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05/11/2017

Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos!


Lançado em formato e-book pela Balão Editorial, Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos reúne dezenas de artigos escritos para jornais e internet, tendo como tema os quadrinhos, filmes, seriados e desenhos de super-heróis. Partindo das origens desse gênero tão popular e abordando as principais revistas e personagens, desde os anos 1930 até fins do século XX, o livro traça um amplo panorama desse importante fenômeno cultural.

Disponível na página da editora, Super-heróis: Um fenômeno dos quadrinhos também pode ser adquirido em outras plataformas e livrarias virtuais como a AMAZON.

12/12/2010

Quadrinhos no iPad.


Não sou daquelas pessoas viciadas em novas tecnologias, que compram os últimos lançamentos assim que saem. Mas, por questões de trabalho e também por ser uma das coisas mais bacanas que já vi, há pouco mais de um mês comprei um iPad. Para aqueles que ainda não conhecem, o iPad é o “tablet” da Apple: um aparelho para acesso a conteúdos, navegação por Internet sem-fio e realização de alguns trabalhos. Medindo cerca de 24cm x 19cm, ele é composto basicamente por uma tela “multi-touch” com área útil de 19,5cm x 14,5cm, um autofalante e um sistema interno de funcionamento e armazenamento de dados.

Num iPad, você pode escutar músicas, ver filmes, acessar e-mails, visitar páginas da Internet e, o que nos interessa especificamente aqui, ler arquivos de texto e imagem (como livros eletrônicos e revistas em quadrinhos digitais). Para acessar conteúdos gratuitos ou comprar edições por valores a partir de $0.99, basta baixar os aplicativos de lojas como Marvel, DC Comics e ComiXology (que também disponibilizam suas edições em versões para leitura em computadores). Aproveitando que o iPad já está disponível para venda no Brasil, vão aqui algumas das minhas impressões iniciais sobre HQs disponíveis no iPad.

Em primeiro lugar, a maioria absoluta das edições disponíveis no aparelho é formada por quadrinhos em formato vertical, originalmente produzidos para serem impressos (o que no caso dos comics leva a um não-aproveitamento de espaço nas laterais). Um grupo menor é composto por edições em formato horizontal, já produzidas para o meio digital (como as HQs do extinto selo Zuda Comics). Na versão para iPad, além da leitura página a página, os quadrinhos ganham uma segunda opção semi-animada, em que cada toque na tela avança uma leitura quadro a quadro (recurso que, na verdade, não me agradou muito).

Uma primeira constatação, então, é a de que ainda estão para serem produzidos quadrinhos específicos para iPad, que aproveitem da melhor forma possível os recursos desse aparelho e o espaço útil da tela (embora esta última questão seja resolvida no caso dos quadrinhos horizontais ou mesmo dos álbuns europeus, que têm um formato menos espichado que o dos comics). Mas independente do formato ou origem, as HQs no iPad contam com um recurso fantástico que é “zoom” na tela “multi-touch”, o qual permite uma ampliação dinâmica da imagem e a visualização de detalhes sem perda de qualidade.

Considerando apenas a produção de quadrinhos norte-americana, para quem tem um iPad, já existem centenas de edições para compra e dezenas de edições disponíveis gratuitamente (com novas HQs chegando a cada semana). Muitas destas são apenas prévias de séries e novas revistas, enquanto outras são amostras de números esporádicos. A Marvel disponibiliza poucas edições gratuitas e tende a retirá-las “do ar” após uma semana. Já a DC Comics mantém suas edições gratuitas e disponibilizou os primeiros capítulos de várias de suas séries, como Crise nas Infinitas Terras, Crise Infinita, 52 e Crise Final.

Até aqui, porém, a loja de quadrinhos para iPad mais interessante é a ComiXology, que além das edições da Marvel, DC, Vertigo, Wildstorm e Zuda, disponibiliza também quadrinhos da Image, Dark Horse, várias editores independentes e algumas produções autorais. Nela, pode-se baixar gratuitamente a primeira edição de Hellboy e Wanted, as HQs de estreia de Madman, duas edições de Elephantmen e uma de The Mice Templar, entre vários outros títulos, em diversos gêneros. Como cada loja tem um limite de armazenamento de dados, vale a pena baixar os aplicativos das três.

Há também lojas que disponibilizam álbuns europeus e mangás japoneses. Assim, para quem gosta de quadrinhos, não faltam opções, de graça ou por um preço razoável. E agora que o aparelho chegou oficialmente ao Brasil, o próximo passo será o surgimento das primeiras lojas e edições de HQs para nosso mercado. Enquanto isso, novas séries e produções pensadas especificamente para o iPad devem estar sendo preparadas. Com vários recursos e mobilidade, este é um aparelho que promete muitas possibilidades, sendo uma ótima plataforma para os quadrinhos se desenvolverem neste nosso século digital.

18/11/2010

Nossos parabéns a Alan Moore!


Alan Moore nasceu no dia 18 de novembro de 1953, na cidade inglesa de Northampton. Mago praticante, artista performático, letrista, escritor, desenhista eventual, pai de duas filhas, casado com a desenhista Melinda Gebbie, este escorpiano é sobretudo o mais influente roteirista da história dos quadrinhos. Sem ele, os trabalhos de Neil Gaiman, Grant Morrison, Warren Ellis, Mark Millar, entre outros roteiristas de quadrinhos, não seriam os mesmos, ou em alguns casos talvez nem mesmo existissem. Ao longo de trinta anos de carreira, Moore influenciou os rumos dos quadrinhos ocidentais de inúmeras formas e em pelo menos dois momentos principais (primeiro com Marvelman, Swamp Thing e Watchmen, mais tarde com 1963, Supremo e a linha ABC), dedicando-se nos últimos tempos a trabalhos mais autorais (como From Hell, Lost Girls e Liga Extraordinária).

De longe o autor sobre o qual mais escrevi para o Mais Quadrinhos, no dia de seu aniversário aproveito para fazer um apanhado de meus principais textos sobre suas obras:

Revista Warrior:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/warrior-25-anos-de-uma-revista.html

Marvelman:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/03/marvelman-e-recriacao-genial-dos-super.html

Monstro do Pântano:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/razes-e-frutos-de-um-monstro-do-pntano.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/monstro-do-pntano-em-merecida-edio-de.html

Miracleman:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/12/o-inovador-livro-i-de-marvelman.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/12/o-irregular-livro-ii-de-marvelman.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/12/o-incomparavel-livro-iii-de-miracleman.html

Watchmen:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/03/watchmen-absolutamente.html

Piada Mortal:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/insana-relao-entre-batman-e-coringa.html

In Pictopia:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/04/in-pictopia-uma-pequena-joia-de-alan.html

Spawn:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/04/spawn-origem-vol2-rene-mcfarlane-moore.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/04/com-assinatura-mas-no-o-talento-de-alan.html

1963:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2010/07/1963-uma-serie-que-marcou-epoca-e-virou.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2010/07/1963-uma-serie-que-marcou-epoca-e-virou_08.html

Supremo:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/alan-moore-repete-receita-para-boas-hqs.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/08/chega-s-lojas-o-ltimo-volume-de-supremo.html

Liga Extraordinária:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/liga-extraordinaria-de-alan-moore-e.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/liga-extraordinaria-chega-ao-seculo-20.html

Promethea:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/promethea-beleza-magia-e-quadrinhos.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/08/coletnea-traz-os-primeiros-captulos-de.html

(Para os fãs do mago de Northampton, há ainda outros textos e várias entrevistas que falam dele e de sua influência nos quadrinhos. Para conhecer todos, basta clicar no marcador logo abaixo.)

24/05/2010

O renascimento do Flash por Geoff Johns.


Nos últimos anos, Geoff Johns tornou-se um dos mais badalados roteiristas dos quadrinhos de super-heróis, sendo agora um dos responsáveis pela direção criativa da DC Comics (que inclui decisões não apenas nas revistas da editora, mas também em animações e filmes baseados em seus personagens). Com participações em séries como Crise Infinita e 52, Johns ficou mais conhecido através de trabalhos com super-heróis clássicos, com destaque para a minissérie Lanterna Verde: Renascimento, que resgatou e redimiu o herói Hal Jordan. Repetindo sua parceria com o desenhista Ethan Van Sciver, o roteirista lançou em 2009 e concluiu neste ano The Flash: Rebirth, minissérie em seis edições que marcou a volta de outro herói da “Era de Prata”.

Um dos efeitos da minissérie Crise Final foi o retorno de Barry Allen à continuidade regular dos heróis DC. Devidamente ressuscitado, o herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC” ganhou dos editores uma nova chance (bem aos moldes da oferecida ao Lanterna Verde em 2004-2005). O número 1 de The Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue repetir o acidente que deu origem aos poderes do herói. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do Flash: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e de seu amigo Hal Jordan.

Com alguns mistérios e referências a outras HQs, o capítulo inicial da minissérie serve para estabelecer a trama, cenário e personagens. Como é de se esperar, o número 2 traz um desenrolar dos acontecimentos (um pouco lento), que mistura gorilas das cavernas, cultos à “força da velocidade” (a energia mística que impulsiona os velocistas da DC), flashbacks que revelam o passado de Barry Allen e diálogos que esclarecem elementos sobre seu presente. O Lanterna Verde Hal Jordan faz uma participação breve e mais um mistério é acrescentado com o surgimento de um enigmático “Flash Negro”. Já o número 3 traz um emaranhamento ainda maior dentro da metafísica que envolve a tal “força da velocidade”. Um plano de contenção é necessário e alguns figurões da Liga e da Sociedade da Justiça dão as caras.

O quarto capítulo começa com explicações sobre a identidade do vilão Flash Reverso, seguindo com alguns socos e muita conversa. Tudo parece girar em círculos, até o vilão nos esclarecer seu plano maquiavélico, encerrando com uma saída dramática. Depois temos mais explicações sobre a ligação entre Flash e a “força da velocidade” e, enfim, um pouco de ação. Tudo, porém, é pontuado por uma retórica da “família”, o que dá um caráter conservador a uma história que não vinha sendo das mais brilhantes. Já o número 5 começa com mais flashbacks e reflexões, continuando numa luta de vários heróis velocistas contra um único vilão (!). E a edição inteira é praticamente pancadaria, encerrando mais ou menos como as coisas estavam no início do número 4, exceto por uma última revelação e uma ameaça do vilão.

