07/11/07

Pererê, uma aventura brasileira.


Em abril de 1964, foi lançado o último número da revista Pererê, uma das mais memoráveis e bem-sucedidas experiências dos quadrinhos brasileiros. Escrita e desenhada por Ziraldo, com arte-final de Paulo Abreu, cores de Heucy Miranda e letras de João Barbosa, em suas 43 edições mensais, a Pererê marcou época e deixou saudades. Saudades de um Brasil que era feliz.

A aventura em quadrinhos de Ziraldo & Cia. começou no fim dos anos 50, quando o cartunista mineiro trabalhava na equipe de produção da revista O Cruzeiro. Sendo a publicação nacional mais importante da época, O Cruzeiro trazia reportagens especiais sobre nossa cultura e sociedade, matérias sobre comportamento e moda, além de colunas políticas e páginas de cartuns (as “piadas desenhadas”).

A equipe de humoristas daquele importante semanário era uma verdadeira constelação: Péricles, Carlos Estêvão, Millôr Fernandes, Borjalo e o próprio Ziraldo, que passou a publicar cartuns silenciosos estrelados por um saci pererê. Timidamente, ocupando meias-páginas, nascia (ainda que em esboço) um dos principais heróis de nossos quadrinhos.

Em meio ao clima nacionalista da época, os editores de O Cruzeiro decidiram lançar revistas em quadrinhos com personagens brasileiros. A primeira e mais duradoura delas foi exatamente a Pererê, lançada em outubro de 1960. Conquistando leitores por todo o país, a primeira revista em quadrinhos brasileira totalmente colorida tinha a impressionante tiragem mensal de 120 mil exemplares. Com um desenho moderno e cores vivas, reinventando a narrativa quadrinística e dialogando com a cultura, a revista do Saci tinha a cara e a alma do Brasil.

Além de seu protagonista de uma perna só, a série trazia os simpáticos personagens da Mata do Fundão: o valente índio Tininim, a onça Galileu Bonifácio, o macaco Allan, o tatu Pedro Vieira, o jabuti Moacir e o coelho Geraldinho. Havia ainda a amorosa Mamãe Docelina e o intelectualizado corujão General Nogueira. Embelezando as páginas, apareciam as meninas Boneca de Piche e Tuiuiu, musas de Saci e Tininim, mas também motivos de disputas dos meninos com os rivais Rufino e Flecha Firme. E por falar nos “vilões” da revista (que na verdade não tinham nada de maus), o onção Galileu não podia dormir no ponto, senão acabava capturado pelos caçadores Compadre Tonico Macedo e Seu Neném Moreira, sempre às voltas com as mais mirabolantes armadilhas.

Passadas num ambiente natural e valorizando a vida no campo, aquelas aventuras tinham muito das memórias da infância de Ziraldo na pacata Caratinga (MG). Mas a Pererê também tinha um pé no mundo moderno, afinal, o Saci e seus amigos costumavam viajar para fazer compras na “cidade” ou para visitar o Rio (de Janeiro). Por dentro das novidades e ligados em eventos importantíssimos como a Copa do Mundo, amigos do Tarzan e admiradores da Arte Modernista, os meninos da Mata do Fundão só não gostavam muito da televisão, preferindo um bom livro de aventuras. E para causar espanto naqueles verdadeiros superamigos, só mesmo a aparição de um disco voador ou de um alienígena em pessoa.

Cultura popular e ficção científica, humor e aventura, cartum e literatura são alguns dos ingredientes de uma mistura de sucesso, uma série em quadrinhos na qual a diversão anda de mãos dadas com a arte. Mostrando um Brasil cheio de vida e orgulho de si próprio, habitado por índios e gente-de-faz-de-conta, animais falantes e heróis camaradas, a revista Pererê acabou no dia da mentira, em 1° de abril de 1964. Começava então uma outra época, triste e sombria, chamada Ditadura Militar, na qual era proibido dizer ou escrever tudo o que se pensava. Amigo da festa e da alegria, o esperto Saci de Ziraldo já não podia viajar livremente, montado em seu fiel redemoinho de vento.

