18/04/2008

O Super-Homem faz 70 anos!


Embora traga a data de junho de 1938, consta que o número 1 da revista Action Comics foi lançado no dia 18 de abril. Em sua capa colorida e explosiva, um então desconhecido personagem usa sua força para levantar e destroçar um carro. Era a primeira vez que aquele herói fantasiado em azul, vermelho e amarelo, com o grande “S” no peito, surgia para conquistar os leitores de quadrinhos. Nascia assim, há exatos setenta anos, um dos principais ícones da cultura ocidental: o Superman (ou Super-Homem, como o chamávamos antigamente por aqui). Com o sucesso de vendas que se seguiu, nasceu também toda uma linhagem de personagens e um novo gênero de quadrinhos: os super-heróis.

O “Homem do Amanhã” ou “Homem de Aço” foi criado, no início dos anos 30, por Jerrry Siegel e Joe Shuster, dois fãs de histórias de ficção científica. Inicialmente, tratava-se não de um herói, mas sim de um tirano do futuro, com poderes sobre-humanos. Porém, o protagonista de “The Reign of the Super-Man” foi logo reformulado para se tornar o herói de uma série de tiras. Inspirados nos mundos alienígenas e tramas apocalípticas dos livretos e revistas, Siegel e Shuster fizeram de seu novo herói o único sobrevivente de “um distante planeta destruído por um cataclismo natural”. E assim, vestindo sua capa e malha colante, o Super-Homem passou a enfrentar gangsteres e outros bandidos. Contudo, os jovens quadrinistas tiveram dificuldades para encontrar alguém que se interessasse em publicar um personagem tão original.

Finalmente, a editora Detective Comics (mais tarde National Periodical e depois DC Comics) mostrou interesse em comprar os direitos sobre o Superman. A condição era que as tiras fossem adaptadas para o formato comic book, com o qual ganhariam destaque na nova revista que a editora planejava lançar: a Action Comics. Siegel e Shuster não titubearam, fazendo as alterações pedidas e vendendo todos os direitos sobre seu personagem pelo valor de 130 dólares (embora hoje esse acordo original esteja sendo questionado judicialmente). Já então imune a balas e possuindo força e agilidade sobre-humanas, em suas primeiras HQs, porém, o Super-Homem não voava, tendo que pular sobre os prédios da cidade de Metropolis (cujo nome os autores pegaram emprestado do filme homônimo de Fritz Lang).

De qualquer forma, o novo personagem era bastante diferente dos heróis que o precederam, como Tarzan, Mandrake ou Fantasma. Ele tinha algo a mais. E foram justamente o visual chamativo e os inusitados poderes as razões de seu sucesso imediato junto aos leitores norte-americanos. Afinal, quem naquela época (ou mesmo hoje) não gostaria de se destacar na multidão de anônimos e ter poderes que pudessem resolver todos os problemas? É bom lembrar que, no fim dos anos 30, os Estados Unidos se recuperavam de uma terrível crise econômica iniciada no final da década anterior. A falência de inúmeras empresas, a fome e o desemprego endêmicos forneceram os elementos para um quadro de pessimismo e desesperança. Assim, nada mais oportuno que um personagem que fizesse as pessoas sentirem-se capazes de superar quaisquer dificuldades.

Além disso, outra característica que favoreceu o sucesso do Homem de Aço foi ele se desdobrar entre a vida de super-herói e a de homem comum. A pacata figura do repórter Clark Kent contribuiu para a identificação do público com o personagem, sugerindo que na imagem de qualquer homem comum pode se esconder um “super-homem”. Para completar, no ano que precedeu a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), só alguém “mais rápido que uma bala” e “mais forte que uma locomotiva” poderia vencer as ameaças que se anunciavam. E se, em sua primeira HQ, o Super-Homem é chamado de “o campeão dos oprimidos”, por extensão, ele acabou sendo proclamado o defensor de valores como Lei, Ordem, Democracia e Liberdade, tornando-se o garoto-propaganda do “American way of life”.

Possuidor de poderes milagrosos e vindo do céu para promover o bem da humanidade, é evidente que o imaginário cristão teve alguma influência na criação do Supre-Homem. Contudo, ao invés de ser um ente divino, Karl-El é o único sobrevivente de uma raça de seres super-evoluídos, cujo planeta explodiu. Sua herança “kryptoniana” e a inspiração na ficção científica tornaram-no fisicamente superior aos seres humanos. Um exemplo de que, na era moderna, já não são os deuses que promovem a glória dos heróis, mas a natureza e a ciência que explicam seus poderes. Logo, na primeira página de Action Comics n°1, ensaia-se uma explicação pseudo-científica para os incríveis poderes de Clark Kent, onde o personagem é comparado às formigas e aos gafanhotos, proporcionalmente muito mais fortes que os humanos.