Além do herói Flash e do roteirista Geoff Johns, um atrativo na minissérie foi o desenhista Ethan Van Sciver (auxiliado por uma competente colorização digital). Seu traço fino segue um padrão detalhista que, às vezes, chega a ser muito estático para uma HQ de super-heróis. Isso sem falar no fato de que seu estilo realista tende a ressaltar cenas estranhas, como personagens em fantasias espalhafatosas sentados à mesa lendo jornais ou comendo cachorros-quentes. E se algumas cenas de página inteira são bem impactantes, outras em sequências de quadros trazem desenhos quase amadores, evidenciando uma grande irregularidade. Mais ilustrador do que propriamente um quadrinista, Van Sciver mostrou o melhor de seu trabalho nas cinco primeiras capas da minissérie, com direito a recriações de cenas consagradas.

O capítulo final da minissérie traz mais correria, mais explicações e um desfecho muito desproporcional a todo o falatório e ideias metafísicas que a história vinha propondo. E para um roteiro que girou tanto em círculos, as últimas páginas só poderiam mesmo ser uma volta ao início. Planejada inicialmente para cinco e não seis edições, The Flash: Rebirth poderia sem dúvida ter se beneficiado de uma estrutura mais enxuta e objetiva (sem tantas idas e vindas ou situações que não levaram a nada). Mas, apesar da qualidade duvidosa do roteiro e da irregularidade dos desenhos, a minissérie parece ter agradado aos leitores norte-americanos, tendo boa vendagem, reimpressões das primeiras edições e uma reedição em capa-dura, lançada no início deste mês (os leitores brasileiros já podem conferir a minissérie nas páginas da revista Liga da Justiça da Panini).

Geoff Johns é hoje um roteirista muito popular entre os leitores e bastante prestigiado entre os chefões da DC. O melhor exemplo disso são a recentemente concluída The Blackest Night e a recém iniciada The Brightest Day, séries centradas no Lanterna Verde, mas que envolvem os principais heróis e vilões da editora. Grande conhecedor da cronologia e dos meandros ficcionais envolvendo aqueles personagens, o roteirista é de fato um trabalhador dedicado e esforçado, mas não é nenhum gênio. Com um gosto para histórias grandiosas e explicações superestruturais, suas HQs têm o mérito de agradar, mas deixam a desejar em termos de qualidade e inovação.

20/05/2010

As primeiras HQs a gente nunca esquece!


Há algum tempo, eu vinha querendo reproduzir aqui no blog a imagem que ilustra esta postagem. Trata-se da capa do número 100 da revista Showcase, uma série da DC Comics que servia para apresentar novos personagens, resgatar heróis meio esquecidos ou dar espaço a figuras menos convencionais. Foi nas páginas dessa publicação que teve início a chamada “Era de Prata” dos quadrinhos de super-heróis, com o surgimento do Flash Barry Allen e do Lanterna Verde Hal Jordan. Editada entre 1956 e 1970, a revista também abriu espaço para heróis do “segundo time” como Adam Strange e Aquaman, para grupos alternativos como os Metal Men e os Desafiadores do Desconhecido, e para a vertente mais mística da DC com o Vingador Fantasma e o Espectro. Em suas páginas, apareceram ainda figuras que pendiam para o lado cômico como o Rastejador, o Bwana Beast, os Inferior Five e Angel and the Ape.

Relançada entre 1977 e 1978, a série trouxe edições com a Patrulha do Destino, Poderosa, Gavião Negro e Mulher Gavião. Mas o ponto alto dessa retomada foi justamente a Showcase n°100, edição especial lançada no primeiro semestre de 1978, que reuniu os personagens que haviam estrelado as noventa e três edições da primeira fase da revista. Na HQ escrita por Paul Kupperberg e Paul Levitz e desenhada por Joe Staton, uma ameaça misteriosa tirou a Terra de sua órbita, podendo levar à destruição do planeta. Para evitar a catástrofe, os heróis passam a atuar em conjunto, buscando as possíveis causas e enfrentando os efeitos dessa “crise” planetária. É interessante notar que essa revista de 1978 antecipou cenas e elementos que seriam vistos, em 1985, na maxissérie Crise nas Infinitas Terras (como a convocação dos heróis num satélite orbital e uma confusão temporal que faz seres do passado surgirem no presente).

Hoje estejamos acostumados às histórias que reúnem dezenas de super-heróis para enfrentar uma grande ameaça. Mas, no fim dos anos 70, isso não era algo corriqueiro. Tendo um grande “#100” ao fundo, do qual sai uma miríade de heróis, a capa dessa edição especial de aniversário anuncia: “60 sensacionais superestrelas na história que levou 100 edições para ser contada”. Naquele tempo eles sabiam fazer uma edição comemorativa e se ainda hoje essa HQ parece bem interessante, para mim ela tem um significado realmente especial. Publicada no Brasil pela Ebal em setembro de 1979, essa foi uma das primeiras revistas em quadrinhos que eu ganhei. Na época eu tinha pouco menos de cinco anos e era fã do desenho Superamigos, assim, ao ver uma capa cheia de super-heróis, devo ter pedido para que comprassem a revista (cujas páginas eu “animei” com canetinha hidrocor, rabiscando campos de força e raios laser sobre os heróis).

Publicada aqui como uma Edição Extra de Invictus, a capa da Ebal traz no lugar da palavra “Showcase”, o título: “A Terra na Rota Fatal!”. Mais abaixo, substituindo o anúncio da “edição de aniversário”, o chamariz: “CEM HERÓIS? Cem Peripécias Numa Única Aventura!” (com o que a editora brasileira justificava o grande “100” que aparece ao fundo da capa). No lugar do código de barras, outro chamariz: “Uma aventura incrivelmente movimentada!”. Eu não li a revista (pois não tinha ainda aprendido a ler), mas “brinquei” muito com ela e viajei muito por suas páginas, a ponto de ela perder a capa (felizmente, há alguns anos, tive a sorte de encontrar um exemplar em ótimo estado de conservação, tendo agora o primeiro todo rabiscado de canetinha e esse outro de “colecionador”). E posso dizer que, pelo menos para mim, essa revista cumpriu a promessa feita em sua primeira frase: “Uma história que você jamais esquecerá!”.

Aquela Edição Extra de Invictus foi um dos primeiros momentos em que os quadrinhos (por intermédio das séries da tevê) passaram a fazer parte de meu imaginário pessoal (o que também aconteceu com a série de animação do Homem-Aranha e o seriado do Hulk). Algo mais definitivo aconteceria em 1987, quando não encontrei o número 1 da revista dos Thundercats (então meu desenho animado favorito) e acabei comprando a revista Heróis da TV n°91, com a qual iniciei de fato minha coleção de quadrinhos e a paixão que, passados vinte anos, deu origem a este blog e a quase tudo que fiz profissionalmente em minha vida. Assim, para os cem “seguidores” que agora acompanham o Mais Quadrinhos e em especial para aqueles que contribuem com comentários, vai aqui esta postagem especial e também o convite para enviarem comentários dizendo quais foram suas primeiras revistas em quadrinhos e como começou sua paixão pelas HQs.

Abraços e até a próxima!

24/04/2010

Editoras olham para o passado em busca do sucesso.


No primeiro semestre de 1999, começaram a ser publicadas duas séries que apresentavam versões alternativas de heróis dos quadrinhos dos anos 30. Ao serem lançadas, Tom Strong de Alan Moore e Chris Sprouse e Planetary de Warren Ellis e John Cassaday deram uma ambientação contemporânea e uma abordagem metaficcional a personagens do tradicional gênero das HQs de aventura. Enquanto a série de Moore e Sprouse recriava heróis da Nedor Comics, a obra de Ellis e Cassaday trazia versões disfarçadas de personagens dos quadrinhos e da literatura pulp. Foi assim, por exemplo, que Doc Strange tornou-se Tom Strong e que Doc Savage serviu de modelo para o Doutor Axel Brass.

A qualidade das revistas e o sucesso entre os leitores garantiram que o visual bem-cuidado e a trama metaficcional de Tom Strong e Planetary influenciassem diversos trabalhos nos últimos anos. Mas mais que isso, essas séries chamaram a atenção das editoras para a extensa galeria de personagens clássicos disponíveis para serem relançados numa roupagem contemporânea. Assim, ao adquirir os direitos de publicação sobre as obras de Will Eisner, a DC Comics não apenas relançou as HQs originais do Spirit, mas também produziu uma nova série com o personagem, escrita e desenhada por Darwyn Cooke (mas vale lembrar que Moore já havia homenageado a obra de Eisner ao criar com Rick Veitch o detetive Grey Shirt para a Tomorrow Stories).

A onda do resgate de antigos heróis não parou por aí. Mais recentemente a Dynamite lançou Project Superpowers, série concebida por Alex Ross, que relança diversos personagens que estavam em domínio público (como os próprios heróis da Nedor Comics, anteriormente revividos nas páginas da Tom Strong). Com capas pintadas por Ross, a séria chega a seu segundo volume, trazendo para os dias de hoje heróis como Doc Strange, Black Terror e Fighting Yank (que podem ser vistos em sua versão original aqui). A Dynamite também lançou uma série com o Green Hornet (Besouro Verde no Brasil) escrita por Kevin Smith a partir do roteiro do filme que ele não realizou com esse herói mascarado (que pode ser visto em sua versão original aqui).

Em março, foi a vez de a DC Comics lançar seu “universo pulp” com a minissérie First Wave, escrita por Brian Azzarello e desenhada por Rags Morales. A HQ começa com uma perseguição num “território desconhecido” da (exótica e ameaçadora) América do Sul, prosseguindo num tom de mistério e com um tratamento visual que faz lembrar as ilustrações de capa das publicações pulp. Após a aparição de um robô retrô, entram em cena personagens mais conhecidos, como Doc Savage e The Spirit (no que vemos mais um passo para a incorporação do detetive de Central City ao “Universo DC”). Embora o Batman apareça na capa da revista, nas páginas internas ele não dá o ar de sua graça, sendo substituído por uma aparição dos Falcões Negros ao final.

Além da minissérie em seis partes, que lança as bases de seu “universo pulp”, a DC está publicando duas novas séries pertencentes à linha First Wave, uma para Doc Savage e outra para o Spirit. Mas, a julgar pelas prévias disponibilizadas pela editora, as duas revistas seguem uma linha bem mais comercial. Podemos também colocar em questão o quão rentável pode vir a ser essa estratégia para os padrões de uma grande editora, uma vez que se está adaptando um modelo que deve ter funcionado para os padrões de uma pequena editora como a Dynamite. De qualquer forma, olhar para o passado em busca de modelos editoriais ou personagens que fizeram sucesso é, quando trabalhada adequadamente (como no caso de Tom Strong e Planetary), uma estratégia que gera bons frutos.

