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18/11/2010

Nossos parabéns a Alan Moore!


Alan Moore nasceu no dia 18 de novembro de 1953, na cidade inglesa de Northampton. Mago praticante, artista performático, letrista, escritor, desenhista eventual, pai de duas filhas, casado com a desenhista Melinda Gebbie, este escorpiano é sobretudo o mais influente roteirista da história dos quadrinhos. Sem ele, os trabalhos de Neil Gaiman, Grant Morrison, Warren Ellis, Mark Millar, entre outros roteiristas de quadrinhos, não seriam os mesmos, ou em alguns casos talvez nem mesmo existissem. Ao longo de trinta anos de carreira, Moore influenciou os rumos dos quadrinhos ocidentais de inúmeras formas e em pelo menos dois momentos principais (primeiro com Marvelman, Swamp Thing e Watchmen, mais tarde com 1963, Supremo e a linha ABC), dedicando-se nos últimos tempos a trabalhos mais autorais (como From Hell, Lost Girls e Liga Extraordinária).

De longe o autor sobre o qual mais escrevi para o Mais Quadrinhos, no dia de seu aniversário aproveito para fazer um apanhado de meus principais textos sobre suas obras:

Revista Warrior:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/warrior-25-anos-de-uma-revista.html

Marvelman:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/03/marvelman-e-recriacao-genial-dos-super.html

Monstro do Pântano:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/razes-e-frutos-de-um-monstro-do-pntano.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/monstro-do-pntano-em-merecida-edio-de.html

Miracleman:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/12/o-inovador-livro-i-de-marvelman.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/12/o-irregular-livro-ii-de-marvelman.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/12/o-incomparavel-livro-iii-de-miracleman.html

Watchmen:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/03/watchmen-absolutamente.html

Piada Mortal:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/11/insana-relao-entre-batman-e-coringa.html

In Pictopia:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/04/in-pictopia-uma-pequena-joia-de-alan.html

Spawn:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/04/spawn-origem-vol2-rene-mcfarlane-moore.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/04/com-assinatura-mas-no-o-talento-de-alan.html

1963:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2010/07/1963-uma-serie-que-marcou-epoca-e-virou.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2010/07/1963-uma-serie-que-marcou-epoca-e-virou_08.html

Supremo:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/alan-moore-repete-receita-para-boas-hqs.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/08/chega-s-lojas-o-ltimo-volume-de-supremo.html

Liga Extraordinária:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/liga-extraordinaria-de-alan-moore-e.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/07/liga-extraordinaria-chega-ao-seculo-20.html

Promethea:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2007/12/promethea-beleza-magia-e-quadrinhos.html
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/08/coletnea-traz-os-primeiros-captulos-de.html

(Para os fãs do mago de Northampton, há ainda outros textos e várias entrevistas que falam dele e de sua influência nos quadrinhos. Para conhecer todos, basta clicar no marcador logo abaixo.)

08/07/2010

1963: uma série que marcou época e virou história (II).


Reunindo uma equipe renomada que, além de Steve Bissette e Rick Veitch, contava com Dave Gibbons e John Totleben, entre outros, 1963 estreou com estardalhaço. Quando chegaram às lojas em 1993, Mystery Incorporated, The Fury, Tales of the Uncanny, Tales from Beyond, Horus e Tomorrow Syndicate traziam de fato algo que, se não era exatamente “novo”, era na certa inovador. Com personagens inspirados nos heróis Marvel tradicionais (Quarteto Fantástico, Hulk, Homem-Aranha, Thor, etc.), as revistas imitavam os estilos de desenho, diagramação e colorização dos anos 60 (proposta criativa que seria repetida com perfeição na revista Tomorrow Stories Special n°2); a imitação era tão completa que Moore produziu editoriais, seções de cartas e até anúncios publicitários de época (neste caso antecipando o que faria em 1999 na minissérie The League of Extraordinary Gentleman).

O fato é que toda a concepção de 1963, da criação à edição, tinha como modelo as revistas clássicas criadas por Stan Lee, Jack Kirby, Steve Ditko & Cia. Deixando de lado seus roteiros extensos e absurdamente detalhados, o “Afável Al Moore” se inspirou no chamado “Método Marvel”, escrevendo apenas indicações gerais para os desenhistas e trabalhando os diálogos após as páginas serem desenhadas. Mas, para muitos, a imitação do tom bombástico dos editoriais dos anos 60 e mesmo a forma pomposa como os nomes dos autores aparecem nos créditos das HQs, resultou mais numa autopromoção de Moore, do que propriamente numa homenagem aos quadrinhos clássicos. Chamadas às vezes de pastiches dos quadrinhos da Marvel, as seis edições da minissérie variam em qualidade, algumas aproximando-se mais, outras menos, da proposta estética que as originou.

Desenhada por Veitch e arte-finalizada por Gibbons, Mystery Incorporated sustenta-se como uma boa releitura do Quarteto Fantástico (apesar das similaridades com a revista Doom Patrol n°53, criada por Grant Morrison e Ken Steacy um ano antes). Maior destaque vai para o traço “Steve Ditko” da HQ com o personagem Hypernaut e o traço “Jack Kirby” da história com N-Man, ambas desenhadas por Bissette (para as revistas Tales of the Uncanny e Tales from Beyond, respectivamente). Pelo conjunto, a melhor revista é Horus – Lord of Light, que substituiu a mitologia nórdica do Thor da Marvel pela mitologia egípcia, num ótimo roteiro de Moore, desenhado por Veitch e Totleben. As demais histórias deixam a dever, embora a minissérie conte ainda com uma boa edição final, que reúne os diversos personagens e estabelece uma ponte para o “Universo Image” de 1993, anunciando o “Anual Gigante” que reuniria passado e presente.

Essa edição especial de oitenta páginas completaria a proposta estética de 1963, contrapondo os ingênuos heróis do “passado” aos violentos e sombrios personagens dos anos 90. Entretanto, as coisas começaram a dar errado e a já controversa minissérie acabou tendo um final tumultuado. Uma vez que envolveria os principais personagens da Image (Spawn, Wild C.A.Ts., Youngblod, etc.), o “Anual Gigante” precisaria contar com a participação de seus criadores (Todd McFarlane, Jim Lee, Rob Liefeld, entre outros), que na época já não se entendiam muito bem. Além disso, teria faltado empenho de Moore no final, uma vez que a minissérie já havia resolvido seus problemas financeiros e que o esperto Todd McFarlane o havia contratado (a peso de ouro, segundo consta) para produzir uma HQ do Spawn e em seguida as minisséries Violador e Feudo de Sangue (alguns dos piores trabalhos assinados pelo roteirista inglês).

Numa trajetória que envolveu disputas e trapaças, o “Anual Gigante” acabou não sendo realizado e, como efeito colateral, Moore rompeu seu contato com Bissette. Mais tarde, os direitos autorias sobre os personagens de 1963 foram divididos entre os três autores principais, num acordo que inviabilizaria a republicação da minissérie (até o momento). Mas, apesar dos problemas e controvérsias, a incompleta minissérie cumpriu seu papel, inaugurando o subgênero das revistas de super-heróis retrô e das recriações metalinguísticas (linha seguida pelo próprio Moore na sua brilhante fase à frente da série Supremo, que transformou um plágio do Super-Homem numa homenagem metaficcional às HQs clássicas do herói). Muito comentada e imitada nas décadas que se seguiram, 1963 deu início a uma nova fase, em que os quadrinhos de super-heróis se voltaram ao passado para reencontrar seu caminho.

(Para quem quiser saber mais detalhes sobre os quadrinhos de Alan Moore e ler minha entrevista exclusiva com Steve Bissette, basta clicar nos marcadores abaixo.)

05/07/2010

1963: uma série que marcou época e virou história (I).


Entre 1984 e 1989, com as séries Monstro do Pântano, Watchmen e Miracleman, Alan Moore ajudou a revolucionar os quadrinhos de super-heróis. Mas, depois de muito sucesso e de uma aclamação pública poucas vezes vista por um autor de quadrinhos, ele decidiu se afastar das grandes editoras (principalmente devido aos problemas legais com a Marvel, em torno da utilização do nome Marvelman, e às desavenças contratuais com a DC Comics, acerca dos direitos de publicação de suas obras). Além disso, o roteirista jurou jamais voltar às HQs de super-heróis, que considerava então um gênero esgotado. A partir daí, ele passou a se dedicar a trabalhos mais autorais e pessoais, como as histórias em capítulos para a publicação independente Taboo (na qual surgiram From Hell e Lost Girls) e graphic novels especiais (como Brought to Light e A Small Killing).

