14/06/2013

Brasil, mas que “República” é esta?

Nasci em 1974. A antiga República brasileira completava então 85 anos; e aquela velha senhora dava sinais de que não ia nada bem. Após viver uma crise da meia-idade nos anos 30, com o Estado Novo ditatorial de Vargas, a República brasileira vivia a pior fase de uma nova Ditadura militar instaurada em 1964, e que ainda se prolongaria por mais de uma década. Nossa República não tinha na época nada de democrática, estava decrépita e necessitava urgentemente de ares de liberdade.

Mas esse sopro de liberdade só começaria a ventilar em 1979, com a Lei da Anistia, que permitiu o retorno ao país de vários exilados políticos. E ainda teríamos que chegar a 1985 para termos um civil ocupando o cargo de presidente da república, ainda que ele não tenha sido eleito de forma direta, e que quem assumiu o cargo não tenha sido sequer aquele eleito indiretamente. A derrota do movimento das Diretas Já, em 1984, foi o primeiro susto na nova República que lutava para nascer. O falecimento do presidente eleito indiretamente pelo Colégio Eleitoral, o Sr. Tancredo Neves, com a posse de seu vice, o Sr. José Sarney, não foram bons augúrios para a nossa recém-nascida República democrática.

A primeira eleição direta para presidente viria apenas em 1989, com a escolha do Sr. Fernando Collor de Mello, um midiático “caçador de marajás” e “salvador da pátria”. Mas ele acabaria envolvido em denúncias de corrupção, tendo sido destituído de seu cargo pelo Congresso Nacional, que não pôde ignorar as matérias que circulavam na imprensa ou as manifestações nas ruas, de pessoas com camisas pretas e caras pintadas em faixas de verde e amarelo. Presidente destituído, assumiu seu vice, o Sr. Itamar Franco, que aos trancos e barrancos nos ajudou a manter nossa democracia, de quebra estabelecendo uma tão desejada estabilidade monetária, após anos de planos econômicos frustrados, sucessivas trocas de moeda e inflação fora de controle.

Quem tem idade ou interesse o bastante para ler este texto sabe bem o que veio depois: 8 anos de Governo FHC, seguidos de 8 anos de Governo Lula, o primeiro com seu autoritarismo e privatizações nebulosas, o segundo com seu populismo e denúncias de compra de apoio parlamentar. Ainda assim, nossa democracia prosseguiu, e elegemos a presidente Dilma, para um excelente início de mandato em 2011, que agora vai se tornando algo que ninguém sabe muito bem para que lado vai. Ainda temos eleições diretas, mas depois da violenta repressão policial aos manifestantes, na quinta-feira 13 de junho em São Paulo, endossada pelas três esferas do poder constituído, eu me pergunto: o que temos além de uma democracia formal, de irmos às urnas de vez em quando para votar? O que é esta "República" brasileira?

Volto então àquela velha senhora nascida em 1889. Nascida por meio de anseios de parte da elite brasileira, descontente com o governo do Imperador Dom Pedro II. Nascida, não se deve esquecer, por meio de um golpe de Estado militar. Pois, como relatou uma testemunha dos fatos, na proclamação da república no Brasil não houve uma efetiva participação do povo: “que assistiu a tudo aquilo bestializado”. E aí está talvez a grande contradição política de nosso país, pois, se “república” traduz-se como “coisa pública”, não pode haver algo “público” sem propriamente a participação do povo. E sem bases republicanas, de participação, direitos e deveres, não há democracia que se estabeleça de fato e plenamente.

Quando se instaurou o regime republicano no Brasil, escolheu-se para nossa bandeira o lema positivista: “Ordem e Progresso”, privado de seu terceiro elemento: "Amor". E isso diz muito do país que se formou nas décadas e no século que se seguiram. Em nome da “ordem pública” e do “progresso econômico”, as manifestações populares foram e têm sido regularmente reprimidas pela força policial. Mas a verdade é que nenhuma república se faz sem a participação do povo, e nenhuma democracia se mantém sem o respeito pela liberdade de expressão. A nova República nascida em 1985, que ganhou sua certidão de nascimento com a “Constituição Cidadã” de 1988, não veio para seguir os passos de sua antecessora de 1889, embora muitas vezes esteja repetindo os mesmos erros. 