22/04/2010

Uma nova onda nos quadrinhos de super-heróis (complemento).


No momento, o mais bem-sucedido autor na linha da violência hiperrealista e das situações polêmicas é Mark Millar, roteirista da série Kick-Ass (que está chegando às telas dos cinemas). Neste trabalho, ilustrado pelo talentoso John Romita Jr., vemos muita morte, tortura, ossos quebrados, sangue jorrando e o uso de drogas, tudo associado a um par de heróis mirins. Já no recém-lançado Nemesis, desenhado pelo também talentoso Steve McNiven, o roteirista escocês criou para o selo Icon da Marvel uma versão Coringa do Batman, ou vice-versa (o que rendeu uma reclamação da DC Comics em relação à imagem que ilustra esta postagem, que lembra o Coringa encarnado por Heath Ledger).

Em Kick-Ass e em Nemesis fica evidente a influência de mangás como Preto e Branco ou Akira. Mas há também uma indisfarçável sombra de Watchmen ou mesmo de V de Vingança (sendo Millar um autor britânico, torna-se ainda mais difícil escapar da “escola Moore” de roteiros). Mesmo assim, as HQs do roteirista escocês têm uma marca própria, devendo muito à ótima qualidade dos desenhos de Romita Jr. e McNiven. Ou seja: são histórias de crime, com bastante violência e ótimos desenhos. Para quem ficou interessado, o lançamento de Kick-Ass pode acompanhar a chegada do filme aos cinemas brasileiros, enquanto a publicação de Nemesis deve demorar algum tempo.

20/04/2010

Uma nova onda nos quadrinhos de super-heróis.


A partir dos anos 80, falou-se muito sobre HQs de super-heróis realistas. Mas falar em “realismo” nesse gênero de quadrinhos é praticamente uma contradição em termos. Afinal, algo que se chame de “realista” pressupõe que se tenha como parâmetro o que chamamos de “mundo real”. Portanto, não haveria em princípio nada muito realista numa obra que tem como protagonistas personagens que voam pelos céus, disparam raios de suas mãos ou se transformam em monstros superpoderosos. Neste sentido, o caráter extraordinário e fantasioso dos quadrinhos de super-heróis asseguraria que esse gênero não incluísse algo que pudéssemos chamar estritamente de “realista”.

Ainda assim, entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década seguinte, começaram a surgir HQs de super-heróis que buscavam uma abordagem mais realista das situações envolvendo os personagens. O auge dessa tendência viria em meados dos anos 80, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Nessas duas obras, o gênero super-heróis ganhou contextualização política e social, além de dimensão psicológica e histórica. Ao mesmo tempo, esses trabalhos se destacaram por inovar a linguagem dos quadrinhos de super-heróis, influenciando até a forma como eles passariam a ser comercializados nos Estudados Unidos (como minisséries de luxo e graphic novels).

Em entrevistas da época, ao ser perguntado se sua obra e a de Miller haviam salvo o gênero super-heróis, Moore respondeu que o que fizeram estaria mais para um “trabalho de assassinato”. O fato é que O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram obras tecnicamente inovadoras que se tornaram marcos na história dos quadrinhos, mas que também disseminaram uma concepção negativa e violenta dos super-heróis. Sucesso de público e crítica, essas HQs acabaram dando origem a várias cópias, que imitavam alguns elementos de sua narrativa revolucionária, mas que muitas vezes apenas mimetizavam os aspectos mais sombrios e sanguinolentos da abordagem de Miller e Moore.

Foi naquela época que Wolverine, por exemplo, foi assumindo um comportamento ainda mais violento e que o Justiceiro deixou de ser um antagonista do Homem Aranha para ganhar suas próprias séries. Mas talvez o produto mais marcante dessa fase tenha sido Spawn de Todd McFarlane. A série copiava os quadros em forma de tela de tevê e as massas de sombras características de O Cavaleiro das Trevas, além de depender muito das cenas de violência, embora não contasse com o sentido psicológico ou político visto em Watchmen. Assim, em muitos casos, o resultado da influência de Miller e Moore acabou sendo muito sangue e pouquíssima qualidade artística.

Nos últimos anos, tem surgido uma nova onda de HQs de super-heróis repletas de violência explícita (e também com algumas cenas de sexo quase explícito). Voltadas a “leitores maduros” e ambientadas numa realidade similar ao chamado “mundo real”, essas publicações não poupam em palavrões e parecem ter como um de seus objetivos centrais causar algum ultraje. Um melhor exemplo é a série The Boys, criada pelo polêmico Garth Ennis e editada em 2007 pelo selo Wildstorm da DC Comics até seu n°6, quando a editora cancelou sua publicação devido a seu conteúdo. A série então passou a ser publicada pela Dynamite e acaba de chegar ao Brasil numa coletânea pela Devir.

Pegando uma carona na linha After Watchmen e para promover o primeiro encadernado da série (The name of the game), a Dynamite relançou o n°1 da série, pelo preço de $1.00. Como não sou um fã do estilo excessivamente cínico e propositalmente polêmico de Garth Ennis, não comprei a coletânea original e nem pagarei R$39,50 pela edição da Devir. Mas, para saber do que se tratava, adquiri a edição promocional e posso dizer que Ennis correspondeu às expectativas! Ou seja: logo de saída vemos um super-herói tendo o crânio esmagado, um rapaz destroçando sua namorada contra um muro, um pouco de sexo depois, bastante cinismo e alguns palavrões.

Um autor, é claro, tem todo direito de escrever o que quiser e, se há justificativa, sexo e violência podem fazer parte de uma HQ de super-heróis (basta citar o fantástico Miracleman: Olympus, que traz as duas coisas de forma justificada e contextualizada). Para mim, o problema no trabalho de Ennis é a gratuidade com que o sexo e a violência aparecem. Como se causar polêmica e ultrajar aqueles que acham que revistas de super-heróis não devem trazer sexo e violência fosse a razão de ser de seu trabalho. Mas há, é claro, quem goste muito dos quadrinhos desse roteirista irlandês. E para estes leitores, The Boys: O nome do jogo pode ser a publicação que estavam esperando!

(CONTINUA)

18/04/2010

Editoras investem em revistas promocionais.


Nos dias de hoje, parece predominar a regra do “pra quê criar, quando se pode copiar” (a melhor prova disso é o filme Avatar, que alcançou a maior bilheteria da história do cinema copiando a história de outro filme e o visual de HQs e video games). A verdade é que, na indústria cultural como um todo, repetir ideias e formatos que fizeram sucesso, gerando padrões e modelos a serem seguidos, sempre foi um expediente dos mais praticados. Claro que o resultado imediato pode até compensar para quem copia, porém, a longo prazo acabamos mergulhando mais e mais em padrões e modelos reprisados (basta lembrarmos das séries de super-heróis e novelas da tevê).

Mas se a lógica da cópia tende a ser prejudicial no que diz respeito aos conteúdos culturais veiculados, em alguns casos ela pode até ter suas virtudes ao ser aplicada aos formatos de veiculação e às formas de distribuição. Um bom exemplo disso acaba de acontecer nos Estados Unidos, envolvendo as duas líderes do mercado, Marvel e DC Comics. Em 2009, pegando a onda publicitária em torno da adaptação cinematográfica de Zack Snyder, a DC lançou a linha de edições promocionais After Watchmen ...what’s next?. A campanha começou com uma revista promocional gratuita trazendo páginas descritivas de alguns de seus principais títulos voltados a “leitores maduros”.

Abrindo com a divulgação das três versões disponíveis da obra de Alan Moore e Dave Gibbons (capa cartonada, capa-dura e edição definitiva), a revista busca associar Watchmen a outras publicações. Seguem-se então as divulgações de V de Vingança, Monstro do Pântano, A Piada Mortal e Liga Extraordinária, escritas por Moore, mas também de HQs de outros autores, como Y: O último homem de Brian K. Vaughan, Planetary de Warren Ellis, Preacher de Garth Ennis e All-Star Superman de Grant Morrison. O trabalho de marketing da editora continuou então numa sequência de revistas com os primeiros capítulos dessas e de outras obras. E todas com o preço de capa de $1.00!

O grande trunfo está, é claro, não apenas na associação do prestígio de Watchmen àquelas obras, mas na disponibilização dos primeiros capítulos por um preço convidativo para novos leitores em potencial. (A linha promocional da DC continua neste ano, rebatizada apenas What’s next?, com os n°1 de Batman and Robin e Flash: Rebirth.) Outras editoras norte-americanas já publicaram edições de estreia por $1.00 (a Dynamite, por exemplo, no relançamento de The Boys de Garth Ennis); mas para realizar algo nos moldes da linha lançada pela DC, só mesmo os recursos e o acervo de sua maior concorrente, que lança agora a série Marvel’s Greatest Comics.

Uma produção milionária do cinema, neste caso o novo filme do Homem de Ferro, também deu o pontapé inicial para a nova linha de revistas promocionais. Distribuída gratuitamente em março, Invincible Iron Man n°1 traz o primeiro capítulo da HQ de Matt Fraction e Salvador Larroca. Claro que, com a proximidade da estreia de Homem de Ferro 2, era de se esperar que os esforços publicitários da editora se voltassem ao personagem. Mas a linha Marvel’s Greatest Comics também prestigia outros heróis da “Casa das Ideias”, oferecendo revistas a $1.00 com aventuras do Capitão América, Wolverine, Thor, Justiceiro, Hulk, Vingadores, Homem Aranha e X-Men, entre outros.

O fato de a Marvel ter imitado de forma tão evidente a iniciativa de sua principal rival é um sinal de que a linha de revistas promocionais da DC deve ter sido um enorme sucesso. Ao copiar o modelo de edição e distribuição de After Watchmen, a Marvel’s Greatest Comics serve, sobretudo, para divulgar os produtos da editora. Mas, ao fazer isso, a linha de revistas promocionais também beneficia o público que poderá ler quadrinhos por um preço muito acessível. E isso nos faz pensar (mesmo considerando as enormes diferenças entre o mercado norte-americano e o brasileiro): será que a Panini não poderia também copiar essa ideia, oferecendo no Brasil uma linha de revistas a R$2,00?