Aproveitando o renome internacional e estimulado por outros editores independentes (como Dave Sim da série Cerebus), Moore decidiu montar sua própria editora. Nascia então a Mad Love, na qual o roteirista tinha como sócias sua esposa, Phyllis, e a namorada dos dois, Debbie. Pela editora, eles lançaram a revista especial AARGH (“Artistas Contra Agressiva Homofobia Governamental”), coletânea destinada a angariar recursos para serem usados contra uma proposta de lei do governo Margaret Thatcher. Em seguida, veio a série Big Numbers que contava com a fantástica arte de Bill Sienkiewicz, mas que enfrentou imensos (e ainda misteriosos) problemas, sendo interrompida em seu segundo número. Toda a confusão envolvida na interrupção de Big Numbers levou não apenas ao rompimento entre Moore e Sienkiewicz, mas também ao fim de seu casamento a três e à falência de sua editora.

Enfrentando problemas pessoais e financeiros, o roteirista não teve muita escolha, a não ser voltar atrás com sua palavra, retornando ao gênero dos super-heróis. Era 1992 e, na época, a Image Comics representava uma alternativa às gigantes do mercado norte-americano (Marvel e DC Comics), além de ser uma promessa de liberdade criativa (ou mesmo de dinheiro fácil). O primeiro contrato assinado por Moore com a nova editora foi a controversa minissérie 1963 (que também ficaria inacabada e levaria a outro rompimento pessoal). Tudo começou com o convite do quadrinista Jim Valentino para que Moore escrevesse uma edição de sua série Shadowhawk (um dos muitos clones do Wolverine surgidos na época). Moore não se interessou pelo trabalho, mas como contraproposta apresentou, junto com os desenhistas Steve Bissette e Rick Veitch, a proposta para o que viria ser a minissérie 1963.

Toda a concepção desse projeto não pode ser separada do histórico pessoal e do momento que Moore vivia. Tendo rompido “definitivamente” com a Marvel e a DC, o roteirista viu na Image a chance de retornar às lucrativas HQs de super-heróis, sem ter que se associar novamente àquelas editoras. Além disso, ele estava muito descontente com o efeito negativo que suas obras tiveram sobre as revistas de super-heróis, que se tornavam então cada vez mais violentas e cínicas. Assim, embora considerasse que havia feito sua “declaração final” sobre os super-heróis em Watchmen e Miracleman: Olympus, o projeto para a Image tornou-se uma forma de contribuir com a nova editora na disputa contra as duas gigantes do mercado e, ao mesmo tempo, de combater os efeitos negativos do “realismo” dos anos 80. A resposta criativa de Moore veio na forma de seis edições inspiradas nos quadrinhos Marvel do início dos anos 60.

(CONTINUA)

20/04/2010

Uma nova onda nos quadrinhos de super-heróis.


A partir dos anos 80, falou-se muito sobre HQs de super-heróis realistas. Mas falar em “realismo” nesse gênero de quadrinhos é praticamente uma contradição em termos. Afinal, algo que se chame de “realista” pressupõe que se tenha como parâmetro o que chamamos de “mundo real”. Portanto, não haveria em princípio nada muito realista numa obra que tem como protagonistas personagens que voam pelos céus, disparam raios de suas mãos ou se transformam em monstros superpoderosos. Neste sentido, o caráter extraordinário e fantasioso dos quadrinhos de super-heróis asseguraria que esse gênero não incluísse algo que pudéssemos chamar estritamente de “realista”.

Ainda assim, entre a segunda metade da década de 1970 e a primeira metade da década seguinte, começaram a surgir HQs de super-heróis que buscavam uma abordagem mais realista das situações envolvendo os personagens. O auge dessa tendência viria em meados dos anos 80, com a publicação de O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller e Watchmen de Alan Moore e Dave Gibbons. Nessas duas obras, o gênero super-heróis ganhou contextualização política e social, além de dimensão psicológica e histórica. Ao mesmo tempo, esses trabalhos se destacaram por inovar a linguagem dos quadrinhos de super-heróis, influenciando até a forma como eles passariam a ser comercializados nos Estudados Unidos (como minisséries de luxo e graphic novels).

Em entrevistas da época, ao ser perguntado se sua obra e a de Miller haviam salvo o gênero super-heróis, Moore respondeu que o que fizeram estaria mais para um “trabalho de assassinato”. O fato é que O Cavaleiro das Trevas e Watchmen foram obras tecnicamente inovadoras que se tornaram marcos na história dos quadrinhos, mas que também disseminaram uma concepção negativa e violenta dos super-heróis. Sucesso de público e crítica, essas HQs acabaram dando origem a várias cópias, que imitavam alguns elementos de sua narrativa revolucionária, mas que muitas vezes apenas mimetizavam os aspectos mais sombrios e sanguinolentos da abordagem de Miller e Moore.

Foi naquela época que Wolverine, por exemplo, foi assumindo um comportamento ainda mais violento e que o Justiceiro deixou de ser um antagonista do Homem Aranha para ganhar suas próprias séries. Mas talvez o produto mais marcante dessa fase tenha sido Spawn de Todd McFarlane. A série copiava os quadros em forma de tela de tevê e as massas de sombras características de O Cavaleiro das Trevas, além de depender muito das cenas de violência, embora não contasse com o sentido psicológico ou político visto em Watchmen. Assim, em muitos casos, o resultado da influência de Miller e Moore acabou sendo muito sangue e pouquíssima qualidade artística.

Nos últimos anos, tem surgido uma nova onda de HQs de super-heróis repletas de violência explícita (e também com algumas cenas de sexo quase explícito). Voltadas a “leitores maduros” e ambientadas numa realidade similar ao chamado “mundo real”, essas publicações não poupam em palavrões e parecem ter como um de seus objetivos centrais causar algum ultraje. Um melhor exemplo é a série The Boys, criada pelo polêmico Garth Ennis e editada em 2007 pelo selo Wildstorm da DC Comics até seu n°6, quando a editora cancelou sua publicação devido a seu conteúdo. A série então passou a ser publicada pela Dynamite e acaba de chegar ao Brasil numa coletânea pela Devir.

Pegando uma carona na linha After Watchmen e para promover o primeiro encadernado da série (The name of the game), a Dynamite relançou o n°1 da série, pelo preço de $1.00. Como não sou um fã do estilo excessivamente cínico e propositalmente polêmico de Garth Ennis, não comprei a coletânea original e nem pagarei R$39,50 pela edição da Devir. Mas, para saber do que se tratava, adquiri a edição promocional e posso dizer que Ennis correspondeu às expectativas! Ou seja: logo de saída vemos um super-herói tendo o crânio esmagado, um rapaz destroçando sua namorada contra um muro, um pouco de sexo depois, bastante cinismo e alguns palavrões.

Um autor, é claro, tem todo direito de escrever o que quiser e, se há justificativa, sexo e violência podem fazer parte de uma HQ de super-heróis (basta citar o fantástico Miracleman: Olympus, que traz as duas coisas de forma justificada e contextualizada). Para mim, o problema no trabalho de Ennis é a gratuidade com que o sexo e a violência aparecem. Como se causar polêmica e ultrajar aqueles que acham que revistas de super-heróis não devem trazer sexo e violência fosse a razão de ser de seu trabalho. Mas há, é claro, quem goste muito dos quadrinhos desse roteirista irlandês. E para estes leitores, The Boys: O nome do jogo pode ser a publicação que estavam esperando!

(CONTINUA)

31/12/2009

O incomparável “Livro III” de Miracleman.


Quando o “Livro III” de Miracleman começou a ser publicado no primeiro semestre de 1987, haviam se passado cinco anos desde que o personagem fora relançado nas páginas da Warrior. Nesse meio-tempo, Alan Moore deixou de ser um roteirista inglês relativamente desconhecido para se tornar (ao lado de Frank Miller) um dos astros do mercado norte-americano. Ele já havia alcançado grande reconhecimento ao reformular o Monstro do Pântano (lançando as raízes para o que viria a ser mais tarde o selo Vertigo) e deixava todos na época estupefatos com sua dissecação dos super-heróis chamada Watchmen (a melhor e mais influente abordagem “realista” desse gênero). Com o próprio Marvelman / Miracleman, o roteirista já havia inovado ao lançar a primeira reformulação racionalista de um personagem tradicional (que influenciava as recriações dos principais heróis da DC e a concepção básica do Novo Universo Marvel). Então, superando as expectativas, em seu volume final de Miracleman, Moore foi mais além!

Na segunda metade dos anos 80, no rastro de O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, e sob o rótulo do “realismo”, uma onda de quadrinhos mais sombrios e violentos tomou conta das revistas de super-heróis. Estando no auge de sua carreira, esbanjando talento e criatividade, Moore não se contentou em seguir as tendências do mercado e produziu Miracleman: Olympus, uma HQ de super-heróis quase surrealista. Publicado entre os números 11 e 16 da revista, esse terceiro volume foi o único a contar com apenas um artista, o talentosíssimo John Totleben. E uma vez que as histórias eram publicadas cinco anos após o início da série, brilhantemente, Moore incorporou essa informação à narrativa, fazendo de Olympus um livro narrado em retrospectiva. Tudo começa num maravilhoso e monumental palácio-montanha, construído sobre os escombros de Londres, onde o herói que ascendeu à condição de divindade começa a refletir sobre “a sensação de se viver numa mitologia” (enquanto escreve suas memórias num livro de páginas de aço).

