01/01/2014

“Horas douradas”

Como já fizeram muitos autores, podemos comparar a vida a um livro dividido em capítulos. Começa-se engatinhando pelas páginas lúdicas da infância, depois se marcha para os intermináveis parágrafos dedicados à escola, que nos levam às aventuras e paixões da adolescência e juventude. Se prosseguirmos bem, chegamos à idade adulta com um enredo já encaminhado e, em muitos casos, outras obras a nos fazerem companhia.

Se mantivermos a metáfora da vida comparada a um livro, há uma coisa que apenas no caso deste é possível fazer: pular páginas, capítulos ou, no afã de descobrir o destino do protagonista, trapacear na leitura e dar uma espiada no final do volume. Na vida, não. Na vida, é claro, temos que ler frase por frase, momento por momento. E, se a passagem do tempo me ensinou algo, é que o melhor é mesmo não querer acelerar o andamento dessa história, é viver inteiramente cada uma de suas linhas.

Mas há uma coisa que, assim como os livros, a vida também nos permite, pelo menos àqueles que mantêm diários detalhados, colecionam fotos ou têm uma boa memória autobiográfica. Como nos livros, também podemos, através de nossas lembranças, voltar a páginas passadas, reviver momentos, entender melhor trechos que não nos foram muito claros na primeira leitura, ou até reencontrar personagens que participaram do enredo, mas que depois saíram da trama.

Se pensarmos bem, como o futuro ainda não existe e o passado sempre dá lugar ao que vem depois, o que temos de fato é o presente. É desta perspectiva, em movimento a cada instante, que vivenciamos a vida, olhando para trás e vendo o caminho que traçamos, olhando para frente e tentando acertar o passo com os rumos que a vida nos traz. Com seus acertos e erros, fins e recomeços, a vida de cada um de nós é singular. A história de cada um de nós é “obra única”, que, mesmo compartilhada com vários coadjuvantes, só é conhecida na íntegra por seu protagonista.

Não vivemos no passado nem devemos viver dele. Porém, nossa memória e seus auxiliares, diários, cartas, fotos, vídeos, têm o incrível poder de tornar presente algo que já passou. Como num livro, em que só se pode ler uma frase de cada vez, também a vida, com toda a sua imprevisibilidade, só pode ser vivida a cada instante. E o que podemos fazer é torcer e trabalhar para que ela nos reserve belas frases; ou, utilizando outra metáfora, que ela nos dê de presente muitas “horas douradas”, para guardarmos com carinho na memória.

(Para a autora da foto, com quem compartilhei muitas "horas douradas", meu desejo de que a vida lhe traga muitas mais!)

2 comentários:

M D Roque disse...

Olá, eu sou a D e adoro literatura, poesia e textos bem escritos. Também sou fanática por fotografia .
Sou fã incondicional do Corto Maletese, e no mês passado consegui finalmente os 4 livros do 3º Testamento :)
Gostei bastante e fiz-me seguidora
Xi-<3 D
http://acontarvindodeceu.blogspot.pt

Wellington Srbek disse...

Olá D,
Legal que tenha gostado do texto e do blog. Tem postagens sobre Corto Maltese e Hugo Pratt aqui.
Abraço!