Num momento em que os preços das revistas sobem e as tiragens declinam, encontrar formas de conquistar leitores e manter seu público é uma questão vital para o mercado de quadrinhos. Pois se cada vez mais as HQs encontram lugar nas livrarias brasileiras, na forma de livros e álbuns, os preços das edições mais volumosas ou luxuosas (R$45,00 / R$60,00 / R$90,00 / R$150,00!) é bastante proibitivo para boa parte do público-alvo dessas mesmas edições. O que também nos faz pensar: nosso mercado comporta tantas publicações em capa-dura e preços exorbitantes? Ou seria melhor edições com boa qualidade gráfica, textos bem-cuidados e preços mais acessíveis?

15/04/2010

Uma “revolução”!?


Na última semana, muito se comentou sobre preços e formatos de revistas, em resposta à divulgação pela Panini do que vinha sendo chamado de “revolução editorial” (à qual a editora tem se referido oficialmente como “a mudança”). Muitos leitores foram pegos de surpresa ao constatarem que as transformações que prometiam mudar sua forma de consumir quadrinhos não passavam de um rearranjo editorial, com troca de títulos, diminuição de páginas em uns, acréscimo em outros (leitores mais experientes já viram algo similar nos tempos em que a Abril publicava os super-heróis Marvel e DC). No fim, não houve nada parecido com uma “revolução” e tudo não passou de “muito barulho por nada”. Ou quase nada...

Em seu comunicado oficial, a multinacional que domina atualmente o mercado de quadrinhos no Brasil afirma: “Tanto as revistas mensais da Marvel quanto as da DC Comics assumem uma nova estrutura, visando deixá-las mais baratas e acessíveis ao novo leitor, e também àqueles já veteranos no mundo dos comics”. O comunicado dá a entender que os leitores sairão ganhando com as mudanças, pois pagarão menos pelos quadrinhos que lerão. Mas isso é, na melhor das hipóteses, um sofisma. A razão é simples: a diminuição no número de páginas foi maior que a diminuição no preço das revistas; ou seja, os leitores vão pagar menos, mas vão levar muito menos. Aí vem a pergunta: por que recorrer a esse tipo de retórica, em vez de ser direto e claro com os leitores?

Se eu fosse um consumidor dos produtos da Panini, eu preferiria uma abordagem mais sincera, explicando que as mudanças se devem à diminuição nas vendas das revistas e aos aumentos nos custos gráficos. Porque aí sim as medidas da editora tornam-se mais compreensíveis, como uma opção de reestruturação dos títulos, em vez de um aumento automático nos preços praticados até então. Porém, ao tentar disfarçar o remanejamento da sua linha editorial com a retórica de “uma nova era” (ou de “uma revolução”), a Panini acabou angariando a desaprovação da mídia especializada e dos próprios leitores que, é claro, não demoraram muito para perceber a manobra. O que talvez ainda falte a muitos perceber é que, no fim das contas, não há realmente o que lamentar.

Como venho dizendo há muito tempo neste blog, a maior parte dos quadrinhos mensais da Marvel e DC Comics não passa hoje, na melhor das hipóteses, de mero produto comercial descartável (ou de mero lixo cultural, como eu dizia em outros tempos). Embora muitos fãs falhem em perceber, por baixo da camada brilhante e dinâmica, das cenas bombásticas e dos desenhos detalhados, não há muito que se aproveitar. Falta história, falta habilidade narrativa, falta originalidade, falta o que realmente faz de uma HQ algo que deva ser lido e mereça ser lembrado. Nem sempre foi assim e nem sempre é assim, pois já se fizeram muitas e ainda se fazem algumas revistas mensais de qualidade. Mas então o que falta à Panini para fazer uma verdadeira revolução editorial?

Não sei os detalhes dos contratos que a multinacional e seus representantes no Brasil assinaram com a Marvel e a DC Comics. Não sei que obrigações e que limitações esses contratos impõem. Contudo, reservo-me o direito de uma pequena especulação: em vez de republicar quase tudo que as editoras norte-americanas lançam, não seria mais interessante, para o mercado de quadrinhos e para os leitores de super-heróis, se a Panini selecionasse mais o material, lançando apenas os produtos mais relevantes e de melhor qualidade? Os meios para essa seleção já estão dados no próprio processo de publicação, já que as HQs chegam às bancas com meses de diferença em relação à sua publicação original, o que permitiria se saber o que teve ou não uma boa repercussão.

Contudo, realizar tal seleção dá mais trabalho que simplesmente publicar quase tudo que se tem à disposição (talvez a última vez que os quadrinhos norte-americanos passaram por uma seleção editorial no Brasil tenha sido com a Pixel Magazine). Uma revolução de fato no mercado brasileiro seria a Panini lançar uma linha de quadrinhos brasileiros. Mas isso jamais acontecerá (infelizmente!). A editora tem ao menos o mérito de publicar a Turma da Mônica, que vende mais que qualquer quadrinho estrangeiro em nosso mercado (felizmente!). E foi com a marca de Panini que chegou às bancas a Turma da Mônica Jovem, a versão mangá dos personagens de Maurício de Sousa, que fez escola editorial e é provavelmente a série mais vendida em nosso mercado hoje.

Desde que assumiu a publicação dos super-heróis Marvel e DC Comics, a Panini teve alguns acertos louváveis (como a publicação de volumes com HQs clássicas), mas também cometeu equívocos imperdoáveis (como erros de revisão em publicações de luxo). Ao continuar inundando as bancas com revistas de baixa qualidade, a editora pode estar cometendo um erro definitivo. Afinal, os quadrinhos continuam sendo um segmento editorial ameaçado por crises periódicas e pela progressiva diminuição de seu público. Neste sentido, a verdadeira “revolução” será feita sempre por aqueles que publicarem HQs de qualidade a preços justos, contribuindo assim para a formação de novos leitores e a permanência dos atuais. Pois só desta forma, conquistando novos leitores e cativando os atuais, os quadrinhos irão se manter uma arte relevante também no século 21.

01/12/2009

DC Comics: resgatando antigos formatos em busca do sucesso.


Numa crise, muitas vezes a melhor solução pode não estar na invenção de algo novo, mas sim em se trabalhar a partir de um modelo já existente, adaptando-o à realidade do momento. O fato é que, após mais um fiasco editorial (envolvendo a pretensiosa e confusa Crise Final), a DC Comics ficou ainda mais em segundo plano na disputa com sua concorrente direta, Marvel. Ao que parece, a crescente perda de mercado inspirou os editores a se voltarem para antigos formatos de publicação, como as revistas com uma história principal seguida de uma HQ curta complementar. Comuns até os anos 70, as revistas em dupla voltaram a ser vistas neste ano, nas edições de Detective Comics (que além das aventuras da Batwoman trazem também histórias de Questão) e Doom Patrol (que junto com os personagens-título publicam a nova série com os Metal Men).

O mais bem-sucedido projeto de adaptação de um antigo formato foi Wednesday Comics, uma série de jornais semanais, em doze edições com capítulos de uma página. Imitando o formato dos clássicos quadrinhos dominicais, o projeto criado por Mark Chiarello recebeu o nome “quadrinhos de quarta-feira” por ser este o dia da semana em que os lançamentos chegam às lojas dos Estados Unidos. Trazendo medalhões da DC (como Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha), a série contou ainda com nomes consagrados do mercado (como Neil Gaiman, Brian Azzarello e Joe Kubert). Grande sucesso comercial, esses jornais com quadrinhos ganharão em breve uma coletânea em capa-dura. Lançada no início de julho, Wednesday Comics n°1 veio dobrada no formato comic book, mas, ao ser aberta, a publicação se desdobra em páginas num formato gigante, com ótima impressão de cores.

De saída, Brian Azzarello e Eduardo Risso oferecem uma história policial com o Homem-Morcego. Em seguida, Dave Gibbons e o desenhista Ryan Sook trazem de volta o herói pós-apocalíptico Kamandi. Virando a página, John Arcudi, Lee Bermejo e Barbara Ciardo nos levam a uma batalha entre o Homem de Aço e um estranho alienígena. A seguir, numa HQ com Deadman, a dupla Dave Bullock e Vinton Heuk imitam o estilo de Darwyn Cooke. Depois, são Kurt Busiek e Jae Quinones que tentam reproduzir o espírito de A Nova Fronteira numa aventura com o Lanterna Verde. Virando a página, Neil Gaiman e Mike Allred misturam Metamorfo, humor e caça ao tesouro. Já Eddie Berganza e Sean Galloway adotam um tom mais adolescente e um estilo mangá para sua versão dos Jovens Titans. Numa linha bem mais pessoal, Paul Pope e José Villarrubia mostram uma típica manhã agitada de Adam Strange.

Por sua vez, Jimmy Palmiotti e Amanda Conner preferem uma abordagem mais infantil, em sua HQ com a Super-Moça, o Super-Cão e o Super-Gato. Em seguida, o editor Dan Didio e os veteranos José Luís Garcia-Lopes e Kevin Nowlan resgatam dos anos 60 e 70 o grupo de robôs Metal Men. Na história seguinte, Bem Cadwell utiliza um traço belíssimo em sua versão conto de fadas para a Mulher-Maravilha. O clima muda completamente na história de guerra produzida por Adam e Joe Kubert para o Sargento Rock. Dividida em duas partes, a página seguinte traz um clima mais leve, nas HQs de Flash e Íris West, produzidas por Karl Kershl e Brenden Fletcher. Já Walt Simonson e Brian Stelfreeze preferem as sombras ao colocar frente a frente o imortal Jason Blood e a mortífera Mulher-Gato. Fechando essa edição de estreia, Kyle Baker opta por tons mais claros em sua aventura aérea com o Gavião Negro.

Bastante diversificado, o primeiro número de Wednesday Comics deixou a sensação de um projeto bem elaborado, que tem como base um bom time de autores. Além disso, as histórias dessa série semanal não fazem parte da cronologia oficial da DC, o que permitiu uma maior independência e liberdade criativa para roteiristas e desenhistas. Isso deu abertura para os pontos altos da edição de estreia (as páginas com o Batman, Metamorfo, Adam Strange e Mulher-Maravilha). Enquanto a edição encadernada ou a versão brasileira não vêm, algumas páginas da série podem ser encontradas pela Internet e também no blog oficial da DC.

06/08/2009

As últimas do Flash, por Geoff Johns.