As metáforas e referências mitológicas perpassarão o “Livro III”, a começar pelos títulos de seus capítulos: “Cronos”, “Aphrodite”, “Hermes”, “Pantheon”, “Nemesis” e “Olympus”. E é nesses termos que os dois agentes alienígenas vistos ao final do “Livro II” são reapresentados, já que pertencem à civilização dos Qys, responsável pela tecnologia do “infraespaço”, e vieram à Terra destruir as criaturas geradas através dela, sendo assim equiparados ao titã Cronos que devorava / destruía seus filhos. Ou como expressa poeticamente o próprio Miracleman: “Eu não os conhecia então enquanto titãs, eu não sabia que Cronos havia chegado para confiscar os raios de um delinquente Zeus. Isso foi antes de tais conceitos serem definidos, ou inscritos, incandescentes, no aço imortal”. O que se segue é um embate entre monstros alienígenas transmorfos e um surpreso herói superpoderoso, tudo numa dinâmica e variada sequência narrativa, embelezada pelo expressivo traço de Totleben e o poético texto de Moore. Em outros termos: um começo nada menos que genial!

Ao descobrirem sobre Winter (a filha de Miracleman e Liz Moran), os agentes alienígenas concluem que sua missão é mais complexa do que pensavam. Com isso, enquanto um deles neutraliza o pai, o outro parte em busca da filha, mas todos acabam surpreendidos pela intervenção de Miraclewoman (a personagem superpoderosa que se manifestara no último capítulo do “Livro II” e permanecia desconhecida). Comparada na narração à deusa Afrodite, ela será o centro das atenções no segundo capítulo, que narra a história de como essa heroína também foi criada por Gargunza. Ressalta-se aí o tom sensorial e sensual da narrativa, unido às imagens detalhadas e amplas que, em conjunto, reforçam o caráter erótico e quase surrealista da HQ. O resultado é um dos raros quadrinhos de super-heróis que lida com o tema da sexualidade de uma forma madura. Ao final do capítulo, sabemos um pouco mais sobre a intrincada trama concebida por Moore e presenciamos a chegada de um casal de Warpsmiths (superpotência interestelar inimiga dos Qys).

Os Warpsmiths surgiram na Warrior n°4, no interlúdio “The Yesterday Gambit” (que mostra uma possível batalha futura entre Miracleman e Kid Miracleman), voltando a aparecer na história “Cold war, cold warrior” (publicada nos números 9 e 10 da Warrior, e mais tarde republicada em cores pela Eclipse). Mantendo uma espécie de “Guerra Fria” com os Qys, os Warpsmiths são alienígenas capazes de dobrar o espaço-tempo à sua vontade, sendo identificados com o veloz deus Hermes. Passado num mundo extraterrestre, esse terceiro capítulo pode ser comparado a outras tentativas de se criar civilizações alienígenas. Contudo, a concepção original e o texto simbolista de Moore têm uma ousadia temática e um caráter peculiar que causam ao leitor o estranhamento de se estar diante de algo que parece mesmo alienígena (por exemplo, no caso do-da rei-rainha Qys: uma gigantesca massa celular disforme e hermafrodita). E se tudo se acerta entre as superpotências interestelares, é quando Miracleman retorna à Terra que as coisas começam a se complicar.

Humana, num mundo agora povoado por seres imortais e superpoderosos, Liz Moran entra em crise. Antes mesmo de engatinhar, Winter voa de seu berço e começa a discorrer sobre o estado mental de sua mãe. As coisas se “normalizam” um pouco quando Miracleman e Miraclewoman são convidados a visitar a estação espacial da qual os Warpsmiths passaram a monitorar a Terra. De lá, eles descobrem um outro ser superpoderoso, Firedrake, que teria a natureza apolínea de um “portador do fogo divino”. Com ele, o “glorioso Panteão” estava completo e a transformação do mundo numa utopia poderia começar. Mas, como em todo paraíso, aquele também tinha uma serpente. Vivendo numa instituição para jovens infratores, Johnny Bates (ainda um menino, por ter permanecido no ”infraespaço” por quase vinte anos) é atormentado pelo sádico Kid Miracleman (preso em seu inconsciente), enquanto sofre humilhações e agressões de outros internos. Quando estes o violentam, ele não suporta mais e se transforma em Kid Miracleman.

O que vem a seguir é Miracleman n°15, talvez a mais violenta HQ de super-heróis já produzida. Na época, Moore se referiu a ela dizendo que, após completar Watchmen, que considerava sua “declaração final sobre os super-heróis”, ele se viu às voltas com a obrigação de produzir uma outra declaração final sobre o gênero. E pode-se dizer que, neste caso, ele não deixou “pedra sobre pedra”! Lançada no final de 1988, a revista explora o que aconteceria se seres superpoderosos e virtualmente indestrutíveis se enfrentassem nas ruas de uma grande metrópole. Tendo de um lado Miracleman, Miraclewoman, Firedrake e os Warpsmiths, de outro o cruel e amoral Kid Miracleman, o resultado é a mais terrível devastação e carnificina. Mostrando chuvas de mãos e pés decepados, rios de sangue, corpos mutilados e descarnados, as imagens são tão explícitas e absurdas que chegam a ter um efeito surrealista. E se os desenhos já dizem muito, o texto repleto de metáforas e simbolismo dá uma dimensão épica a esse encontro do herói com seu nemesis.

Passados mais de vinte anos desde sua publicação, a penúltima edição de Moore para a Miracleman permanece inigualável em sua proposta de expor a violência implícita às HQs de super-heróis, levando-a a suas últimas consequências. Ela pode ser considerada também um dos melhores trabalhos de Totleben (que enfrentou muitas dificuldades durante seu trabalho na série, devido a uma doença degenerativa que atingiu seus olhos, limitando seu campo de visão e impedindo-o de trabalhar por longos períodos). Na edição final de Moore & Totleben, publicada apenas em fins de 1989, o herói feito divindade conclui sua narrativa sobre como um maravilhoso mundo novo foi construído sobre os escombros de Londres (pois como ele havia concluído antes: “não há nenhuma casa de deuses que não tenha sido construída sobre ossos humanos”). Ao longo do caminho, intervenções na política internacional, a limpeza do meio ambiente, a paz mundial, o fim da miséria e até mesmo superpoderes para todos e a ressurreição dos mortos tornam-se possíveis.

Em meio à construção da utopia (ou ditadura), temos uma sequência de sexo aéreo com Miracleman e Miraclewoman, um ritual fúnebre de sexo grupal dos Warpsmiths e um trecho polêmico em que Winter (então uma menina de quatro anos) refere-se a suas experiências sexuais na temporada que passou no espaço. Mas mesmo um “mundo perfeito” não está livre de problemas, afinal há os que não aceitaram a nova ordem mundial imposta pelas divindades cósmicas. A própria Liz Moran optou por não se converter num ser superpoderoso, preservando sua humanidade. Condição esta que Miracleman havia deixado para trás ao “enterrar” Mike Moran num capítulo anterior, embora parecesse nostálgico dela mais tarde, ao segurar um crânio nu (qual um contemplativo Hamlet). O capítulo final de Miracleman: Olympus, que tratou de maravilhas e imortalidade, conclui com uma apropriada reflexão sobre as escolhas e limitações que nos definem a todos, as quais chamamos de humanidade. E nunca antes uma série de super-heróis foi tão filosófica e pertinente!

Inovadora e inspiradora em seu início, irregular e prejudicada em sua continuação, a fase de Alan Moore à frente de Marvelman / Miracleman concluiu como uma das mais brilhantes e originais revistas de super-heróis já produzidas. Mesmo com a saída do roteirista, sua influência sobre a série permaneceria notável. Afinal, apesar das diferenças de proposta, o trabalho de Neil Gaiman (no “Livro IV” e no inacabado “Livro V”) e dos outros roteiristas que lidaram com o personagem (na minissérie Miracleman: Apocrypha) partiu do que havia sido construído por Moore (quando não de uma simples frase ou cena de uma de suas histórias). E tendo servido de modelo para outras HQs da época, a influência de Miracleman pode ser notada em trabalhos posteriores, como por exemplo Astro City de Kurt Busiek (cujo primeiro capítulo é um plágio de “Um sonho de voar”) e Authority de Warren Ellis (cuja primeira revista imita a devastação vista em “Nemesis”). Mas, apesar do prestígio e importância, a trajetória de Miracleman perneceria tumultuada.