Mas, depois de muita luta, felizmente aquele tempo triste e sombrio virou história. E hoje os antigos leitores da Pererê podem reencontrar o Saci e sua turma, enquanto os novos leitores podem viajar pela deliciosa descoberta daquele Brasil que era feliz. As histórias originais da Turma da Mata do Fundão podem ser encontradas nos álbuns da coleção Todo Pererê da editora Salamandra. Vale conferir!

Texto baseado em meu livro inédito Pererê, uma aventura brasileira.

12 comentários:

Anônimo disse...

Não conhecia este espaço virtual. Falha exclusiva minha. Já ganhou um leitor assíduo. Sucesso em mais esta empreitada quadrinística que precisa, sempre e mais, de bons textos como os seus. Abraço do leitor Paulo Ramos.

Wesley Viana disse...

Parabens pelo blog, Srbek.E um otimo espaco para quem quer saber mais sobre os quadrinhos. Sugiro uma postagem sobre os principais autores e desenhistas brasileiros, inclusive os contemporâneos.

Guga Schultze disse...

Pô, o Pererê foi um dos meus companheiros de infãncia! E teve uma época em que eu fiquei apaixonado pela Tuiuiu.
Ótimo o blog. Parada obrigatória pra quem curte a arte da hq. Abraço, Wellington, valeu!

Alexandre Nagado disse...

Cara, parabéns pelo novo espaço!

Já vou incluir entre os favoritos no site del.icio.us/nagado

Sucesso!!!!

Nagado

Rodrigo Lara disse...

Realmente muito bom este Blog, matérias com conteúdo bastante interessante, tudo que é cultural é necessariamente válido ainda mais se for quadrinhos visite também o meu Blog
http://rodlaradeseign.blogspot.com
e se puder deixe um comentário!!!!

Rodrigo Lara

Rodrigo Lara disse...

desculpe o endereço certo é esse
http://rodlaradesign.blospot.com

Bira disse...

Putz, Srbek, que blog bacanudo, cara! Parabéns!
Já virei leitor diário!

Ismael disse...

Un enlace onde leron a sua obra, o blog de comics espanhol mais conhecido (La Carcel de Papel):

www.lacarceldepapel.com/?p=509

Oxalá que algum organismo dos moitos festivais de comics espanhois o conviden no 2008!

Ismael disse...

Errei no caminho...

www.lacarceldepapel.com/?p=1131

Wellington Srbek disse...

Hola Ismael,
Esta foi uma das melhores resenhas que saíram sobre o Tierra de Histórias (Estórias Gerais).
!Gracias!

Sávio Christi disse...

1) A palavra personagem é feminina, vem de "persona" (pessoa em espanhol, italiano e latim), também a regra gramatical diz que as palavras acabadas em "agem" são femininas (se bem que há uma exceção; mas no momento, esqueci qual é)...

2) O nome do Alan só tem um L, também o caçador se chama Sêo Neném com O (só não cito o fato do nome da Boneca de Pixe (na realidade, Boneca-de-Piche com CH) estar sem os hífens; por ser apenas um detalhe)...

3) Faltou vocês dizerem que foi a primeira revista em quadrinhos brasileira criada por um único artista...

Wellington Srbek disse...

1) Eu, como diversos outros autores, opto por utilizar a palavra "personagem" no masculino, quando se trata de personagens masculinos. Sei muito bem que, gramaticalmente, a palavra é feminina, portanto esta é uma opção consciente e não um erro de alguém que não conheça a língua portuguesa.

2)Você está equivocado, pois na série original Pererê, que tenho em minhas mãos neste momento, o personagem macaco Allan tem o nome com dois ls, como está no texto. E sim, o outro personagem é chamado na série "Sêo", mas isso é um tanto arcaico, então optei por atualizar para "Seu". Quanto ao nome da Boneca, agradeço a indicação do erro no "x" que será corrigido.

3) Não acho que sua observação seja correta, uma vez que o Ziraldo trabalhava na revista em parceria com um arte-finalista, um colorista e um letrista, cujo talento e trabalho não podem ser desconsiderados.