Há alguns anos, Geoff Johns era apenas um novo nome nos créditos das HQs norte-americanas. Nos últimos tempos, porém, ele se tornou um dos mais destacados e importantes roteiristas dos quadrinhos de super-heróis (e da DC Comics em particular). Assinando participações em séries como Crise Infinita e 52, Johns tornou-se conhecido por seus trabalhos com super-heróis clássicos, com destaque especial para a minissérie Lanterna Verde: Renascimento, que resgatou e redimiu o herói Hal Jordan. Repetindo sua parceria com o desenhista Ethan Van Sciver, o roteirista está lançando agora The Flash: Rebirth, minissérie em seis edições que marca a volta de outro herói da “Era de Prata”.

Um dos efeitos da minissérie Crise Final foi o retorno de Barry Allen à continuidade regular dos heróis DC. Devidamente ressuscitado, o herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC” ganhou dos editores uma nova chance (bem aos moldes da oferecida ao Lanterna Verde em 2004-2005). O número 1 de The Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue emular o acidente que deu origem aos poderes do herói. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do Flash: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e de seu amigo Hal Jordan.

Com alguns mistérios e referências a outras HQs, o capítulo inicial da minissérie serve para estabelecer a trama, cenário e personagens. Como é de se esperar, o número 2 traz um desenrolar dos acontecimentos (um pouco lento), que mistura gorilas das cavernas, cultos à “força da velocidade” (a energia mística que impulsiona os velocistas da DC), flashbacks que revelam o passado de Barry Allen e diálogos que esclarecem elementos sobre seu presente. O Lanterna Verde Hal Jordan faz uma participação breve e mais um mistério é acrescentado com o surgimento de um enigmático “Flash negro”. Já o número 3 traz um emaranhamento ainda maior dentro da metafísica que envolve a tal “força da velocidade”. Um plano de contenção é necessário e alguns figurões da Liga e da Sociedade da Justiça dão as caras.

Além do herói Flash e do roteirista Geoff Johns, outro atrativo na minissérie é o trabalho de Ethan Van Sciver (auxiliado por uma competente colorização digital). Seu traço fino segue um padrão detalhista que, em alguns momentos, chega a ser meio estático para uma revista de super-heróis. Isso sem falar no fato de que seu estilo realista tende a ressaltar cenas estranhas, como personagens em fantasias espalhafatosas sentados à mesa lendo jornais ou comendo cachorros-quentes. E se algumas cenas de página inteira são bem impactantes, outras em sequências de quadros trazem desenhos quase amadores. Mais ilustrador do que propriamente um quadrinista, Van Sciver tem mostrado o melhor de seu trabalho nas capas da minissérie, todas com duas versões e com direito a citações de antigas capas e situações clássicas.

As edições de The Flash: Rebirth não têm sido as únicas participações do “velocista escarlate” em HQs escritas por Geoff Johns. Outro exemplo é Blackest Night #0, revista distribuída gratuitamente pela DC em maio. A história começa com reflexões de Hal Jordan sobre o espectro das cores e sua missão como Lanterna Verde, passando a um lamento à beira do túmulo do Batman Bruce Wayne. É então que Barry Allen entra em cena, apressadamente (no que parece ser uma participação anterior aos eventos mostrados em The Flash: Rebirth). Após um longo diálogo sobre amigos falecidos, os dois heróis partem sem perceber a presença do vilão Mão Negra, o arauto da “noite mais densa”. Sendo uma introdução à série agora em andamento, a HQ de doze páginas tem como ponto alto os excelentes desenhos de Ivan Reis.

Geoff Johns é hoje uma espécie de roteirista oficial do “Universo DC”, que (ao lado de Grant Morrison e dos chefões da editora) tem dado as cartas sobre os destinos de alguns de seus principais personagens. Grande conhecedor da cronologia e dos meandros ficcionais envolvendo aqueles heróis, o roteirista é de fato um trabalhador dedicado e esforçado, mas não é nenhum gênio. Com um gosto para histórias grandiosas e explicações superestruturais, suas histórias têm o mérito de agradar, mas deixam a desejar em termos de inovação. Apesar disso, podemos dizer que Johns merece todo seu sucesso, oferecendo-nos histórias acima da média das revistas de super-heróis. Para quem quiser dar uma olhada, a DC disponibilizou prévias das três primeiras edições de The Flash: Rebirth e a HQ completa de Blackest Night #0:

http://www.dccomics.com/media/excerpts/11472_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11691_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11881_x.pdf
http://www.dccomics.com/sites/greenlantern/media/comic/Blackest_Night_0.pdf

(Para saber mais sobre o herói Flash e as várias “Crises” pelas quais têm passado os heróis DC, clique nos marcadores abaixo.)

03/08/2009

Panini lança a mais nova super-saga “definitiva” da DC.


Desde os anos 80, as super-sagas “definitivas” tornaram-se bastante comuns nos quadrinhos das grandes editoras norte-americanas, com destaque para a DC Comics (que lançou essa tendência em 1985 com sua “maxissérie” Crise nas Infinitas Terras). Mais recentemente, uma verdadeira epidemia cataclísmica (ou simples ganância editorial) levou a uma confusa sequência de “crises” e “contagens regressivas” (que só tendem mesmo a deixar mais pobres os leitores que as seguem). Podemos dizer que, pelo menos desde meados dos anos 90, os quadrinhos de super-heróis em geral foram envolvidos por um esquema editorial que visa somente ao lucro. Com isso, eliminou-se qualquer rastro de um “universo ficcional” dotado de uma história coerente e personagens com credibilidade.

Quando comecei a colecionar quadrinhos, as “vidas” dos heróis importavam e seus destinos ficcionais tinham relevância para nós, leitores. Mas hoje por que motivo um leitor deveria se importar com o fato de que o Batman Bruce Wayne “morrerá” em uma edição vindoura? Afinal, todos sabemos que, num futuro não muito distante, ele será cinicamente ressuscitado por autores e editores interessados tão-somente nas vendagens das revistas. É claro que, desde o início, os quadrinhos de super-heróis foram um negócio, e vender revistas sempre foi a base desse negócio. A diferença é que, até uns vinte ou quinze anos, as histórias eram bem melhores e os personagens não eram vistos apenas como franquias, cujo melhor destino só pode ser protagonizar sua própria produção hollywoodiana.

Em sua função de repetidora local dos produtos DC Comics, a Panini tem seguido à risca a sequência de super-sagas “definitivas”, com suas histórias complementares. Assim, após uma extensa (e provavelmente dispensável) Contagem Regressiva, chegou às bancas brasileiras a alardeada Crise Final. Antes, porém, não faltou uma última exploraçãozinha: a revista Universo DC Especial: Começa a Crise Final (R$4,50). Trazendo capa e contracapa desenhadas por George Pérez e J.G. Jones, e sendo escrita por Grant Morrison e Geoff Johns, a “história” é narrada pelo falecido Flash Barry Allen. Pretendendo-se um prelúdio para a super-saga em questão, a HQ não passa de uma colagem ruim de sequências desconexas (entremeadas por anúncios das novas minisséries a serem lançadas pela Panini).

No final de julho veio, enfim, a Crise Final propriamente dita, minissérie em sete edições, escrita por Grant Morrison. Na divulgação da Panini lê-se: “O fim se aproxima! Ao longo do tempo, os heróis sempre são testados até o seu limite ao enfrentarem ameaças que nenhum deles pode derrotar sozinho. Eventos assim costumam ser chamados de Crises. Em toda a história do Universo DC, já ocorreram dois momentos como esses, que quase levaram toda a existência a um fatídico fim. Porém, mais uma vez os heróis serão necessários para se interpor à frente de um desafio que está muito além de suas forças individuais. [...] E, desta vez, nem todos os heróis escaparão das garras da morte. Mudanças profundas serão sentidas em todo o UDC...”. Será mesmo? Ou melhor, será que alguém ainda cai nessa conversa?

Claro que, para criticar qualquer revista em quadrinhos, é indispensável ler a edição. Se Universo DC Especial: Começa a Crise Final foi uma total perda de tempo e dinheiro, o mesmo não se pode dizer de Crise Final n°1 (R$5,50). A HQ começa na Pré-História, num momento prometéico ao estilo de 2001: Uma Odisséia no Espaço, envolvendo o personagem Metron da série Novos Deuses. Na sequência seguinte, já estamos nos tempos atuais, em que outro dos personagens cósmicos de Jack Kirby é vítima de assassinato. Entram em cena então os Lanternas Verdes, os Guardiões, a Liga da Justiça e outros medalhões da DC. Ecoando frases bíblicas e baseada na consagrada Crise nas Infinitas Terras, a super-saga “final” idealizada por Morrison também se ancora na temática superestrutural do “Multiverso”.

Um dos destaques de Crise Final n°1 deveria ter sido a execução de Ajax o Marciano (sim, ele morre!) pelo misterioso Libra e alguns dos membros da Sociedade Secreta dos super-vilões. A sequência, no entanto, é muito rápida e pouco expressiva, perdendo em dramaticidade. Com isso, o melhor mesmo desta primeira edição fica por conta dos ótimos desenhos de J.G. Jones (o artista responsável pelas capas da série 52). Dono de um traço detalhado e bastante adequado às HQs de super-heróis, o desenhista se sai muito bem nas variações entre passado e presente, ambientes cotidianos ou futuristas, personagens humanos ou alienígenas. Jones não será, contudo, o único responsável pelas sete edições da minissérie, dividindo funções com outros desenhistas, talvez não tão bons quanto ele.

No geral, após ler Universo DC Especial: Começa a Crise Final e Crise Final n°1 (e com R$10,00 a menos no bolso), posso dizer que não fiquei nem um pouco impressionado com o que vi, tampouco empolgado com a continuação de mais esta super-saga DC. Planejada para organizar definitivamente a estrutura do “Multiverso DC”, alinhando seu passado, presente e futuro, a minissérie escrita por Morrison (segundo a opinião geral) acabará se perdendo em suas próprias pretensões megalomaníacas. Pode ser que eu esteja velho demais para este tipo de quadrinho, cheio de personagens com estranhas fantasias coloridas. Mas, ao concluir esta postagem, caro leitor deste blog, eu pergunto: será que alguém (além dos autores e editores envolvidos) precisava de mais uma super-saga "definitiva"?

29/07/2009

Origens recontadas dos heróis DC.