Em 1994, a Eclipse foi à falência e seu acervo de personagens foi parar num leilão judicial. Com isso, em 1996, Todd McFarlane deu um lance de alguns milhares de dólares e comprou a editora “de porteira fechada”. Um problema é que esse leilão não levou em conta as diversas propriedades autorias sobre os personagens. O próprio Miracleman é um caso complexo, já que Moore havia passado seus direitos para Gaiman, mas outros autores (como Alan Davis) também se consideram proprietários das HQs produzidas a partir de 1982. Além disso, McFarlane e Gaiman acabaram se desentendendo sobre pagamentos relativos ao uso da personagem Angela (criada por Gaiman para a série Spawn). Para complicar, em 2001, McFarlane lançou uma estátua de Miracleman e divulgou que ele participaria da revista Hellspawn. Então, com parte dos lucros da minissérie 1602 (publicada pela Marvel), Gaiman criou a companhia Marvels and Miracles LLC, voltada a resolver a situação de Miracleman, o que deu início a um processo judicial contra McFarlane.

Passaram-se alguns anos até que um juiz decidiu a questão, definindo que McFarlane não tinha direitos sobre o personagem. Mas, a saga jurídica de Marvelman / Miracleman não se encerrou aí. No mesmo processo, descobriu-se que, ainda em 1982, o editor Dez Skinn não teria pago a Mick Anglo pelos direitos de usar o personagem na Warrior, o que gerou um novo entrave judicial. Então, em 2009, o editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, anunciou que Marvelman passava a fazer parte do acervo da editora (o que é bastante irônico, já que essa mesma editora havia criado os primeiros problemas judiciais para o personagem). O fato é que isso trouxe a possibilidade de o herói voltar a ser publicado, e também de que Gaiman conclua sua fase à frente da série. Mas, embora um acordo já tenha sido feito com Anglo e Moore, há ainda muitos acertos a serem feitos com os diversos autores que trabalharam na série. Logo, aos antigos e futuros leitores, só resta aguardar o dia em que Marvelman ganhará novas edições, à altura de sua qualidade e importância!

(No Brasil, Marvelman / Miracleman foi publicada no início dos anos 90 pela pequena editora Tannos. Nas quatro revistas em P&B que lançaram, os editores publicaram o “Livro I” completo e alguns capítulos do “Livro II”, além das HQs especiais “The Yesterday Gambit” e “Cold war, cold warrior”. A qualidade gráfica das edições deixava a desejar, com revistas em tamanhos e tipos de papel diferentes, mas a Tannos teve o mérito de tornar disponível aos leitores brasileiros ao menos uma parte dessa obra-prima dos quadrinhos.)

28/12/2009

O irregular “Livro II” de Marvelman / Miracleman.


Com a qualidade e a originalidade do “Livro I” de Miracleman, podia-se esperar algo ainda mais marcante para sua continuação. Porém, envolto em problemas editoriais, brigas pessoais, falta de talento de uns e aparente desinteresse de outros, o “Livro II” da série deixou a desejar. Trazendo os últimos capítulos publicados na Warrior e HQs produzidas pela Eclipse, essa segunda parte é a menos constante em termos visuais e a mais fraca em termos de roteiro. O fato é que, com seus desentendimentos com Dez Skinn e começando a trabalhar na série Swamp Thing, Alan Moore parecia não estar mais tão interessado em Miracleman. Para piorar, como a Marvel Comics havia criado dificuldades para a publicação da série na Warrior, o roteirista decidiu retaliar não permitindo a republicação de suas histórias com o Capitão Bretanha; isso irritou seu parceiro no trabalho, o desenhista Alan Davis, que não se interessou por continuar a desenhar a Miracleman (ao que consta, o acordo com a Eclipse, que levou a série para os Estados Unidos, também o teria desagradado).

Nas páginas da própria Warrior, o “Livro II” já havia contado com o trabalho de outro desenhista, o expressivo John Ridgway (responsável pelos capítulos especiais “Young Marvelman: 1957” e “The Red King Syndrome” partes 1 & 2). Assim, pode-se dizer que o problema não estava em se substituir o desenhista principal (Davis) e sim na escolha de quem o substituiria. Na certa, o nada talentoso Chuck Beckum não foi a melhor escolha! Responsável por alguns dos capítulos finais da história (que possivelmente haviam sido escritos ainda para a Warrior, embora não tivessem sido desenhados até então), Beckum fez um trabalho tão fraco que pode ser considerado um dos piores (senão o pior) desenhista a ter trabalhado numa HQ de Alan Moore. Para melhorar um pouco a situação, as duas histórias seguintes (escritas já para a Eclipse e publicadas na Miracleman n°9 e 10) trouxeram o desenho razoável de Rick Veitch. Mas, desenhos à parte, os roteiros do “Livro II” também têm altos e baixos, não apresentando a mesma força do que havia sido mostrado até então.

Esse segundo volume de Miracleman gira em torno de duas informações apresentadas em capítulos anteriores. Primeiro, que o Doutor Gargunza, ao invés de um vilão fantasioso, foi na verdade o cientista à frente do programa Zaratustra. Segundo, que Liz Moran está grávida, embora o pai da criança não seja seu marido, e sim Miracleman. A história então progride a partir do rapto de Liz por Gargunza, que pretende se apossar do “miraclebaby”. Na companhia de Mr. Cream, Miracleman parte em busca de sua esposa, massacrando os capangas do vilão. Esse é o enredo básico da história e seu lado menos interessante, que serve mais como um pretexto para Moore contar em detalhes a história por trás do projeto Zaratustra. Tudo começa com o nascimento de Gargunza no México em 1910, tem uma passagem pelo Rio de Janeiro dos anos 20 (onde, sabe-se Deus como, o vilão conseguiu um “taco de beisebol” para cometer um assassinato), chegando enfim à Alemanha, onde ele trabalhou num programa de engenharia genética do Terceiro Reich.

Enquanto aguarda o nascimento do “miraclebaby”, Gargunza prossegue na narração de sua história pessoal, tendo como ouvinte uma atenta Liz Moran. Ele conta então sobre como desertou da Alemanha hitlerista e foi acolhido pelo governo inglês, interessado em seus conhecimentos científicos. A seguir, o vilão revela sua motivação em tudo isso, e como seus planos se tornaram possíveis numa noite de 1948, quando “o céu caiu”, ou seja, quando uma nave alienígena caiu no interior da Inglaterra (vale comentar que, em muitos pontos, a série escrita por Moore antecipa em detalhes a trama que seria vista, uma década mais tarde, no seriado Arquivo-X). O que vem a seguir é uma mais detalhada narração de todo o processo (pseudocientífico) envolvido no projeto Zaratustra. Não faltam referências a raptos de órfãos, clonagem, implantes mentais e memórias fantasiosas, tudo relacionado à tecnologia do “infraespaço”. Para completar, um brilhante lance de metalinguagem, no qual Moore explica porque Miracleman teve como modelo o Capitão Marvel.

Conciliando elementos da psicanálise, da história e da ficção científica, a maior parte do “Livro II” trata da ligação de Gargunza com Miracleman, expressa por vezes como a tradicional relação “vilão x herói” (particularmente no ótimo capítulo “The Red King Syndrome”), mas também “criador x criatura” ou mesmo “pai x filho” (não falta sequer uma cena copiada do filme Blade Runner). Já os dois últimos capítulos desse volume (publicados nos números 9 e 10 da revista) trazem um desfecho da história e também uma transição para o volume seguinte. No primeiro deles, testemunhamos o nascimento da “miraclebaby”, numa sequência de parto explícito (mesmo!) que causou enorme comoção e controvérsia quando publicada. O capítulo seguinte intercala cenas domésticas de Liz e Mike Moran às voltas com sua “precoce” filhinha, diálogos mentais de Johnny Bates com seu alter ego Kid Miracleman e a presença de dois agentes alienígenas, que levam à manifestação de mais uma personagem superpoderosa (que só será conhecida no volume seguinte).

Iniciado num momento em que Alan Moore começava sua carreira no mercado norte-americano e já não tinha o melhor dos relacionamentos com seu editor na Warrior, o “Livro II” de Miracleman parece ter sofrido os efeitos de um certo desinteresse de seu principal autor. Além disso, ao ser retomada pela Eclipse após uma interrupção, a série não contou com o elegante traço de Alan Davis, padecendo dos desenhos muito pobres de Chuck Beckum. Mas, apesar dos problemas e deficiências, o segundo volume de Miracleman tem seus méritos e alguns momentos interessantes (talvez seu maior defeito seja ter se estendido mais do que deveria). De qualquer forma, consta que Moore estava tão insatisfeito com o trabalho na série que havia decidido deixar tudo de lado. Felizmente (para os leitores e para a história dos quadrinhos), a definição de que o talentosíssimo John Totleben seria seu parceiro no “Livro III” fez com que o roteirista voltasse atrás. O resultado foi Miracleman: Olympus, a mais brilhante HQ de super-heróis já escrita!

