05/03/2008

A longa jornada do Lobo Solitário.


Em julho de 1988, viajei em férias com minha família para o Espírito Santo. Na época, eu já era um ávido colecionador de quadrinhos e não poderia arriscar perder um número de minhas revistas favoritas (afinal, colecionadores não tiram férias, não é mesmo?). Para minha sorte, havia uma bicicleta na casa de praia que alugamos, e pude usá-la para procurar uma banca de revistas. Enfim, cheguei a uma banca que ficava próxima a uma padaria, à beira de uma estrada que terminava no mar (não me perguntem como consigo, depois de vinte anos, lembrar-me desses detalhes!). Rapidamente constatei que não havia saído nenhum número de Superaventuras Marvel, Novos Titãs ou qualquer outro dos formatinhos da Abril que eu colecionava. Foi aí que chamou minha atenção uma revista em formato maior, que mostrava na capa um raivoso samurai segurando numa mão uma espada ensanguentada e na outra um bebê com um estranho corte de cabelo.

A ilustração em si era bastante convidativa e o estilo de desenho não me era estranho. Isso porque, um ano antes, eu havia me tornado um fã de quadrinhos com ninjas e samurais, depois de ler a minissérie Wolverine, desenhada por Frank Miller. O fato é que o renomado quadrinista norte-americano era também o autor daquela ilustração de capa e de uma introdução na abertura da revista. Aí foi fácil ligar os pontos, pois aquela edição em “formato americano”, com miolo em preto & branco e repleta de duelos de espadas, era o número 1 da primeira publicação brasileira de Lobo Solitário, o influente mangá de Kazuo Koike e Goseki Kojima (sobre o qual eu já havia lido, mas o qual não conhecia ainda). Naquela banca, havia também os números 2 e 3 da edição da Cedibra, o que me leva a pensar hoje que se tratava de uma redistribuição para o mercado capixaba, de revistas que haviam sido vendidas em outros estados (mas que, até onde sei, não haviam chegado ainda às bancas de minha cidade natal, Belo Horizonte).

O que importava para mim naquele momento era que, não tendo encontrado nenhuma revista que eu colecionava, eu tinha dinheiro “sobrando” e não queria voltar de mãos vazias. Posso dizer que os 250 cruzados indicados na etiqueta de remarcação na capa foram muito bem investidos! De volta à casa de praia, naquele mesmo dia, pulei no beliche em que dormia e devorei as primeiras páginas da saga do injustiçado Itto Ogami e seu filinho Diagoro. Foi uma revelação! A temática interessante, a narrativa perfeita, os desenhos precisos e a ação dinâmica conciliada às informações culturais eram tudo que eu podia pedir. É claro que não resisti e, no dia seguinte, voltei à banca para comprar os números 2 e 3, pelo mesmo preço de 250 cruzados cada (o que provavelmente “estourou” meu limitado orçamento). Também trazendo introduções e capas de Miller, as revistas avançavam na saga, com direito a um mergulho no cotidiano e na espiritualidade do Japão feudal, muitas batalhas e duelos em que o Lobo Solitário exibia toda sua elegância e perícia na fina arte de trucidar os adversários.

Aquele foi meu primeiro contato com um mangá (e uma das primeiras vezes que li essa palavra) e posso dizer que comecei logo por um dos melhores. Lançado no Japão em 1970, Kozure Okami tornou-se um enorme sucesso, com milhões de exemplares vendidos e posteriores adaptações para o cinema, tevê e teatro. A coleção completa de Lobo Solitário soma mais de 8.500 páginas, distribuídas em 28 volumes. A primeira edição ocidental da obra de Kazuo Koike e Goseki Kojima foi lançada nos Estados Unidos pela First Comics, em 1987, contando com capas de Frank Miller e Bill Sienkiewicz (admiradores da série japonesa e estrelas do mercado norte-americano na época). A publicação, contudo, foi interrompida, deixando Lone Wolf and Cub incompleta (o que perduraria até o início deste século, quando a Dark Horse assumiu a série, usando como referência a edição japonesa). Mas foi mesmo a edição da First Comics que serviu de base para a primeira publicação brasileira, que seguiu o formato americano, número de páginas e ordem de leitura invertida para o padrão ocidental.