Na época da série 52, a DC Comics produziu e lançou uma coleção de HQs de duas páginas com a versão resumida das origens de vários de seus personagens. Uma espécie de reedição das populares “origens secretas” publicadas até 1990, essa nova coleção The Origin of... foi uma forma de a editora familiarizar novos e antigos leitores com seu elenco de personagens. Com roteiros escritos por Len Wein, Mark Waid e Scott Beatty, as histórias contaram com a participação de diversos desenhistas, incluindo nomes de destaque do momento (como Ivan Reis, Ethan Van Sciver, J.G.Jones) e veteranos consagrados (como Adam Hughes, Kevin Nowlan, Bruce Timm, Kelley Jones, Arthur Adams).

Neste último time, o desenhista que mais contribuiu com páginas desenhadas foi, surpreendentemente, Brian Bolland. Exímio no desenho de belas personagens femininas, o artista inglês foi o responsável pelas páginas da origem de Zatanna. Tendo definido o visual do Coringa para toda uma geração de leitores (com A Piada Mortal), Bolland também foi o responsável pela HQ do principal vilão do Batman, escrita por Waid a partir daquela apresentada por Alan Moore. Para esta coleção The Origin of..., no entanto, o melhor trabalho de Bolland está nas páginas feitas para o Homem Animal (que ilustram esta postagem), com um roteiro de Mark Waid baseado na versão proposta por Grant Morrison.

As páginas das origens de Zatanna, Coringa e Homem Animal, bem como as demais HQs de The Origin of... estão disponíveis online (os textos, é claro, estão inglês e para acessar as páginas basta clicar nos links anteriores).

21/06/2009

Edições e downloads promocionais da DC / Vertigo.


Revistas com distribuição gratuita ou a preços irrisórios são boas formas de promover novas séries, edições especiais, linhas de quadrinhos específicas ou mesmo alcançar novos leitores que tenham chegado às HQs através de outras mídias. Este foi o caso da revista Vertigo Preview que, lançada em 1993 ao preço de 75 centavos de dólar, serviu para divulgar a estreante linha de “quadrinhos para leitores maduros” da DC Comics. Já em 2006, para promover a luxuosa coleção The Absolute Sandman, a editora lançou uma Special Edition ao preço de 50 ¢, trazendo o n°1 da série numa versão recolorizada, acompanhada de material bônus.

Após uma década e meia de atuação, a linha capitaneada por Karen Berger conta hoje com um catálogo dos mais invejáveis no mercado norte-americano. Uma amostra disso é dada nas coletâneas First Taste, First Offenses e First Cut que, com mais de 160 páginas e vendidas por $4.99 cada, reproduzem as primeiras edições de séries como Preacher, Os Invisíveis, 100 Balas e Transmetropolitan.

No início do ano, seguindo o exemplo da Vertigo e pegando carona na divulgação do filme, a DC lançou a série de revistas After Watchmen.. what’s next?, vendidas por $1 e trazendo reimpressões dos primeiros capítulos de obras como O Cavaleiro das Trevas, Ronin, V de Vingança, Asilo Arkham, Reino do Amanhã, entre outras. Esta foi, é claro, uma jogada esperta da editora, que aproveitou a mobilização midiática em torno da produção cinematográfica para estender o prestígio de Watchmen para outras obras de seu catálogo.

É claro que mais acessível ainda do que uma revista a preço baixo é uma HQ que se possa ler de graça. Neste sentido, a DC disponibilizou a página Vertigo #1 com downloads em PDF das edições de estréia de mais de trinta séries. As histórias estão no original, mas valem uma conferida mesmo por quem não lê em inglês. Além do link para a página geral acima, aqui vão os endereços diretos para as séries principais:

Swamp Thing:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/10793_1.pdf
Sandman:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1696_1.pdf
Hellblazer:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1618_1.pdf
Animal Man:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1594_1.pdf
Doom Patrol:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/2355_1.pdf
Books of Magic:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1669_1.pdf
Books of Magic #1:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1672_1.pdf
Death:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1601_1.pdf
Sandman Mystery Theatre:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1656_1.pdf
Invisibles:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1680_1.pdf
Preacher:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1645_1.pdf
Transmetropolitan:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1719_1.pdf
Fables:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1606_1.pdf
100 Bullets:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1587_1.pdf
Y - The Last Man:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1736_1.pdf

Completando a lista, a DC também disponibilizou, como parte da promoção em torno do filme da Warner, o primeiro capítulo de Watchmen:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/1462_1.pdf

Diferentemente dos famosos "scans", os arquivos para download divulgados aqui são legais e não violam direitos autorais de autores e editores.

07/06/2009

Os heróis DC entre crises, mortes, renascimentos e fórmulas batidas.


O termo “Crise” começou a ser usado pela DC Comics no início dos anos 60, em edições que reuniam personagens de diferentes realidades paralelas. A expressão representava geralmente uma ameaça que exigia a atuação conjunta da Liga da Justiça (com os heróis da Terra 1) e da Sociedade da Justiça (com os personagens veteranos da Terra 2). Utilizado esporadicamente ao longo de duas décadas, o termo ganhou novo significado em meados dos anos 80. Na época, a editora do Super-Homem passava por uma verdadeira crise administrativa e financeira, tendo perdido a posição de liderança do mercado para a concorrente Marvel e precisando se adaptar aos novos tempos. A resposta foi a “maxissérie” Crise nas Infinitas Terras de 1985, que buscou organizar a bagunçada cronologia da editora, eliminando o chamado “multiverso”.

Como resultado, toda a estrutura ficcional da DC foi racionalizada e seus principais personagens tiveram as origens recontadas, possibilitando que novos leitores começassem a acompanhar suas revistas. Além disso, os trabalhos de autores como Marv Wolfman, George Pérez, John Byrne e Frank Miller não só salvaram a editora, mas também originaram um dos melhores momentos na história dos quadrinhos de super-heróis. Todo o sucesso abriu caminho para novos eventos interligando personagens e publicações, como a boa minissérie Lendas de 1986. É claro que a ganância editorial não demorou a entrar em cena e, já na segunda metade dos anos 80, foram lançadas nos Estados Unidos a não tão boa Milênio e a fraquinha Invasão, com as quais a editora repetia fórmulas e começava a “meter os pés pelas mãos”.

Para piorar, em 1993 foram lançadas as enganosas patacoadas editoriais intituladas “A Morte do Super-Homem” e “A Queda do Morcego”. Eram os efeitos de uma nova crise editorial, causada pela perda de mercado para a recém-criada Image Comics. Em 1994, apenas nove anos depois de Crise nas Infinitas Terras, os editores da DC viram a necessidade de um novo “marco zero” para seus personagens. A resposta foi a dispensável Zero Hora: Crise no Tempo, minissérie que trouxe o Lanterna Verde Hal Jordan como o insano Parallax, e cujo único ponto positivo foi motivar o lançamento da ótima série Starman. A irrelevância de Zero Hora acabou sacramentada em 2004, com o lançamento de Lanterna Verde: Renascimento, HQ produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver, que trouxe a redenção de Hal Jordan como Lanterna Verde.

Nos últimos anos, em meio a uma nova crise editorial, a DC tem tentado incrementar as vendas com uma sequência de séries que reúnem seus principais personagens. De Crise de Identidade a Crise Infinita, passando por 52 e Um ano depois, até chegar à recente Crise Final, a editora norte-americana persiste na fórmula batida. Nesta última série, escrita por Grant Morrison, o Flash Barry Allen volta dos mortos e o Batman Bruce Wayne é aparentemente morto. No fim, porém, tudo fica mais ou menos da mesma forma: uma bagunça. Apesar disso, a confusa Crise Final está gerando frutos interessantes, como Flash: Rebirth, produzida por Geoff Johns e Ethan Van Sciver nos moldes de Lanterna Verde: Renascimento, ou como Batman and Robin, a nova HQ de Grant Morrison e Frank Quitely, já lançada como uma campeã de vendas.

A verdade é que nos últimos vinte anos, com raras exceções, as revistas de super-heróis não valem o papel em que são impressas. Exploração comercial excessiva, erros editoriais sucessivos e a mais pura falta de criatividade só poderiam mesmo resultar na perda de leitores. Ao folhear uma revista mensal da Panini, com a costumeira confusão de heróis e a indispensável explosão visual, sinto nostalgia pelas HQs desses mesmos heróis publicadas há vinte anos. Para alguém que começou a ler quadrinhos no momento em que Crise nas Infinitas Terras era publicada no Brasil, as atuais revistas de super-heróis só podem mesmo parecer uma enganação. Aos leitores que começam agora, fica a sugestão para buscarem os quadrinhos clássicos dos anos 80. Eles sim são garantia de uma boa leitura!

(Para saber mais sobre Crise nas Infinitas Terras e outras HQs da DC, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

03/06/2009

O Flash de diferentes eras.


Para quem lia quadrinhos de super-heróis entre 1956 e 1985, a fantasia vermelha e amarela do herói Flash escondia a identidade secreta de Barry Allen. Mas a verdade é que antes deste houve outro Flash e depois dele mais alguns. Tendo dado origem à chamada “Era de Prata” dos super-heróis norte-americanos, Barry Allen também lançou o “Multiverso DC”, ao se encontrar com seu antecessor, Jay Garrick (o Flash da “Era de Ouro”). Por isso mesmo, “o homem mais rápido vivo” acabou sendo uma das principais vítimas de Crise nas Infinitas Terras, série que buscou racionalizar a cronologia dos heróis DC. Mas, como nos quadrinhos de super-heróis a morte é uma condição variável, Barry Allen foi ressuscitado na saga Crise Final, retornando à ativa nas páginas da recém-lançada minissérie Flash: Rebirth.

Com o sucesso avassalador do Super-Homem, vários outros super-heróis surgiram entre o final dos anos 30 e o início dos anos 40. Criado por Gardner Fox e Harry Lampert, lançado em janeiro de 1940, Flash foi o nome assumido pelo estudante de química Jay Garrick que, após um acidente de laboratório, adquiriu o poder de mover-se “mais rápido que a velocidade da luz” (SIC!). Usando uma blusa vermelha com um raio amarelo estampado, uma calça azul com um cinto, botas com asas e um capacete de Hermes-Mercúrio, o Flash da “Era de Ouro” era uma evocação moderna do deus greco-romano. Mesmo alcançando bastante sucesso, o personagem (renomeado no Brasil como Joel Ciclone) não conseguiu escapar à queda nas vendas das HQs de super-heróis, tendo suas revistas canceladas em 1949.