(CONTINUA...)

24/12/2009

O inovador “Livro I” de Marvelman / Miracleman.


Criado por Mick Anglo em 1954, Marvelman foi o primeiro e o mais popular super-herói britânico. Uma cópia mal-disfarçada do Capitão Marvel (Shazam), o personagem também se transformava ao dizer uma “palavra-mágica” e tinha uma “família” de jovens ajudantes. Mas, apesar do enorme sucesso inicial, mudanças nos interesses do público levaram, em 1963, ao cancelamento das revistas da Família Marvelman. O personagem permaneceria em “animação suspensa” por quase duas décadas, até ser resgatado pelo roteirista Alan Moore e o editor Dez Skinn. Relançado em março de 1982, na revista Warrior n°1, Marvelman provaria-se novamente um sucesso, desta vez não entre as crianças, mas entre os leitores adolescentes e alguns profissionais dos quadrinhos. Trazendo uma concepção inovadora para os super-heróis, as histórias originais criadas por Moore ajudariam a transformar esse gênero de quadrinhos (sendo a primeira dentre as várias reformulações racionalistas de antigos heróis a serem lançadas ao longo dos anos 80).

Com o sucesso da nova versão do super-herói, Skinn decidiu lançar Marvelman Special n°1, que trazia basicamente reimpressões de HQs dos anos 50, produzidas pela equipe de Anglo. Mas, devido à utilização do nome do personagem no título da revista, a Marvel Comics (que se considera dona da palavra marvel no ramo dos quadrinhos) interferiu judicialmente. É interessante notar que o nome Marvelman (surgido em 1954 na revista que lançou o personagem) antecede a utilização do nome Marvel Comics, o que tornaria infundadas as alegações da editora norte-americana (não fosse seu maior poderio econômico). O fato é que a disputa judicial dificultou a continuação da série, causando também desavenças entre Skinn e Moore, o que resultou na suspensão de Marvelman no número 21 da Warrior (que, sem seu personagem mais popular, chegou ao fim no número 26, em janeiro de 1985). Aquele, contudo, não seria o fim de Marvelman, que logo retornaria num outro formato e com um novo nome.

Desde o início, uma das intenções de Skinn era negociar com editoras norte-americanas reedições das séries publicadas na Warrior. Com o prestígio que a revista havia alcançado entre alguns leitores e profissionais dos quadrinhos nos Estados Unidos, o editor via ali a oportunidade de entrar num mercado muito maior e mais rentável. É claro que as HQs saídas da Warrior teriam que ser reduzidas do formato magazine para o comic book e ganhariam cores, tendo seus capítulos de cinco a oito páginas agrupados em revistas de vinte a trinta páginas. A mudança mais significativa, porém, seria a sofrida exatamente pelo personagem Marvelman, que (para evitar problemas com a Marvel Comics em seu próprio país) acabaria sendo rebatizado como Miracleman (nome que, por ironia do destino, havia aparecido pela primeira vez justamente numa revista da sucursal britânica da Marvel, numa cena em que um assassino de super-heróis interdimensional fulmina um herói com as feições de Marvelman, mas que ali é denominado “Miracleman”).

O acordo feito entre o editor inglês e a norte-americana Eclipse Comics permitia a republicação dos capítulos de Marvelman lançados na Warrior e previa a retomada da série do ponto em que havia sido interrompida. Foi assim que, em meados de 1985, chegou às lojas dos Estados Unidos a primeira edição de Miracleman, que somaria um total de dezesseis números escritos por Moore, reunidos mais tarde em três coletâneas (que serviram de base para a análise que faço aqui). A série começa com “Um sonho de voar”, no qual um inglês de meia-idade chamado Mike Moran se vê mais jovem, voando na companhia de outros dois super-heróis, todos prestes a pousar numa estranha nave. O que se segue é uma explosão atômica, da qual aparentemente apenas Moran (Miracleman) teria saído com vida, para despertar desse pesadelo, ao lado de sua esposa, Liz. Apesar de uma terrível dor de cabeça, ele tem que levantar e sair para cobrir um protesto antinuclear numa usina atômica. O fato é que, a partir daí, sua vida jamais será a mesma.

Desenhado pelo meticuloso Garry Leach, o primeiro capítulo de Miracleman já mostra alguns elementos da concepção mais racionalista dos super-heróis proposta por Moore. Partindo de situações mundanas, trazendo uma ambientação cotidiana e ancorada em fatos da realidade da época, a HQ apresenta um acontecimento plausível que serve de pretexto para o esquecido herói redescobrir seus poderes. Em meio a um ataque de terroristas, Moran é arrastado semiconsciente e, ao passar por uma porta de vidro, vê a inscrição invertida “cimota”. Essa é a chave para seu passado como super-herói, pois ao pronunciar a palavra-mágica “Kimota” ele se transforma, pela primeira vez após muitos anos, em Miracleman. Imune a balas e superpoderoso, o herói não demora a derrotar os terroristas. Porém, mais que um retorno triunfante, as oito páginas dessa reestreia são exemplo da genialidade de seu roteirista, anunciando a técnica desconstrutivista que Moore utilizaria na série (e em trabalhos posteriores, como Swamp Thing e Watchmen).

Em 1954, na sua criação de Marvelman a partir do Capitão Marvel, Mick Anglo manteve a ideia de uma palavra-mágica, substituindo a popular e mística “Shazam” pela moderna e científica “Kimota”. Sendo esta uma corruptela da palavra atomic, ao situar seu primeiro roteiro numa usina atômica, Moore evidenciou de forma crítica as ligações do personagem com o imaginário da época em que foi criado (lembrando que nos anos 50 a energia atômica era um símbolo relativamente positivo, estando relacionado à origem e aos poderes de vários personagens). E a ligação entre o herói britânico e seu modelo norte-americano voltou a ser exposta no segundo capítulo, quando Miracleman se apresenta a Liz e lhe conta como ele recebeu seus poderes do mago astrofísico Guntag Barghelt (inspirado no venerável mago Shazam), fala de seus amigos Young Miracleman e Kid Miracleman (copiados do Capitão Marvel Jr. e da Mary Marvel) e também de seus inimigos, como o gênio do crime Doutor Gargunza (inspirado no inigualável vilão Doutor Silvana).

Aqui, Moore deixa claro que tinha em mente mais que uma boa história, e sim toda uma concepção inovadora. Afinal, ao ouvir a história narrada pelo alter ego de seu marido, Liz não consegue conter o riso, expondo o caráter fantasioso e ingênuo das HQs de super-heróis tradicionais, em contraposição ao que seria o “mundo real” em que ela vive (que é na verdade uma parte da concepção trazida pela história da qual ela faz parte). As fronteiras entre as memórias fantasiosas de Miracleman e a realidade crua do mundo de Moran tornam-se mais nítidas quando entra em cena Johnny Bates, o antigo Kid Miracleman, que não morreu e acabou se tornando um milionário inescrupuloso. Então, o que vemos nos capítulos 3, 4 e 5 é a evolução de um encontro amistoso, que leva a um questionamento mútuo e explode num conflito titânico. Nele, referências à poesia de William Blake, uma prosa de ressonância wagneriana e alusões a tigres, dragões, anjos, monstros e tempestades dão o tom de uma das melhores sequências de luta já feitas num quadrinho de super-heróis!

Primorosa em seus roteiros e textos, a série não fica para trás em termos de desenho, ganhando em dinamismo quando Garry Leach foi substituído por Alan Davis, na passagem do terceiro para o quarto capítulo. (Não posso deixar de observar, contudo, uma pequena contradição na lógica interna da história, segundo a qual Mike Moran e Miracleman possuem corpos distintos, que trocam de lugar quando pronunciam a palavra “Kimota”; assim, enquanto uma identidade habita o “mundo real”, a outra é transferida para uma dimensão de animação suspensa, intitulada “infraespaço”. Após sua luta com Bates, Miracleman fica bastante ferido e, segundo lemos num balão, Moran deixou sua identidade de herói de lado por dois meses; mas, ao dizer novamente a palavra “Kimota”, Miracleman reaparece quase completamente recuperado dos ferimentos. A contradição está no fato de que, segundo a própria história, o “infraespaço” é uma dimensão fora do tempo e, portanto, não poderia haver qualquer recuperação nos ferimentos de Miracleman.)