Além de seguir os modelos gráficos, a edição da Cedibra também copiou da matriz norte-americana o destino de permanecer incompleta. Com papel de pior qualidade no miolo, ao preço de 1 cruzado novo e cinquenta centavos, a série foi cancelada em 1989, em seu nono número. No ano seguinte, a editora Nova Sampa retomou a publicação, num formato menor, mas com mais páginas por edição. Chegando às bancas com uma outra moeda, ao preço de 120 cruzeiros (nos meses seguintes 150, 210, 400...), a nova versão também trazia como novidade as belas capas pintadas por Bill Sienkiewicz. Porém, essa versão almanaquinho seguiu os passos da anterior, sendo também interrompida em seu nono número, que chegou às bancas com uma capa ilustrada por Matt Wagner (e custando 900 cruzeiros). No início dos anos 90, a Nova Sampa ainda insistiu lançando Lobo Solitário como revistinha, com menos páginas, capas ruins e menor qualidade gráfica, numa tentativa que se encerrou em seu quinto número, ao preço de 2 reais e cinquenta centavos.

Numa trajetória com tantas interrupções e muitos altos e baixos, não era de se espantar que os detentores dos direitos autorais no Japão ficassem ressabiados em permitir uma nova edição brasileira. Felizmente, com a estrutura e recursos financeiros necessários, a Panini lançou a partir de janeiro de 2005 (tendo como modelo os 28 volumes da coleção japonesa) sua competente edição completa de Lobo Solitário, em bom papel, impressão adequada, mais de 300 páginas por número e o preço acessível de 12 reais e noventa centavos (que se manteve até o último número em abril de 2007). Para os leitores brasileiros, que seguiram toda a acidentada trajetória de Itto Ogami e Diagoro, foram quase 10 anos de espera. Uma longa jornada que certamente se justifica, se considerarmos a qualidade e importância da obra em questão: um clássico absoluto dos quadrinhos mundiais. Agora, para mim, só resta encontrar tempo para devorar as mais de 8.500 páginas de Lobo Solitário.

8 comentários:

Barba Magnética disse...

Excelente texto. Não há como negar, Lobo Solitário esta entre as 3 melhores hqs do mundo. Quero ver alguém produzir mais de 8000 páginas sem deixar a qualidade cair.

Wellington Srbek disse...

Obrigado, Barba!
Sim, Lobo Solitário, Corto Maltese, The Spirit e mais alguns outros são aqueles quadrinhos que fazem a gente jamais se esquecer de quão fantástica essa arte pode ser (com apenas linhas e palavras, em preto e branco).

Ismael Fancito. disse...

Me agrada muito conhecer estas pequenas histórias da publicação de um manga. Se faz só um ano alguém me tivesse dito que este manga se começou a publicar em Brasil em 1988 não lhe teria crido. Pelo menos não se lhes pode negar a esses editores brasileiros o ter tentado publicar um grande manga em vez de obras japonesa medíocres ou insofríveis como fizeram as grandes editoriais espanholas quando começaram a publicar mangas. A exceção da editorial A cúpula (os da revista de histórias em quadrinhos o Víbora) que trouxeram a Tatsumi, quiçá o primeiro autor japonês que eu li.
Lobo solitário não o conheci até faz muito pouco, ainda que para compensar essa falta de originilalidad que levou a publicar tantos mangas de menor qualidade (e piores vendas, segundo sabemos agora) nada mais terminar a publicação desta série começaram Assa o executor, também de Koike e Kojima, que ainda não li completa. O mellor é que quando terminas de ler qualquer episódio não podes assegurar que tão só se trate de uma ficção.
[O enlace do Quarto Mundo não funciona, creio que mudaram a direção.]

Wellington Srbek disse...

A publicação de Lobo Solitário, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, deve muito à popularidade e prestígio de Frank Miller, após o sucesso de O Cavaleiro das Trevas.
O Quarto Mundo tinha mudado de endereço. Já corrigi o "enlace-link".
Gracias!

J Júnior disse...

exemplo de que a 9ª arte é arte!!!
Lobo solitario da aquela sensação de fechar a revista para ver se altera a historia!

Wellington Srbek disse...

Realmente uma das melhores séries de quadrinhos já feitas!

tavares disse...

Cara! consegui completar toda a coleção da panini. Lobo solitário é o melhor mangá de todos que eu li até agora. To a fim de conhecer Usagi yogimbo,o coelho samurai,que dizem ser bom também! um abraço.

Wellington Srbek disse...

Olá Tavares,
Lobo Solitário talvez seja até mesmo a melhor série de mangá de todos os tempos!
Já o coelho samurai é um mangá norte-americano bacaninha, mas não chega perto do trabalho do Koike e Kojima. Há uma postagem sobre ele aqui no blog se se interessar.
Grande abraço!