27/04/2008

Com a assinatura, mas não o talento de Alan Moore.


Alan Moore foi, ao lado de Frank Miller, o roteirista mais influente dos quadrinhos norte-americanos na década de 1980. Após um período de ausência das HQs de super-heróis, que jurou jamais escrever novamente, ele retornou ao gênero que o consagrou com a revista Spawn n°8, sua primeira experiência com os personagens criados por Todd McFarlane. A ela seguiram-se outras produções para a Image Comics, em sua maioria trabalhos notáveis por sua baixa qualidade, como a minissérie do Violador.

Entre 1984 e 1989, com as séries Monstro do Pântano, Watchmen, V de Vingança e Miracleman, Alan Moore ajudou a revolucionar os quadrinhos norte-americanos. Mas, depois de muito sucesso e de uma aclamação pública poucas vezes vista por um autor de quadrinhos, ele decidiu se afastar das grandes editoras (em quê pesaram os problemas contratuais que teve com a DC Comics). A partir daí, Moore passou a dedicar-se a trabalhos mais autorais e pessoais, como HQs curtas para revistas independentes e coletâneas (onde surgiram From Hell e Lost Girls), além das graphic novels Brought to Light e A Small Killing.

Aproveitando o renome internacional e estimulado por outros editores independentes (como Dave Sim da série Cerebus), Moore decidiu montar sua própria editora. Nascia então a Mad Love, na qual o roteirista tinha como sócias sua esposa Phyllis e a namorada dos dois Debbie. Para a editora, eles lançaram a edição especial AARGH (“Artistas Contra Agressiva Homofobia Governamental”), uma coletânea voltada a angariar recursos a serem usados contra uma proposta de lei do governo Margaret Thatcher. Em seguida, veio a série Big Numbers que contava com a fantástica arte de Bill Sienkiewicz, mas que enfrentou imensos e ainda misteriosos problemas, sendo interrompida em seu segundo número.

Toda a confusão envolvida na interrupção de Big Numbers levou não apenas ao rompimento entre Moore e Sienkiewicz, mas também ao fim de seu casamento a três e à falência de sua editora. Enfrentando problemas pessoais e endividado, talvez o roteirista não tenha tido escolha, a não ser voltar atrás com sua palavra, retornando ao gênero dos super-heróis. Naquele início dos anos 90, a Image Comics representava uma alternativa às gigantes do mercado norte-americano, Marvel e DC Comics, as quais Moore abominava. O primeiro contrato assinado por ele com a nova editora foi a controversa minissérie 1963, que também ficaria inacabada e levaria a outro rompimento pessoal, dessa vez com o desenhista Steve Bissette.

Porém, McFarlane antecipou-se ao lançamento da minissérie, contratando Moore (“a peso de ouro”, segundo se diz) para escrever o roteiro de Spawn n°8. Lançada em fevereiro de 1993, a HQ não passa de um reaproveitamento de elementos que o roteirista já havia utilizado em histórias do Monstro do Pântano. Mas, fazer o quê? Moore precisava pagar suas dívidas e aproveitou para fazer algum dinheiro sem muito esforço, e talvez também tenha visto uma oportunidade de prejudicar as grandes editoras, somando seu prestígio ao sucesso dos personagens de McFarlane. Contudo, nem tudo isso pode servir de justificativa para trabalhos tão pobres quanto a minissérie Violator, lançada no primeiro semestre de 1994 e desenhada por Bart Sears (mais conhecido por sua fase na série Liga da Justiça da Europa).

Violador é um demônio condenado a permanecer na Terra, desprovido de seus poderes e na forma de um anão com cara azul. A história escrita por Moore começa quando um bando de gângsteres falha na missão de eliminar o demoníaco anãozinho. Com a derrota de seus capangas, o “Poderoso Chefão” da vez resolve contratar um assassino profissional chamado Punidor. O que se segue é uma carnificina sem propósito, pontuada de um humor bastante questionável. Para quem tinha acompanhado os trabalhos do roteirista inglês ao longo dos anos 80, as HQs produzidas por ele com os personagens de McFarlane foram uma desagradável surpresa. Ficou a sensação de que, de fato, Moore não se importou em simplesmente ganhar um dinheiro fácil, explorando seu próprio prestígio e o meteórico sucesso de McFarlane.

Na época, os fiéis leitores perguntaram-se como um autor tão brilhante e original poderia estar produzindo trabalhos tão ruins. Provavelmente, a resposta para isso está no momento pelo qual ele passava na época. Por outro lado, também naquele momento, Moore mergulhava no estudo e prática da magia, buscando tornar-se um "xamã" moderno. Segundo ele próprio, esse passo foi decisivo para uma nova virada criativa em sua carreira, que impulsionaria trabalhos bem mais interessantes (como a série Promethea). Trabalhos que trouxeram, mais uma vez, não apenas a assinatura, mas o talento de Alan Moore.

8 comentários:

Guilherme Neto disse...

Ah, até tinha uma curiosidade de ler o Spawn do Alan Moore, já que adoro as HQs dele, apesar de odiar a obra de Todd Mcfarlane.

Mas perdi a vontad!! hehe

Wellington Srbek disse...

Mais um serviço prestado pelo Mais Quadrinhos!
Pode acreditar, Guilherme, não vale a pena para quem gosta dos trabalhos do Alan Moore. A não ser, é claro, para conhecer, por curiosidade.
Abraço!

Aleph Ozuas disse...

Ótimo artigo wellington. Acabo de encontrar o seu blog procurando no Google sobre o Moore. Virei leitor, parabéns.

Wellington Srbek disse...

Obrigado, Aleph!
Já temos aqui vários textos sobre a obra de Moore (e olha que nem falei ainda de Watchmen, Miracleman e outras obras-primas dele).
Seja então bem-vindo e volte sempre!

Anderson Cossa disse...

Realmente essa passagem do Alan Moore pelo universo de McFarlane só serve de curiosidade de tão boba que foi. Acredito que o Moore se recuperou financeiramente no Wildcats, não? Porque apesar de ter feito coisas legais por lá, fica claro sua atuação de pistoleiro de aluguel na revista.

Wellington Srbek disse...

Um dos problemas dessa fase inicial na Image, além da disseminada falta de qualidade nos roteiros dele, é que a maior parte das idéias interessantes era, na verdade, uma reciclagem do que ele tinha feita em Swamp Thing ou outros trabalhos dos anos 80. O Wild C.A.T.s que você cita, Anderson, é um bom exemplo disso. De tudo o que Alan Moore fez para Image e estúdios associados, o mais interessante são os trabalhos derivados de outros quadrinhos: as releituras das primeiras revistas da Marvel feita na minissérie 1963 e a homenagem ao Super-Homem clássico feita em Supremo. Mas tudo que ele fez para McFarlane é basicamente lixo cultural.

J Júnior disse...

Tenho todas as edições do spawn, e digo que a fase do Alan com todd foi fraca já que ele é um genio.
Mas se comparar a miniserie do violador, com as ediçães do spawn na atualidade, vc consegue ver que é uma otima revista!

Wellington Srbek disse...

Mas se você comparar com qualquer coisa mediana que o Moore fez, vai ver que Violador é bem pior.
Grande abraço!