Um envolvimento governamental na origem de Miracleman é sugerido nos capítulos 5 e 6. Com isso, em meio a uma trama mais complexa, o sétimo, oitavo e nono capítulos intercalam ação e conspiração, apresentando uma misteriosa agência governamental (Spook Show), um dúbio assassino de aluguel (Mr. Cream) e um abobado “super-herói” (Big Ben). Tudo culmina no capítulo 10, “Zarathustra”, em que Moore revela a conspiração envolvendo a criação da Família Miracleman. O título do capitulo vem de Assim falava Zaratustra de Friedrich Nietzsche, que traz a ideia de um “super-homem” (ou “além-do-homem”), que teria inspirado o governo britânico a criar seres superpoderosos, utilizando a tecnologia de uma nave alienígena caída na Terra. Em resumo, conciliando filosofia, literatura e realidade cotidiana, misturando características de séries de espionagem, ficção científica e super-heróis, por sua qualidade e originalidade, o “Livro I” de Miracleman tornou-se um marco dos quadrinhos e uma das HQs mais influentes das últimas décadas.

(CONTINUA...)

08/12/2009

O sombrio Homem Animal de Jamie Delano.


Jamie Delano foi o primeiro dos roteiristas britânicos a ser contratado pela DC Comics no rastro do sucesso de Alan Moore com a revista Swamp Thing. Não por acaso, sua estreia na editora foi com a série Hellblazer, estrelada pelo mago John Constantine, criado nas HQs do Monstro do Pântano por seu predecessor e conterrâneo. E mais do que o trabalho de Moore, foram as histórias de Delano que definiram o caráter e a biografia do cínico ocultista londrino. Ficando à frente de Hellblazer entre 1988 e 1991, o roteirista inglês alcançou bastante sucesso, contribuindo com um dos três pilares principais do que viria a ser o selo Vertigo (sendo os outros dois a própria Swamp Thing de Alan Moore e The Sandman de Neil Gaiman). Mas Delano ainda traria outra contribuição à linha de “quadrinhos adultos” da DC, ao assumir em 1992 a série Animal Man, à qual imprimiu um tom mais metafísico e sombrio.

Um personagem de terceiro escalão na galeria dos heróis DC, o Homem Animal ganhou relevância em 1988, ao ser reformulado por Grant Morrison. Responsável pela Animal Man n°1 ao 26 e pela edição com a “Origem Secreta” do herói, o roteirista escocês criou uma série inteligente, repleta de elementos metalinguísticos e que, em parte, celebra os quadrinhos de super-heróis mais ingênuos da chamada “Era de Prata”. Tornando difusas as barreiras entre realidade e ficção, incorporando temáticas filosóficas e metaficcionais, a fase de Morrison à frente da revista influenciaria as histórias do Homem Animal nos anos seguintes. Mas, apesar do interessante trabalho feito por seu sucessor imediato, o irlandês Peter Milligan, nas mãos do norte-americano Tom Veitch a série perdeu força e leitores. Era preciso dar-lhe um novo direcionamento. E esse novo rumo veio em meados de 1992, quando Jamie Delano trocou as páginas da Hellblazer pelas da Animal Man.

Já na primeira edição, o novo tom sombrio fica evidente, afastando a série da influência de Morrison e aproximando-a das concepções metafísicas da Swamp Thing de Moore. Trazendo o primeiro capítulo de “Carne e Sangue”, Animal Man n°51 começa com o Homem Animal vivendo numa fazenda do interior dos Estados Unidos, na companhia de sua esposa Ellen e de sua filha Maxine, enquanto seu filho Cliff fora morar com um estranho tio-avô em São Francisco. Uma noite de amor ao luar, um pesadelo infantil premonitório e o atropelamento de um cão dão o tom da história e antecipam o que virá pela frente. Para completar, o texto de Delano reforça sensações físicas, remetendo à “carne e sangue” do título. As coisas começam a complicar quando o Homem Animal parte em busca de seu filho. O resultado é catastrófico, pois além de não se reencontrar com Cliff, o herói acaba atropelado e estraçalhado pelo trailer do psicótico Tio Dudley.

Além da influência estilística presente desde o início, começam a surgir aí várias semelhanças com a Swamp Thing. Afinal, em sua primeira HQ para aquela série, Moore “matou” o Monstro do Pântano, limpando o terreno para as mudanças que introduziria a partir da edição seguinte. E é exatamente o que Delano fez em sua edição de estreia na Animal Man, que abre espaço para o surgimento do “Vermelho”, dimensão metafísica animal, similar ao “Verde” que vemos nas histórias do Monstro do Pântano. E se no segundo roteiro de Moore para a Swamp Thing temos uma autópsia do herói vegetal, em sua segunda edição com o Homem Animal, Delano nos mostra o cadáver de Buddy Baker cambaleando por um necrotério. E da mesma forma que seu predecessor, o herói também tem que passar por um processo de renascimento nas edições seguintes (no seu caso partindo de um piolho e depois uma libélula, até ressurgir de um ovo, numa forma híbrida).

Apesar dos diversos pontos em comum e da inegável influência das histórias de Alan Moore para a Swamp Thing, o trabalho de Jamie Delano tem alma e qualidade próprias. Com ótimos textos e concepções interessantes, o roteirista deu uma guinada na série Animal Man, direcionando-a para o lado do terror (e distanciando-a das discussões envolvendo o gênero super-heróis que caracterizaram a fase de Grant Morrison). Para isso, contribuíram enormemente os desenhos de Steve Pugh, com sua abordagem cotidiana e sua carga de sombras. O único ponto artístico em comum com o passado são as fantásticas capas ilustradas por Brian Bolland, que mais uma vez acrescentaram força às histórias. Mas até mesmo essa ligação duraria pouco, uma vez que Bolland deixou o título após a conclusão de “Carne e Sangue”. O fato é que, a partir da Animal Man n°57, a revista em sua nova fase sombria e metafísica passava a integrar o selo Vertigo, que era então lançado pela DC.

Provas da ampla e duradoura influência das HQs de Alan Moore para a Swamp Thing, as primeiras histórias de Jamie Delano para a Animal Man têm qualidade própria, reforçada pelas capas de Brian Bolland e os desenhos de Steve Pugh. Essas marcantes histórias inauguraram uma nova fase do Homem Animal e o levaram a integrar o selo Vertigo, mas não tiveram reedições nos Estados Unidos, permanecendo inéditas no Brasil.

23/07/2009

Um artista brilhante de capa a capa: uma entrevista com Brian Bolland, parte2.


Segunda parte de nossa entrevista exclusiva e Brian Bolland fala sobre a obra-prima dos quadrinhos de super-heróis A Piada Mortal (atualmente disponível no Brasil em reedição de luxo pela Panini). Ele também nos conta como foi trabalhar com Alan Moore nessa marcante graphic novel, fala sobre quadrinhos “sombrios & violentos” e censura editorial.

Wellington Srbek: A idéia inicial para uma história especial com o Batman e o Coringa foi sua e foi também o senhor que sugeriu o nome de Alan Moore para roteirista do que veio a ser A Piada Mortal. Como foi trabalhar com Alan Moore nesta marcante graphic novel?

Brian Bolland: A primeira metade de sua pergunta está correta. Após Camelot eu estava na posição de escolher o que gostaria de fazer para a DC. Alan Moore, Kevin O'Neill, Dave Gibbons, Mick McMahon, etc. eram todos amigos meus dos tempos da 2000 AD. Alan e eu tínhamos alguns projetos que nós quase produzimos juntos, entre os quais estava uma revista Batman / Juiz Dredd. Alan e Dave tinham acabado de obter um grande sucesso com Watchmen. Eu era fascinado com o Coringa. Eu tinha visto o filme da década de 1920 O Homem que Ri [brilhantemente encarnado pelo ator alemão Conrad Veidt], do qual, dizem, Jerry Robinson tirou a idéia. Alan me perguntou que tipo de coisa eu gostaria de desenhar.
Naqueles tempos (e ainda hoje para mim, na verdade) o negócio de escrever quadrinhos e o de desenhar quadrinhos são completamente separados. O roteirista se senta em casa e escreve. O roteiro é enviado ao desenhista que o desenhará; e um não interfere no processo do outro. Foi assim com A Piada Mortal. Então, se me pergunta “como foi trabalhar com Alan?”, minha resposta é: eu pedi a Alan que a escrevesse. Ele a escreveu. Eu a desenhei.

WS: A Piada Mortal foi um quadrinho do Batman como nenhum outro antes. Foi também a história de origem do Coringa contada pela primeira vez. Foi realisticamente violenta e insana, sendo em parte responsável pela tendência dos quadrinhos “sombrios e violentos” que predominaram nas revistas de super-heróis no fim dos anos 80 e início dos 90. Mas, a despeito de toda a violência e das cenas terríveis, A Piada Mortal tem um dos desenhos mais belos e detalhados já feitos para o Batman. Quais são seus sentimentos em relação a essa incrível HQ?