Mas o Super-Homem nem sempre foi o mesmo. Ao longo das décadas, sua “biografia”, seus poderes e suas fraquezas foram sendo estabelecidos e remodelados pelos roteiristas e desenhistas, sempre em busca de uma nova aventura tão surpreendente quanto sua primeira aparição em 1938. Com o crescente sucesso das revistas em que aparecia, o “Homem de Aço” foi parar em seriados no rádio, em filmes e animações para o cinema e a tevê. Isso contribuiu para o aumento de sua popularidade, fornecendo novos elementos à sua “mitologia” e tornando-o um ícone internacionalmente conhecido. Se não bastasse, inspiradas no sucesso do personagem, diversas editoras lançaram outros super-heróis, consolidando esse gênero de quadrinhos e aumentando a concorrência para o kryptoniano.

Todavia, após setenta anos de aventuras, romances e dramas, além dos vários plágios e asneiras editoriais, o Super-Homem já não tem a mesma força. Nas últimas décadas, por exemplo, o herói teve seu passado apagado e reescrito, seus poderes redefinidos ou perdidos, foi dado como morto, mudou de cor, foi dividido em dois, clonado e casou-se com sua “eterna namorada” Lois Lane. O resultado final de tudo isso, é claro, só poderia ser o desgaste e a crescente irrelevância daquele que foi o primeiro e o mais popular dos super-heróis. De qualquer forma, certamente os fãs fiéis encontrarão motivos para celebrar mais este aniversário do (agora setentão) Super-Homem.

9 comentários:

Guilherme Neto disse...

Superman é tão sem graça...
O legal é que daqui a 30 anos vai virar domínio público.
Talvez, assim, surja algo interessante.

Wellington Srbek disse...

Olá Guilherme,
Também acho o Super-Homem sem-graça, mas isso não tira a importância histórica do personagem, que deu origem a um dos gêneros de quadrinhos mais populares no mundo.
Agora, não sei sobre isso que você falou de daqui a 30 anos ele cair em domínio público, pois até onde sei esta lei se aplica a 70 anos contados após a morte do autor. Ainda assim, como ele é propriedade de uma empresa, não sei como isso ficará daqui a algumas décadas, quando aí sim completarem-se os 70 anos da morte de seus autores.

Marcus disse...

Grande Srbek! Eu, ao contrario dos comentários, adoro Superman (Ou Super Homem, mas ate ai tudo bem, por que Star Wars já foi Guerra nas Estrelas!).
Sobre os direitos do personagem eu li que recentemente a DC/Warner fez um acordo com a família dos criadores do Super Homem pra estender o tempo dos direitos autorais. Mas sinceramente, eu acho muita inocência achar que um personagem como o Superman ou Batman um dia vão cair em domínio publico, e mesmo quem um dia venham a cair, não vai ficar muito tempo ate que outro grupo como a Warner, compre os direitos do personagem pra eles.

Anderson Cossa disse...

Belo Texto, Wellington!
Gosto do Superman! Mas suas histórias tem sido muito mal escritas nesses últimos anos. Voltei a ler algo dele agora que caiu nas mãos de Grant Morrison. É um grande personagem, mas muito desgastado pelo tempo. Ele pede bons roteiristas com idéias novas.
Já quanto ao domínio público, acho que não vai ser fácil acontecer. Tem muita grana no meio, e acredito que vão alterar essa lei até lá.

Abraço!

Wellington Srbek disse...

Olá Marcus e Anderson,
Eu realmente escrevi o texto para vocês, fãs do Super-Homem. Meu objetivo ali foi marcar o aniversário de 70 anos, contextualizando o personagem no momento de seu surgimento, além de apresentar algumas informações mais corretas do que se encontra por aí na Internet. Fico feliz em saber que vocês gostaram!
Sobre a questão dos direitos autorais, a família de um dos criadores recentemente entrou com um processo para que seja revista a situação dos direitos autorais sobre o personagem, uma vez que acreditam que o acordo de 1938 não foi justo (embora Siegel e Shuster tenham concordado na época e assinado embaixo). De qualquer forma, a questão dos direitos autorais é meio confusa nos Estados Unidos, com diferentes decisões judiciais mudando a legislação ao longo do tempo. Em geral, o que vale é que todas as obras publicadas lá até 1923 já são de domínio público. Além disso, 70 anos após a morte de um autor, sua obra também cai em domínio público. Mas, no caso de personagens de quadrinhos ou animação, que pertencem a empresas e não a pessoas, a coisa tende a complicar.
Abraço!

