvey Kurtzman para a EC Comics (a editora que já publicava a Tales from the Crypt e que lançaria a Mad). Um gênio relativamente pouco reconhecido, Kurtzman era idealizador, editor, roteirista, muitas vezes desenhista e até capista de suas publicações. Este era o caso de Two-Fisted Tales, antologia bimestral com quadrinhos de aventura histórica. Lançada em novembro de 1950, gradualmente ela foi se tornando uma revista dedicada a histórias de guerra, no geral originadas de testemunhos reais e textos historiográficos. Havia HQs sobre a Guerra de Independência e também a Guerra Civil norte-americana, sobre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, não faltando relatos sobre a Guerra da Coréia, na época em pleno andamento. E o que diferenciava aqueles quadrinhos escritos por Kurtzman e desenhados por uma constelação de artistas (que incluía ele próprio, Wally Wood, Jack Davis, John Severin e Bill Elder) era que não havia ali qualquer glamurização da guerra, nenhuma exibição de patriotismo voluntarista ou exaltação de heroísmos nacionalistas. Originais e inovadores, o que os quadrinistas da EC Comics criavam eram narrativas realistas sobre como é estar num campo de batalha. Eram relatos humanos que falam da dor, do medo, da destruição, do companheirismo, dos crimes e também do verdadeiro heroísmo de pessoas comuns que de repente se encontram numa situação terrivelmente absurda e violenta. Outro fator que diferenciava as HQs da Two-Fisted Tales é que nelas não há a detratação dos inimigos, que ali não são mostrados como seres desumanos ou subumanos.

Talvez nenhuma história represente melhor isso tudo do que “Corpse on the Imjin” que, em suas seis páginas, é o melhor quadrinho de guerra que já li. A história se passa na Coréia, às margens do rio citado em seu título, onde um soldado norte-americano observa o entulho levado pela correnteza, enquanto se prepara para comer sua ração. De vez em quando, em meio a caixas de munição e cartuchos de artilharia vazios, passa boiando o corpo de um coreano. A cena leva o narrador da HQ a se questionar: “Nós ignoramos o entulho que flutua! Por que então fixamos nossos olhos num corpo que passa?”. E o próprio narrador responde no quadro seguinte: “Embora às vezes nos esqueçamos, a vida é preciosa e a morte é feia, e nunca passa despercebida!”. Com essa reflexão, somos deixados na companhia do soldado que abre sua lata de feijão em conserva, enquanto reflete sobre como aquele coreano teria morrido, se por um bombardeio aéreo, disparo de canhão, um tiro ou: “Pode até ter sido num combate corpo-a-corpo... Embora eu duvide disso! Da forma que falam do combate corpo-a-corpo, você pensaria que acontece o tempo todo, quando na verdade eu nunca ouvi falar de alguém que tenha chegado perto o bastante do inimigo para usar uma baioneta. Eu acho que o combate corpo-a-corpo era estritamente uma coisa para os velhos tempos, quando todo mundo lutava com espadas e facas. Agora, com as armas de longo alcance, nós podemos muito bem matar por controle-remoto! E nós nunca chegamos a menos de uma milha do inimigo!”. O que o soldado não percebe (enquanto aquelas palavras passam por sua mente e ele está prestes a abocanhar sua primeira colherada de feijões) é que, ao fundo, escondido num arbusto, um soldado coreano o observa, prestes a atacar. A luta se inicia e volta então o narrador que nos descreve o coreano como: “molhado e assustado e faminto”. Envolvido numa desesperada luta corpo-a-corpo, o soldado norte-americano se vê seguidamente surpreendido e desarmado pelo “pequenino” inimigo. Mas o narrador também sugere que: “Bem dentro de si”, o soldado “não acredita realmente que possa enfiar uma faca em outro ser humano”. E diante da situação, o narrador pergunta ao soldado compatriota: “Onde estão as sacadas espertas que você lê nas revistas em quadrinhos? Onde estão os ganchos de direita estilosos que você vê nos filmes?”. Por fim, contudo, o soldado se vale da vantagem corporal para sobrepujar e matar o coreano, caindo sobre ele, estrangulando e afogando-o nas águas do Imjin. Então, “cansado”, “ofegante” e “tremendo”, o soldado norte-americano deixa as águas do rio, caminhando “envergonhado”. Não há ali qualquer combate glamuroso ou triunfo heróico. O que há é uma luta desesperada pela própria vida. Quando a história segue seu curso para o fim, o narrador nos pede: “Tenha compaixão! Tenha compaixão do homem morto! Pois agora ele não é rico ou pobre, certo ou errado, mau ou bom! Não o odeie! Tenha compaixão... pois ele perdeu a coisa mais preciosa que valorizamos acima de todas... ele perdeu sua vida!”.

Com um desenho intenso, uma narrativa dinâmica e um texto preciso, as seis páginas de “Corpse on the Imjin” têm a força de uma obra de Ernest Hemingway, em seu apelo profundamente humano. Publicada em janeiro de 1952 e incrivelmente atemporal, a HQ parece uma obra escrita por Alan Moore em um de seus melhores momentos (o que serve para nos lembrar que Kurtzman foi de fato uma das principais inspirações criativas de Moore). Acima de tudo, essa pequena obra-prima vem nos mostrar que, mesmo em tempos de guerra e com seu país envolvido num conflito armado, um artista consciente como Harvey Kurtzman não trai seus princípios, nem se deixa levar pelas fórmulas da propaganda ideológica. Um exemplo raro e verdadeiramente admirável para estes nossos tempos tão sangrentos!

4 comentários:

Ismael Fancito. disse...

Creio que jamais lerei essa HQ nem outras dessas histórias de guerra. Se fossem desenhadas por Joe Kubert existiria a possibilidade de uma edição espanhola como a de Enemy Ace.
Conheço a este autor pela gente que escreve na internet.

Wellington Srbek disse...

Kurtzman é um gênio, amigo Ismael! Tenho poucas coisas dele infelizmente. Uma delas é a reedição comemorativa da MAD #1 (a qual ele ilustrou a capa, escreveu e esboçou inteiramente para que outros artistas fizessem o desenho). E tenho também reedições de "Two-Fisted Tales".
Atualmente, uma editora norte-americana está relançando a coleção completa da "Two-Fisted Tales" em edição definitiva, com capa-dura e sobrecapa (seis revistas por volume). Na Amazon esses livros são vendidos com desconto.
Além disso, em 1993 foi lançada "The New Two-Fisted Tales", com capa de Eisner e Kurtzman, novas histórias de guerra e a reedição de "Corpse on the Imjin" (que é a versão que tenho, na qual infelizmente as cores não ficaram muito boas - principalmente se comparado com a revista original ou com uma reedição dos anos 80). Uma nota triste é que Kurtzman morreu pouco antes de esta revista ser lançada e não viu a celebração de um de seus trabalhos mais importantes.
Abraço!

Anônimo disse...

Olá Wellington, boa tarde!
Gostei bastante do texto sobre o Kurtzman. Como curiosidade, você sabe quais histórias dele foram publicadas no Brasil?
Abraços
Sérgio

Wellington Srbek disse...

Olá Sérgio,
Legal ter gostado! Há também aqui no blog uma biografia do Kurtzman que publiquei no ano passado (basta clicar no nome dele abaixo da postagem que você a encontra).
Que me lembre agora, creio que só mesmo a coletânea de Little Annie Fanny que a Playboy publicou. Acho que não há nada mais dele publicado recentemente no Brasil. Em inglês há bastante coisa, como as reedições dos primeiros números da MAD e da Two-Fisted Tales, além de coletâneas de cartuns e textos.
Abraço!