03/11/2008

Os 80 anos de Osamu Tezuka, o “deus dos mangás”.


Como acontece com outras linguagens artísticas, a história dos quadrinhos fez-se com a contribuição de centenas de profissionais dedicados e talentosos. Mas entre eles, na certa, têm lugar especial alguns artistas geniais, cujas obras inovadoras transformaram a história dessa arte. Ao lado de nomes como Will Eisner, Jack Kirby e Hugo Pratt, poucos autores foram tão importantes e talvez nenhum tão influente quanto Osamu Tezuka. Criador do estilo japonês de fazer quadrinhos, se estivesse vivo, esse médico que dedicou a vida às HQs e animações completaria hoje oitenta anos de vida.

Nascido na região de Osaka, quando criança Osamu Tezuka era um fã de quadrinhos e desenhos animados, sendo fascinado pelas primeiras produções de Walt Disney. Naquela época, o Japão havia deixado a postura isolacionista dos séculos anteriores, assumindo ao contrário uma agressiva política expansionista. Isto, no entanto, levou o “Império do Sol Nascente” a ser reduzido a cinzas, com o fracasso militar e os bombardeios incendiários durante a Segunda Guerra Mundial. O fato é que a derrota para os Estados Unidos e a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki deixaram marcas profundas na sociedade japonesa, que passou por um processo de ampla reconstrução.

No contexto do pós-guerra, os mangás assumiram um papel de válvula de escape para as tensões cotidianas, bem como de veículos para a reafirmação da identidade nipônica. Assim, ao mesmo tempo em que preservavam suas tradições culturais, os japoneses se voltavam para um ideal de futuro, no qual a tecnologia e a paz assegurariam a felicidade pessoal e coletiva. Em 1946, quando ainda cursava a faculdade de Medicina, Tezuka começou a publicar seus primeiros quadrinhos, com personagens em estilo catunizado e grandes olhos inspirados nas figuras de Disney e do teatro japonês. E embora tenha se formado como médico, seu destino estava mesmo nas páginas dos mangás.

Em abril de 1951, Tezuka publicou na revista Shonen uma HQ com um personagem coadjuvante que logo assumiria o lugar de protagonista. Era Tetsuwan Atomu (o “Poderoso Átomo”), um robozinho movido a energia nuclear, que luta pela paz mundial. A história começa no futurístico ano de 2003, quando os humanos habitam cidades tecnológicas repletas de robôs falantes e carros flutuantes. Arrasado com a morte de seu filhinho Tobio, um cientista chamado Dr. Tenma decide construir um substituto robótico, mas se desespera ao ver que a cópia jamais se igualará ao original. O menino-robô acaba então encontrado pelo bondoso Prof. Ochanomizu, que lhe dá um lar e uma família.

Pelo estilo de desenho conciso, narrativa dinâmica e temática atraente para o público infantil, Tetsuwan Atomu tornou-se um fenômeno de popularidade imediato. Em pouco tempo, o estilo cartunizado com personagens de olhos gigantescos, as sequências “cinemáticas” e as histórias de ficção científica com monstros e robôs tornariam-se marcas registradas dos quadrinhos japoneses. E se pode ser considerado o pai dos mangás modernos, Tezuka é também o responsável pelo desenvolvimento dos animes. Afinal, foi o sucesso das HQs de Tetsuwan Atomu que deu origem, em 1963, à primeira série de animação da tevê japonesa, rebatizada no Ocidente com o nome: Astro Boy.

Embora tenha desenhado os quadrinhos de seu Pinóquio futurista ao longo de dezoito anos, Astro Boy foi apenas uma das muitas séries e obras criadas por Tezuka. Seguiram-se sucessos como Kimba, o Leão, A Princesa e o Cavaleiro, Black Jack, entre outros. Algumas dessas séries também deram origem a seriados de animação. Contudo, nas palavras do próprio Tezuka, se os mangás eram sua “esposa”, os animes eram a “amante” que apenas lhe tirava dinheiro, levando até mesmo à falência de seu estúdio nos anos 70. Ainda assim, no início dos anos 80, Tezuka produziu oito episódios do abortado anime Don Dorakyura (o inesquecível Dom Drácula exibido no Brasil pela Rede Manchete).

Consagrado no Japão e reconhecido em outros países, na última década de vida Tezuka pôde se voltar a trabalhos mais adultos e autorais, como a HQ histórica Adolf e a biográfica Buda (ambas lançadas no Brasil pela Conrad). Isso sem falar em Phoenix, uma saga que entrelaça passado, presente e futuro, envolvendo reencarnação e filosofia budista, numa busca pelo sentido da vida. Após criar cerca de 150 mil páginas de quadrinhos e produzir centenas de horas de animação, Osamu Tezuka faleceu aos 60 anos, em 1989, vítima de um câncer. Um dos mais produtivos quadrinistas de todos os tempos, a qualidade e a importância de sua obra fazem-no realmente merecedor do título de "deus dos mangás".

5 comentários:

Aline disse...

A matéria está 10! O mais interessante é esse contexto japonês... E parabéns pelo aniversário! Vai ter bolo? A matéria sobre "Um pouco da história dos quadrinhos brasileiros" ficou com o bronze, mas é minha preferida.
Abraços e sucesso sempre!

Wellington Srbek disse...

Querida Aline, acho que não vai ter bolo, mas seria muito legal podermos reunir os leitores do Mais Quadrinhos para celebrarmos.
Que bom que você gostou da matéria sobre o Tezuka. Acho importantíssimo a questão da contextualização histórica, afinal niguém "brota" do nada, não é? Para mim, o contexto histórico sempre nos ajuda a entender melhor um autor ou uma obra.
Valeu pelos comentários. Beijo!

Dênio disse...

Pois é, Srbek. De médicos e quadrinistas, todos temos um pouco. Parabéns pela matéria. Está muito boa. Abraços e sayonara.

Wellington Srbek disse...

Arigato, Dênio-san!

Anônimo disse...

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