Alexande Veloso de Abreu disse...

Olá Wellington!

Gostei do blog! A resenha do Super-Homem (eu insisto) ficou ótima! Apesar de seu desgaste, a personagem tem um éthos, e é fiel ao seu modo de agir e viver. Disfarçado de humano, ele pôde, e foi capaz, de ser mais humano que o próprio humano, e seus conflitos são genuinamente de um homem moderno. Engraçado é que um “deus” de capa e botas vermelhas conseguiu ir fundo nos conflitos que nos assolam. Geralmente o filho adotado abraça mais a família do que o filho biológico, e o que o Super-Homem defende ainda é louvável, apesar de estar aparentemente em desuso. Sei da carga ideológica que a personagem carrega, mas, como mostra a inventiva série “Entre a foice e o martelo” de Mark Miller, Dave Johnston e Kilian Plunkett, não teria sido diferente se o foguete do Super-Homem tivesse caído na União Soviética. A revista aponta que a personagem sempre terá um éthos sólido, não importa o sistema político em que esteja inserida. O teor Sci-fi do Super-Homem é fascinante e a sua origem muito bem elaborada. O seu “sem graça” talvez seja devido ao teor muito establishment que o Homem de Aço tem. Concordo, é um escoteiro de azul, vermelho e amarelo, mas o ícone se fez justamente por isso, porque acreditava e representava uma sociedade em que acreditava. È uma pena que acreditar em um código de conduta seja insosso nos dias de hoje, e tirar o gato de uma criança preso na árvore seja pueril. Sacrifício, honra, honestidade, ética... É, esses adjetivos e o Super-Homem estão desgastados mesmo.
A crise de roteiros para super-heróis não atinge só o Super-Homem, mas o gênero em geral. Imagina o Super-Homem na sua mão Wellington! Seria incrível! Aliás, lembra de uma charge que o lampião trazia o Super-Homem amarrado(Você mostrou aquela vez em Sabará) Você ainda tem?

Mais uma vez, muito obrigado pelo minicurso.
Abraços,
Alexandre

Wellington Srbek disse...

Olá Alexandre,
Ótimo comentário, que enriquece nossa discussão aqui. Como conversamos, o Super-Homem tem se tornado um personagem cada vez mais irrelevante, o que tem algo de negativo a dizer sobre a sociedade atual.
Por outro lado, no entanto, sempre que penso nesse personagem é difícil desconsiderar toda a carga ideológica que foi associada a ele nos anos 40 e 50, que Frank Miller, aliás, explora em O Cavaleiro das Trevas.
Mas, se os quadrinhos do SH andam bem ruinzinhos mesmo, uma boa alternativa são as séries de animação dos anos 40 e 90, disponíveis hoje em DVD, que resgatam aquele elemento mais essencial do qual você falou.
Sim, eu ainda uso nos meus cursos de quadrinhos aquela ilustração do Super-Homem sendo levado preso pelo Lampião. É um trabalho fantástico do quadrinista e ilustrador brasileiro Jô Oliveira.
Sobre o minicurso, eu é que agradeço a oportunidade e espero que os alunos e alunas em geral tenham aproveitado essa janela aberta para o universo dos quadrinhos.
Grande abraço!

André Dib disse...

Oi Wellington e pessoal,

Sim, domínio público vale após 70 anos da morte dos autores. E não foi necessário isso acontecer para Alan Moore reinventar o personagem com ironia e crítica que lhe são peculiares na série Supremo (Devir). Vale a pena ir atrás. Veja bem, do super-heroísmo pós-depressão à supremacia pós-11 de setembro...

Um abraço,

Wellington Srbek disse...

Certamente Supremo vale uma leitura (aqui no blog há até a resenha do volume mais recente lançado pela Devir).
Mas há também versões do Super-Homem bem interessantes lançadas pela própria DC - minhas preferidas são a participação dele em O Cavaleiro das Trevas, as primeiras HQs escritas e desenhadas por John Byrne na fase pós-Crise e as primeiras histórias que Scott McCloud escreveu para a revista Superman Adventures - surgida em 1996, na trilha do seriado produzido por Bruce Timm.