BB: Quando o roteiro chegou, ele de fato continha coisas que ele não teria se eu o tivesse escrito. Eu pessoalmente jamais contaria uma história de origem do Coringa, por exemplo. Mas olhando para ela mais tarde, eu agora vejo que as partes que eu não teria incluído parecem bastante icônicas hoje. Eu às vezes penso que nós artistas britânicos que trabalhamos na 2000 AD trouxemos o caráter “sombrio & violento” conosco, quando fomos trabalhar para a DC.

WS: A primeira edição brasileira de Camelot 3000 teve uma cena de Tristan e Isolda censurada pelos editores daqui. E me parece que os editores da DC fizeram algo semelhante numa das páginas de A Piada Mortal, substituindo (ou te pedindo para substituir) os seios nus de Bárbara Gordon por um close do rosto dela. O senhor já teve algum problema com censura editorial?

BB: Eu nunca tive PROBLEMAS com censura editorial. Alguém na DC deve ter falado algo sobre aquela cena da Bárbara Gordon. Eu mudei aquele único quadro e acho que a melhorei. Eu sou ciente de todos os tipos de coisas que você não pode colocar numa capa. Nudez está fora de questão. Eu uma vez desenhei uma capa com o Robin que tinha umas estátuas gregas no fundo, que eu copiei de fotos. Entre as estátuas havia cinco mamilos visíveis. Todos foram apagados! Eu uma vez desenhei uma capa que tinha o Batman fumando um charuto. Bem, era o Hugo Strange com barba, vestido como Batman fumando um charuto. Não pude fazê-la. Talvez eles a tenham rejeitado em favor de uma idéia melhor, mas eu considero que existem várias regras não escritas que você não pode violar, e o Batman não pode ser visto fumando. E há questões legais. Eu uma vez desenhei uma capa do Batman que tinha o que parecia ser um membro da Ku Klux Klan montado num cavalo. Tivemos que acrescentar um logo no peito dele para mostrar que ele pertencia a alguma outra organização branca supremacista, pois a Ku Klux Klan tem advogados que poderiam processar!
Em agosto de 2009 vou viajar para uma convenção em Singapura. Para a ocasião, estamos imprimindo um livro contendo alguns dos meus esboços a lápis. Acabou que, infelizmente, vários dos desenhos, incluindo meus esboços favoritos da Tank Girl, não podem ser incluídos devido à postura muito conservadora das autoridades daquele país. Eu acredito que meus livros Bolland Strips! e The Art of Brian Bolland não estarão à venda lá pelo mesmo motivo.

WS: Depois de ter nos dado a versão definitiva do Coringa em A Piada Mortal, nós não vimos muitas outras histórias desenhadas pelo senhor. Quais são as razões para isso?

BB: Bem, após A Piada Mortal, muitos trabalhos me foram oferecidos. Tive que recusar muitos deles, mas as pessoas diziam “se você fizesse ao menos a capa...”. Produzir capas significa que, apenas daquela única vez, eu posso desenhar um monte de personagens que de outra maneira eu não desenharia. No verão de 1988, eu saí no que pensei que seria uma longa viagem pelo Oriente, então eu não estava disponível para compromissos de trabalho de longo prazo. Além disso, tendo trabalhado com o melhor roteirista e tendo me sido dado tanto tempo quanto eu quisesse para desenhar e eu mesmo arte-finalizar [A Piada Mortal], eu não queria dar um passo para trás. Desde Alan, eu não desenhei uma história significativa escrita por outro roteirista. Exceto por MIM. Eu de fato escrevi e desenhei "An Innocent guy" em Batman Black & White, "The Kapas" em Strange Adventures e "The Princess & the Frog" em (como era o nome?) True Romance. Além de Mr. Mamoulian e The Actress & the Bishop. Mas falaremos deles mais tarde.

A seguir: Animal Man, The Invisibles, fantásticas capas, quadrinhos cômicos, mulheres belíssimas e muito mais!

21/07/2009

A brilliant artist from cover to cover: an interview with Brian Bolland, part2.


Part2 of our exclusive interview, and Brian Bolland talks about the comics masterpiece The Killing Joke, how it was to work with Alan Moore on this groundbreaking graphic novel, and also “grim & gritty” comics and editorial censorship.

Wellington Srbek: The original idea for a Batman and Joker special story was yours, and it was also you who suggested the name of Alan Moore as the writer for what came to be The Killing Joke. So, how it was to work with Mr. Moore on this groundbreaking graphic novel?

Brian Bolland: The first half of your question is correct. After Camelot I was in a position to do whatever I wanted for DC. Alan Moore, Kevin O'Neill, Dave Gibbons, Mick McMahon, etc. were all friends from the 2000 AD days. Alan and I had a couple of projects that we nearly worked on together, one of which was a Batman / Judge Dredd book. So I'd already seen parts of a script by him containing Batman. Alan and Dave had just had a big hit with Watchmen. I was fascinated by the Joker. I'd seen the 1920s film The Man Who Laughs from which, they say, Jerry Robinson got the idea. Alan asked me what sort of thing I wanted to draw.
Back in those days (and still today for me, actually) the business of writing comics and drawing comics were completely separate. The writer sat at home writing. The script was sent to the artist who would draw it - and neither would interfere with the other's process. That's the way it was with The Killing Joke. So if you ask "how was it to work with Alan?" my answer is: I asked Alan to write it. He wrote it. I drew it.

WS: The Killing Joke was a Batman comic like no other before. It was the Joker origin story told for the first time. It was realistically violent and insane, and it was in part responsible for the “grim & gritty” trend that dominated super-hero comics in the late 80s early 90s. But despite all the violence and terrible scenes, The Killing Joke has the most beautiful and detailed Batman artwork. What are your feelings about this amazing book?

BB: When the script came it did contain things that I wouldn't have had in it if I'd written it. I personally would never have told a Joker origin for instance. But looking at it later I can now see that the bits I wouldn't have included look pretty iconic today. I sometimes think that us artists from Britain who'd been in 2000 AD brought the "Grim & Gritty" with us when we went to work for DC.

WS: The first Brazilian edition of Camelot 3000 had a Tristan and Isolde scene censored by the editors here. And it seems that the DC editors did something like that to one of The Killing Joke pages, replacing (or asking you to replace) the naked breasts of Barbara Gordon by a close-up of her face. Have you ever had any problems with editorial censorship?

BB: I've never had PROBLEMS with editorial censorship. Somebody at DC must have mentioned that Barbara Gordon scene. I changed the one panel and I thought it improved it. I'm aware of all kinds of things you can't put on a cover. Nudity is out. I once drew a Robin cover that had some Greek statues in the background that I copied from photos. Between them the statues had five visible nipples. All were whited out! I once drew a Batman cover that had Batman smoking a cigar. Well, it was Hugo Strange with beard, dressed as Batman smoking a cigar. I couldn't do it. Maybe they rejected it in favor of another idea but I assume there are various unwritten rules that you can't cross and Batman cannot be seen smoking. And there are legal issues. I once drew a Batman cover that had what appeared to be a member of the Ku Klux Klan sitting on a horse. We had to add a logo on his chest to show that he belonged to some other white supremacist organization because the Ku Klux Klan have lawyers who might sue!
In August 2009 I'm off to a convention in Singapore. For the occasion we're printing a book containing some of my penciled prelim roughs. It turns out, unfortunately, that quite a few of the drawings, including my favorite Tank Girl roughs, can't be included because of the very conservative stance of the authorities in that country. I assume my books Bolland Strips! and The Art of Brian Bolland won't be on sale there for the same reason.

WS: After giving us the definitive Joker in The Killing Joke, we haven’t seen many stories drawn by you. What are the reasons for this?

BB: Well, after The Killing Joke, I had a lot of work offered to me. I had to turn much of it down but people would say "Could you just do the cover." Doing covers meant that, just that one time, I could draw a whole lot of characters that I wouldn't otherwise draw. In summer 1988 I went off on what I thought would be a long trip round the Far East so I wasn't able to commit to long term work. Also, Having worked with the best writer and having been given as much time as I wanted to pencil and ink myself I didn't want to take a backward step. Since Alan I haven't drawn a significant story by any other writer. Except for ME. I did write and draw "An Innocent guy" in Batman Black & White, "The Kapas" in Strange Adventures and "The Princess & the Frog" in (was it called?) True Romance. Also Mr. Mamoulian and The Actress & the Bishop. But more on that later.

Next: Animal Man, The Invisibles, beautiful covers, funny strips, gorgeous women, and a lot more!

15/07/2009

A Liga Extraordinária chega ao século 20.