Em 1956, o Flash foi resgatado do limbo dos quadrinhos por Julius Schwartz, um dos mais criativos editores da história do mercado norte-americano. Na revista Showcase n°4, Schwartz decidiu testar se o público da época se interessaria pelos super-heróis, buscando para isso um nome do passado. O escolhido foi o Flash, que manteve os poderes da versão original, mas ganhou uma nova identidade secreta e um visual mais moderno. Amante da ficção científica, o editor estabeleceu o tom da nova versão, que ficou a cargo do roteirista Robert Kanigher e do desenhista Carmine Infantino. Nascia ali Barry Allen, um cientista forense e leitor de quadrinhos que, após um acidente de laboratório, ganhou a rapidez de um relâmpago, tornando-se o “velocista escarlate” (o primeiro super-herói reformulado e um sucesso imediato).

Seguindo o exemplo do Flash, outros super-heróis da “Era de Ouro” ganharam versões modernizadas que cativaram o público dos anos 50 e 60. Começava então a chamada “Era de Prata”, caracterizada por enredos envolvendo elementos pseudocientíficos e fantasiosos. Muito criativas, as edições de The Flash marcaram época, valendo-se dos roteiros inusitados de Gardner Fox e John Broome, e dos desenhos leves e agradáveis de Carmine Infantino. Com seu uniforme que saltava do anel, Flash estava sempre de prontidão para enfrentar vilões impagáveis como Mestre dos Espelhos, Capitão Bumerangue e Capitão Frio. Em setembro de 1961, Schwartz, Fox e Infantino publicaram “Flash of Two Worlds”, HQ que colocou lado a lado Jay Garrick e Barry Allen, num antológico encontro do Flash da “Era de Ouro” com o da “Era de Prata”.

Mais que trazer uma história inventiva sobre realidades paralelas, a revista Flash n°123 deu o ponta-pé inicial a todo “Multiverso DC” (uma estrutura ficcional que se caracteriza pela existência de múltiplas realidades paralelas). Em breve seria a Liga da Justiça (grupo da “Era de Prata”) que se encontraria com a Sociedade da Justiça (seu predecessor da “Era de Ouro”) e o Lanterna Verde original (Alan Scott) que encararia sua versão modernizada (Hal Jordal). Surgiram também outras realidades inéditas, como a Terra onde Super-Homem, Batman, Mulher-Maravilha, Lanterna Verde e o próprio Flash deram lugar a versões maléficas (respectivamente: Ultraman, Homem-Coruja, Super-Mulher, Anel Energético e Relâmpago). Além disso, passaram a coexistir diferentes futuros e passados alternativos para o “Universo DC”.

Os leitores logo se habituaram com as várias realidades paralelas, classificadas como Terra 1, 2, 3... Com o tempo, porém, o que era uma idéia interessante tornou-se uma confusão ficcional. Para complicar, nos anos 70 e 80, a DC Comics comprou os direitos sobre personagens de outras editoras, que passariam a habitar mundos identificados como Terra X ou S. No centro do furacão, o Flash Barry Allen continuou rompendo fronteiras interdimensionais, enquanto as vendas de sua revista declinavam rapidamente. Nem mesmo o herói mais rápido dos quadrinhos pôde escapar ao desinteresse dos leitores e à maré racionalista da primeira metade dos anos 80. E foi respondendo a uma crise mercadológica que a DC lançou, em 1985, Crise nas Infinitas Terras, evento que salvou a editora, mas sacrificou alguns de seus heróis tradicionais.

Houve quem lamentasse o desaparecimento do Superboy, da Super-Moça ou mesmo de Krypto, o Super-Cão. Mas poucas mortes causaram tanto alarde quanto a de Barry Allen, herói que dera origem à “Era de Prata” e ao “Multiverso DC”, mas que havia se tornado obsoleto para os padrões da “Era de Bronze” (período que teria começado no início dos anos 70 com um amadurecimento das HQs). A identidade de Flash acabou assumida por Wally Allen, sobrinho do falecido herói e antigo Kid Flash. O substituto, é claro, não tinha o charme de seu antecessor e a memória de Barry Allen não foi esquecida. A fase de Grant Morrison à frente do Homem Animal é em parte uma homenagem às aventuras do Flash da “Era de Prata” (uma das edições é até dedicada a John Broome, Gardner Fox, Carmine Infantino e ao “falecido Barry Allen”).

No início dos anos 90, Barry Allen ganhou uma versão em carne, osso e enchimentos, no seriado de tevê The Flash (exibido pela Rede Globo, o programa caiu na linguagem popular, originando a expressão “mais rápido que o Dê-Flechi”). Recentemente, nos quadrinhos a fantasia do herói foi vestida por seu neto Bart Allen e na tevê pelos protagonistas do seriado The Big Bang Theory. As referências nesta popular comédia do Warner Channel coincidem com o retorno de Barry Allen, ressuscitado por Grant Morrison & Cia. na série Crise Final e reentronado pela DC em Flash: Rebirth (cuja capa do n°1 fez uma aparição no episódio de The Big Bang Theory exibido no fim de maio). A nova minissérie terá cinco (ou seis) edições, sendo escrita por Geoff Johns e desenhada por Ethan Van Sciver, dupla responsável por Lanterna Verde: Renascimento.

O número 1 de Flash: Rebirth começa bem, com um duplo assassinato cometido por um misterioso vilão que consegue emular o acidente que deu origem aos poderes do Flash. Nas páginas seguintes, encontramos os vários personagens que assumiram o nome do herói: de Jay Garrick e Wally West a Bart Allen e, é claro, o próprio Barry Allen. Lembranças e comentários sobre este último interligam as passagens da história, que incluem a participação de antigos adversários do herói e também de seu amigo Lanterna Verde Hal Jordan. Alguns mistérios e referências a outras HQs (como “Flash of Two Worlds”) são elementos essenciais deste primeiro capítulo que estabelece a trama da minissérie. Os bons desenhos seguem um padrão hiperdetalhista, que às vezes parece estático ou mesmo inadequado para uma revista de super-heróis.

De qualquer forma, para os fãs do “velocista escarlate”, Flash: Rebirth vale uma conferida. As duas primeiras edições da minissérie já foram lançadas nos Estados Unidos e a DC disponibilizou prévias das revistas em sua página oficial:
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11472_x.pdf
http://www.dccomics.com/media/excerpts/11691_x.pdf

11/03/2009

Watchmen, absolutamente!


Em 1985, com a ótima repercussão de público e crítica alcançada pela revista Swamp Thing, a DC Comics ansiava por novos trabalhos escritos por Alan Moore. Por sua vez, o roteirista inglês vinha há algum tempo pensando numa obra conceitual sobre os super-heróis, envolvendo um misterioso assassinato. Juntando a receptividade editorial com a criatividade autoral, surgiu a idéia de reformular os antigos personagens da Charlton Comics (cujos diretos de publicação a editora do Super-Homem havia adquirido recentemente). Nascia ali o que viria a ser Watchmen, minissérie em doze edições lançadas entre 1986 e 1987, graphic novel recordista de vendas e uma das melhores e certamente a mais complexa HQ de super-heróis já escrita.

A premissa básica da série era: como seria o mundo se os super-heróis existissem realmente (ou: como seriam os super-heróis se eles realmente existissem). Sua frase-tema: “Who watches the watchmen?” (“Quem vigia os vigilantes?”), tomada emprestado do autor romano Juvenal. O conceito agradou aos editores, mas eles temiam (com razão) que a abordagem realista proposta por Moore acabasse por inutilizar os personagens que pretendiam incorporar ao “Universo DC”. A solução encontrada foi relativamente simples: ao invés de lidar diretamente com os personagens da Charlton, um novo elenco de heróis seria criado pelo roteirista, em colaboração com o desenhista Dave Gibbons. Assim, no lugar do Pacificador entraria o Comediante, substituindo o Capitão Átomo viria o Dr. Manhattan, em vez do Besouro Azul surgiria o Coruja Noturna, enquanto o Questão daria vez a Rorschach.

Porém, mais que mascarar os antigos personagens sob novos nomes e feições, os autores evidenciaram seus elementos mais estruturais, trazendo à tona o que os ligava a outros super-heróis mais conhecidos. Não é à toa, portanto, que podemos ver no Comediante e no Dr. Manhattan as contrapartes do Super-Homem (de um lado o soldado a serviço do governo norte-americano e do outro o herói sobre-humano, virtualmente onipotente). Da mesma forma, encontramos no Coruja Noturna e no Rorschach as facetas do Batman (o combatente do crime fantasiado e cheio de aparatos tecnológicos, em contraposição ao detetive traumatizado e psicótico, violento e de convicções quase fascistas). Uma pista para essa duplicidade é o fato de esses personagens aparecerem atuando em duplas (Comediante com Manhattan, Coruja com Rorschach). Mas Watchmen é muito mais que a desconstrução de antigos super-heróis!

Dividida em capítulos de 28 ou 32 páginas com citações pertinentes ao final, acompanhados de textos que simulam trechos de livros, reportagens e relatórios, a série traz nas capas detalhes ampliados do primeiro quadro de cada capítulo, enquanto as contracapas mostram (edição após edição) um relógio que se aproxima das 12 horas, enquanto uma massa de sangue vem escorrendo até cobri-lo quase completamente. Com uma diagramação de página bastante regular (inspirada nas HQs de Steve Ditko, principal autor da Charlton), a obra de Moore e Gibbons alcança a complexidade de uma sinfonia, em suas múltiplas camadas significantes, simetrias e auto-referências, composições ressonantes e imagens recorrentes (inspiradas pela Teoria do Caos e seus fractais). Como criticaria mais tarde o próprio Alan Moore: “Watchmen é uma obra sobre sua própria estrutura”. Mas é mais que isso também!

A história começa em outubro de 1985, com o mundo à beira de um conflito nuclear entre as superpotências Estados Unidos e União Soviética. Nas ruas de Nova York, crime e desesperança dividem espaço com carros elétricos e placas indicando abrigos antinucleares. Há quase uma década, uma lei federal proibiu a atividade dos heróis mascarados, enquanto o inescrupuloso comediante e o superpoderoso Dr. Manhattan continuam atuando a serviço do governo norte-americano. Nesse contexto, um assassinato aparentemente insignificante toma proporções de conspiração quando o detetive mascarado Rorschach descobre que a vítima era na verdade o Comediante. Essa é a trama apresentada no número 1 de Watchmen, narrado (ao estilo de um William Burroughs) através do diário de Rorschach, retratado como um anti-herói paranóico às voltas com uma investigação sobre um suposto complô para eliminar os heróis mascarados.