Mas uma cidade, um estado, um país não são seus prédios, suas fábricas, suas fazendas. Um país é seu povo. E somos muito mais que a “Pátria de Chuteiras”. E podemos ser muito mais do que somos hoje. Se trabalharmos de fato por isso, podemos vir a ser um país justo, democrático e, é claro, verdadeiramente republicano.

(Ilustra esta postagem uma versão da bandeira do Brasil desenhada por Helfil, grande brasileiro, defensor da democracia e da liberdade, falecido há 25 anos.)

8 comentários:

Linck disse...

Muito bom, Wellington Srbek.

Wellington Srbek disse...

Divulgue para os amigos, Linck.
Abraços e bom final de semana!

Will disse...

Muito bom, Wellington.
A respeito das manifestações e da violência aqui em Sampa, eu acho que a coisa já saiu do controle. A polícia continuará "batendo", ela tem mais poder de fogo, preparada ou não (o que é pior) para lidar com a situação. O prefeito já disse que o aumento da tarifa não tem volta, o governador cumprimenta a repressão, isto posto, se as manifestações não são por causa dos R$ 0,20, então a guerra civil está instaurada.
Tenho muitos amigos petistas, peessedibistas e outros istas, vejo eles se alfinetando pelo Facebook, não entro nas conversas pois de qualquer forma serei tachado de alguma coisa, no momento acho que alienado deve ser o que pensam de mim. Essa República que temos continua sem exercer a democracia, falta humildade, falta vontade política, falta bom senso, falta inteligência. Lamento por quem se machucou involuntariamente, lamento por quem perdeu patrimônio, não me importa quem quebrou, se povo ou polícia, isso não podia acontecer, e espero, te todo coração, que nenhuma vida seja perdida. Ano que vem esses mesmos políticos que agora se esquivam, com retórica, ao seu dever de bem administrar estarão aí pedindo o voto e o receberão, pois a memória é curta todos sabemos. E o povo já terá sido embromado mais uma vez e estará fazendo fila nos portões dos estádios para assistir a Copa... Falta seriedade.

Wellington Srbek disse...

Grande, Will!
Nem há muito a acrescentar a seu comentário amplo e certeiro. Só posso reforçar dizendo que a violência nunca é o caminho. O diálogo e o respeito deveriam ser a forma de se resolver as coisas.
Grande abraço, valeu!

Ramon disse...

Muito bom, Letim. Eu sou de 65, um ano após instaurada a ditadura militar, e vários anos antes desta nossa, ditadura cultural, financeira e eleitoreira, em que os partidos do governo tem como proposta permanecer no poder e os de oposição, tomá-lo. É triste, mas gostei do seu tom otimista. É você.

Grande abraço!

Wellington Srbek disse...

Valeu, meu velho!
Eh, acho que sou um otimista irremediável... Ou um esperançoso incurável...
Mas vamos tentando fazer deste país algo melhor, e desta Humanidade uma raça um pouco mais humana...
Abraços!
Letim

Henrique Magalhães disse...

Acompanhei todas essas fases que você citou, desde a ditadura militar de 1964 (nasci em 1957) e o que tenho a dizer é que se vive uma democracia de fachada, um grande engodo legitimado pelo voto. O voto obrigatório é o principal indício de que alguma coisa não vai bem com nossa democracia. Somos obrigados a votar para se ter massa de manobra, curral eleitoral. Não sou nada otimista com este país, que não tem projeto e afunda cada vez mais na corrupção generalizada. A educação, que poderia transformar tudo isso, é tratada com imoral descaso, nos colocando entre os piores países do mundo. Enfim, o que posso fazer, além de pregar e cobrar a ética, é educar meu filho para ter visão crítica.

Wellington Srbek disse...

Olá Henrique,
Temos uma democracia formal, e não real infelizmente. Uma Educação de qualidade é um dos caminhos para termos um país mais igualitário e justo algum dia.
Quando escrevi este texto há dois meses e meio, minha ideia central era falar da república de fato que não se estabeleceu no Brasil; e tudo que aconteceu depois só confirmou que ainda estamos longe de um país verdadeiramente republicano. Mas vamos em frente!
Abraços!