A partir daí, Moore e Gibbons vão nos apresentando aos demais personagens da série, como o milionário Adrian Veidt que havia atuado como o mascarado Ozymandias e Laurie Juspeczyk que substituíra sua mãe no papel da heroína Espectro da Seda. Aliás, duas gerações de heróis são apresentadas, na medida em que passado e presente se misturam em flashbacks que vão do fim dos anos 30 a meados dos anos 70. É assim que conhecemos, no número 2 da série, os heróis que formavam o grupo Minutemen, sabemos do envolvimento do Comediante e do Dr. Manhattan na Guerra do Vietnã e testemunhamos os protestos urbanos que levaram ao banimento dos vigilantes mascarados. Violência e política, conspirações e memórias vão se interligando e influenciando mutuamente numa história que parece cada vez mais intrincada, como os mecanismos do relógio sugerido em seu título e desenhado em suas capas.

O capítulo 3 adiciona mais uma camada significante à narrativa, quando comentários corriqueiros e situações cotidianas são sobrepostos e mesclados às cenas e narrações da fictícia revista em quadrinhos Contos do Cargueiro Negro (as velas do navio pirata ganham até mesmo a forma de um aviso antinuclear). Se os trechos do diário de Rorschach já haviam estabelecido um clima de desesperança, as páginas da revista de piratas, “lidas” por um jovem leitor, imprimem ainda mais angústia à nossa leitura. A mensagem é: o mundo está à beira do abismo e estamos todos ilhados e enterrados até o pescoço na luta individual pela sobrevivência. Embora uma visão pessimista da vida seja parte do Realismo enquanto gênero literário, a atmosfera niilista presente em alguns trechos de Watchmen tem muito a ver com o contexto em que a HQ foi escrita, no qual o temor de um conflito nuclear entre EUA e URSS era algo palpável.

Na edição 4, o mundo avança em direção ao armagedom nuclear, depois que um emocionalmente acuado Dr. Manhattan deixou a Terra para ir morar em Marte. Mas o que verdadeiramente avança ali é a linguagem dos quadrinhos. Em linhas gerais, temos a história de origem de um personagem bastante interessante, contextualizada na cultura e política dos Estados Unidos dos anos 40 a 60. Mas o capítulo “Relojoeiro” vai muito além, revelando o trabalho de um autor capaz de integrar (como poucos em qualquer linguagem artística atualmente) estrutura e tema de maneira perfeitamente orgânica. Em outras palavras, um roteirista que nos apresenta a biografia de um super-herói quântico, por meio de uma concepção quântica do tempo (ou do fluxo narrativo), na qual passado, presente e futuro são percebidos simultaneamente. Enfim, uma HQ brilhante, que exemplifica o trabalho criativo-intelectual de um gênio da narrativa.

O número 5, com sua estrutura simétrica, acrescenta peças à trama, posicionando personagens e situações para futuros desdobramentos. Na edição 6, mergulhamos de cabeça num abismo existencial (de inspiração nietzschiana), quando descobrimos a origem secreta de Rorschach. O capítulo 7 abranda as coisas, mostrando Coruja Noturna e Espectro da Seda (heróis que herdaram a identidade de membros do Minutemen) num romântico vôo noturno. O número 8 traz um pouco de nostalgia, narrativas paralelas, uma fuga da prisão, alguns assassinatos e muito sangue. A edição 9 tem mais nostalgia (na forma do perfume que leva este nome) e uma reveladora conversa em Marte. O capítulo 10 desvenda que grande mente está por trás da trama conspiratória. No 11, chegamos a um clímax em que tudo é revelado. Já a edição 12 fecha a história, amarrando as pontas restantes, mas deixando uma última porta entreaberta.

Em termos visuais, Watchmen é um verdadeiro trabalho hercúleo e certamente a melhor obra de Dave Gibbons. Desenhar algumas dezenas de personagens, vários deles em diferentes idades ao longo da história, mantendo as identidades visuais marcantes e coerentes não é algo fácil. Desenhar o mesmo cenário de múltiplos ângulos ou variar, numa edição para outra, de um cruzamento em Nova York para as montanhas de Marte, sem perder o senso de ambientação, também não é uma tarefa simples. Aliadas a isso, temos as cores atmosféricas de John Higgins, que servem bem ao estilo cotidiano e realista dos desenhos. Sua melhor expressão está na recolorização feita para Absolute Watchmen, na qual os tons de cinza, roxo, marrom, carmim, magenta e laranja escolhidos pelo colorista colaboram para reforçar o clima lúgubre da HQ (e também contrastar as cores primárias do smiley, do Dr. Manhattan e do sangue).

Como toda obra, Watchmen tem seus altos e baixos (perdendo um pouco da força e originalidade a partir do capítulo 7), sem falar em alguns excessos (parte dos textos complementares é desnecessária e Contos do Cargueiro Negro não é exatamente indispensável à trama). Mas, com seu mundo em 360°, de um 1985 no qual Richard Nixon é o presidente dos Estados Unidos e os heróis mascarados envelhecem e têm vida sexual, essa HQ dissecou e reinventou os super-heróis, dando-lhes um contexto político e uma profundidade psicológica. Junto com O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller, a obra de Moore e Gibbons levou às últimas (e contraditórias) consequências a idéia da recriação realista (?) dos super-heróis. Por isso mesmo, na época do lançamento da série, ao ouvir a afirmação de que ele e Miller haviam salvado os super-heróis, Moore retrucou que, na verdade, o que eles tinham feito era “um trabalho de assassinato”.

De fato, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, uma onda de quadrinhos de super-heróis mais sombrios e violentos tomou conta do mercado norte-americano. Repletos de sangue, psicologia barata e textos pretensamente literários, os imitadores de Miller e Moore contribuíram para quase enterrar de vez os aventureiros mascarados. Após o lançamento de Watchmen (e a conclusão de Miracleman), Moore havia jurado jamais escrever uma nova HQ de super-heróis. Porém, no início dos anos 90, enfrentando problemas financeiros e desgostoso do impacto negativo que sua obra acabara tendo (principalmente devido aos imitadores que tentaram reproduzir seu estilo), o roteirista retornou ao gênero que o consagrara. Além de se recuperar financeiramente, seu objetivo então era resgatar o brilho e a ingenuidade dos antigos super-heróis, o que ele tentou realizar com as séries 1963 e Supremo.

A qualidade e a importância de Watchmen são inegáveis. Homenageada, premiada, parodiada e copiada, essa complexa obra colaborou para expandir as possibilidades e o repertório da linguagem das HQs. Sua absolute edition (com estojo, capa-dura, sobrecapa, tamanho estendido, impressão de alta qualidade e galeria de extras) apenas atesta seu prestígio editorial (sem falar no valor de mercado, que se multiplicou com a adaptação cinematográfica que acaba de estrear). E é interessante notar que, embora tenha ganhado o prêmio Hugo de ficção científica, Watchmen está cada vez mais para um romance de época, devido à sua ambientação nos anos 80. Quando a li pela primeira vez há vinte anos, eu não tinha maturidade para compreendê-la completamente. Tendo acabo de relê-la agora para escrever esta resenha, fica a sensação de uma obra que resistiu bem à passagem do tempo, merecendo absolutamente o título de clássico!

(Para saber mais sobre os temas tratados aqui e ler uma entrevista exclusiva com Dave Gibbons, basta clicar nas palavras em destaque abaixo.)

20/02/2009

Quais são as piores adaptações cinematográficas do século?


Houve um tempo em que adaptações dos quadrinhos para o cinema eram algo raro de se ver. Por isso mesmo, o lançamento de Superman – O Filme em 1978 e de Batman em 1989 foram verdadeiros acontecimentos de massa, que mobilizaram fãs por todo o mundo. Nos últimos tempos, porém, com os avanços dos efeitos visuais e a descoberta pelos estúdios de Hollywood do potencial mercadológico dos super-heróis, mais e mais produções têm se sucedido. Além disso, para grandes editoras como a Marvel e a DC, ter seus personagens estrelando longas-metragens de sucesso tornou-se uma importante fonte de renda. Mas, como era de se esperar, a pura exploração comercial e a ganância desenfreada não são receitas para obras de qualidade. Quem sobreviveu aos dois filmes do Batman dirigidos por Joel Schumacher talvez não imaginasse que se pudesse fazer produções milionárias ainda piores que aquelas. Contudo, alguns filmes dos últimos dez anos conseguiram essa façanha.

Segue então minha lista com as que considero as piores adaptações para o cinema da última década ou deste século, se preferirem (inicialmente, minha lista tinha apenas cinco filmes, mas outros acabaram tendo que ser incorporados).

1. A Liga Extraordinária (para mim a pior adaptação de todas, pois conseguiu pegar um quadrinho muito bacana, distorcê-lo, diminuí-lo e enxertá-lo, dando origem a puro e simples lixo cinematográfico. Sean Connery merecia coisa melhor!).

2. The Spirit (Frank Miller achou que estava fazendo um filme de Sin City e acabou deturpando completamente o espírito da obra-prima de Will Eisner).

3. X-Men Origens: Wolverine (tão ruinzinho que nem merece ser chamado de filme, mas sim de mero caça-níqueis de Hollywood).

4. Mulher-Gato (nem assisti, mas todo mundo fala tão mal que realmente tenho mais o que fazer e meu dinheiro não é capim. Além disso, as cenas que vi da Halle Bery vestida de Mulher-Gato só me deram saudades da Michelle Pfeiffer e seu inesquecível “miau!” em Batman - O Retorno).

5. Superman - O Retorno (um filmeco que jamais deveria ter sido feito).

6. Hulk (Ang Lee podia ter feito algo melhor do que uma bola verde saltitante, que mais parece o Geléia dos Caça-Fantasmas depois dos esteróides).

7. Elektra (tão chato que não consegui passar dos dez primeiros minutos).

8. Demolidor (o ator Ben Affleck deve ter ficado feliz em interpretar seu super-herói favorito, mas acho que só ele gostou desse filme).

9. Quarteto Fantástico (história, elenco e produção fraquíssimos. Ainda bem que assisti a isso de graça, na tevê).

10. Homem-Aranha 3 (falta história e sobram vilões. Ainda bem que também assisti de graça na tevê).

Fico aguardando os comentários de vocês com suas listas das piores adaptações dos últimos dez anos. Não deixem de participar!