Numa co-edição da Top Shelf Productions com a Knockabout Comics, foi lançado recentemente o primeiro número do Volume III de A Liga Extraordinária, com roteiro de Alan Moore e desenhos de Kevin O’Neill, cores por Ben Dimagmaliw e letras por Todd Klein. Intitulada The League Of Extraordinary Gentlemen - Century: 1910, a HQ mostra uma nova formação do grupo de heróis literários, dessa vez às voltas com um misterioso complô ocultista que parece planejar o fim do mundo. Ainda contando com Mina Murray e Allan Quatermain, a Liga do século 20 traz três novas figuras literárias: Orlando o homem / mulher imortal, o sensitivo Thomas Carnacki e o ladrão Anthony Raffles. Como aconteceu antes, a nova minissérie inclui uma narrativa ilustrada paralela, “Minions of the Moon” (que avança na cronologia do grupo e liga o novo capítulo a The Black Dossier).

Segundo a sinopse dos editores, esta primeira edição “tem como cenário a Londres de 1910, doze anos após a malfadada invasão marciana e nove anos desde que a Inglaterra colocou um homem na lua. Nas entranhas do Museu Britânico, o caçador de fantasmas Carnacki é acossado por visões de uma sombria ordem ocultista que tenta criar algo chamado a “Criança Lunar”; enquanto isso, nas docas de Londres, o mais notório assassino em série do século anterior retorna para continuar seus horrendos atos. Trabalhando para a Inteligência britânica de Mycroft Holmes, ao lado de um rejuvenescido Allan Quatermain, do ladrão reformado Anthony Raffles e do guerreiro eterno Orlando, a Senhorita Murray é atirada a uma opera brutal encenada no cais por um elenco que inclui a enraivecida Pirata Jenny e o carismático carniceiro conhecido como Mac a Faca”.

Com a morte do Homem Invisível e de Mr. Hyde no Volume II, o último membro remanescente da Liga vitoriana (além da imortal Mina e do rejuvenescido Allan) é o Capitão Nemo, que faz em Century: 1910 uma breve e derradeira participação (com falas numa escrita hindu, não traduzidas). Sherlock Holmes e Próspero são apenas citados, mas o elenco literário da HQ traz ainda o marinheiro Ismael e alguns personagens saídos de A Ópera dos Três Vinténs de Bertold Brecht. Neste caso, mais que somente tomar emprestado os personagens, Moore imitou a estrutura lírica e a temática social da peça brechtiana. Boa parte da história se passa num porto povoado de vagabundos, ladrões, vendedores ambulantes e prostitutas. Bebida e sexo (por vezes quase explícito) dão o tom das cenas, enquanto seios transbordam de decotes e a violência se torna bastante explícita. Crimes e miséria mostram-se então os sintomas de um quadro social mais amplo: a degradação e a exploração humana que Moore (brechtianamente) denuncia em sua história.

Ao lado dos empréstimos intertextuais, a interface dos quadrinhos com outras linguagens esteve presente desde os primeiros volumes de A Liga Extraordinária, chegando a ser o elemento principal em The Black Dossier (impresso em diferentes formatos, tipos de papel e formas narrativas). Já em Century: 1910, a utilização de elementos de outras linguagens fica contida ao formato da página de quadrinhos. Esta, por sua vez, segue o padrão mais regular que Moore empregou nos primeiros volumes da série. Sem alienígenas ou personagens mais fantásticos, o novo capítulo da Liga traz em geral desenhos menos impressionantes que os vistos antes, exceto talvez por uma página dupla com um ataque do Nautilus versão século 20 (o fato é que desde seus primeiros trabalhos para a 2000 AD, O’Neill sempre foi um artista que se destacou em HQs com bastante pirotecnia e personagens titânicos). As cores ajudam no clima de época e nos cenários decadentes, embora por vezes sejam excessivamente escuras para o traço fino do desenhista.

The League Of Extraordinary Gentlemen - Century: 1910 proporciona uma boa leitura, de diálogos inteligentes e um ou dois momentos muito interessantes. Esse primeiro capítulo não traz, porém, Alan Moore e Kevin O’Neill em sua melhor forma, ou mesmo o melhor que já tivemos em A Liga Extraordinária. Mas isso não significa que essa primeira parte do Volume III seja um trabalho ruim (sendo de longe bem superior às HQs publicadas pelas grandes editoras norte-americanas). Com os problemas e desentendimentos envolvendo as adaptações de seus quadrinhos para o cinema e após a conclusão das séries regulares para a Linha ABC, Moore alardeou sua “aposentadoria” dos quadrinhos (para grandes editoras). Mas, quase ao mesmo tempo, o roteirista inglês chegou à conclusão de que a idéia intertextual e a base metalinguística de A Liga Extraordinária poderiam render muitas histórias, abarcando toda a ficção humana, das narrativas antigas aos tempos atuais. Resta-nos, portanto, aguardar pelos próximos capítulos desse verdadeiro épico ficcional.

The League Of Extraordinary Gentlemen: Volume III será publicado inicialmente como uma minissérie em três edições de 80 páginas cada, cujos capítulos posteriores acontecerão em 1968 e 2009 (com previsão de lançamento apenas para 2010). Para quem quiser dar uma conferida nas primeiras páginas de Century: 1910, os editores disponibilizaram uma pequena prévia.

12/07/2009

A Liga Extraordinária de Alan Moore e Kevin O’Neill.


Lançada em 1999 pelo selo Wildstorm da DC Comics, a Linha ABC apresentou novas séries e personagens criados por Alan Moore. Ao lado das revistas regulares Tom Strong, Promethea, Tomorrow Stories e Top Ten, a nova linha de quadrinhos trouxe uma criação à parte: The League of Extraordinary Gentlemen. Publicada como uma minissérie em seis edições, a nova HQ desenhada por Kevin O’Neill trazia uma espécie de “Liga da Justiça da Era Vitoriana”. Um testemunho da genialidade de Alan Moore, a idéia básica para A Liga Extraordinária é incrivelmente simples: substituir os super-heróis tradicionais por personagens saídos da literatura fantástica de fins do século 19.

As raízes para a criação de A Liga Extraordinária estendem-se pelo menos até 1989, quando Moore começou a produzir duas séries para a antologia Taboo de Steve Bissette: From Hell e Lost Girls (ambas concluídas recentemente). Tratando-se de dois dos trabalhos mais extensos e complexos já feitos pelo roteirista inglês, essas HQs certamente demandaram uma grande pesquisa contextual. Ambientadas entre as décadas de 1880 e 1910, a primeira série mostra os assassinatos cometidos por Jack o estripador, enquanto a outra traz aventuras eróticas com as personagens literárias Alice, Doroty e Wendy. Não fica difícil imaginar que toda a pesquisa para From Hell e algumas das idéias de Lost Girls tenham influenciado a criação de A Liga Extraordinária.

A Liga reunida por Moore e O”Neill tinha como integrantes Mina Murray (de Drácula), Allan Quatermain (de As Minas do Rei Salomão), Capitão Nemo (de 20.000 Léguas Submarinas), o Homem Invisível (do livro homônimo), Doutor Jeckyll e Mr. Hyde (de O Médico e o Monstro). A HQ contou ainda com participações especiais e pequenas aparições, como no caso de Sherlock Holmes e Professor Moriarty (saídos das histórias de mistério do detetive mais famoso do mundo). Completavam ainda as revistas um texto ilustrado, protagonizado por Allan Quatermain e outras personagens literárias. Misturando citações e explosões, pesquisa e intriga, a minissérie fez sucesso, merecendo uma continuação (já enunciada em sua última página).

Entre meados de 2002 e 2003, foram publicados os seis números de The League of Extraordinary Gentlemen: Volume II. Dessa vez, no lugar de maquiavélicos vilões e terríveis chineses, a ameaça foram maquiavélicos e terríveis marcianos (saídos das páginas de A Guerra dos Mundos). Novamente, capítulos de um texto ilustrado completaram as edições da minissérie. Uma obra-prima dos quadrinhos de aventura fantástica, a segunda aventura da Liga Extraordinária foi ainda melhor que a anterior, sendo uma mistura perfeita de ação e conteúdo literário (além de uma das melhores adaptações já feitas para o clássico de H.G. Wells). Ao final da história, porém, entre mortos e feridos nem todos se salvaram e a própria Liga saiu praticamente desmantelada.

Mas nada de tão ruim poderia ocorrer à liga de heróis reunida por Moore e O’Neill do que uma horrorosa versão hollywoodiana! Uma das piores adaptações de quadrinhos já feitas para o cinema, o filme estrelado por Sean Connery rendeu ainda chateações judiciais para Moore, acusado de criar sua HQ para acobertar o suposto plágio de um roteiro de cinema (episódio que motivou o rompimento do roteirista com a DC Comics e sua exigência de total desassociação das produções cinematográficas que se façam a partir de suas criações). Ganhando reedições encadernadas e também publicações luxuosas em absolute edition, os dois primeiros volumes de A Liga Extraordinária são partes complementares de uma história maior: as aventuras da formação vitoriana do grupo.

Como descobrimos já nas primeiras edições, no passado houve outras formações da Liga, que remontaria aos tempos de William Shakespeare (o mago Próspero seria o responsável pela fundação do grupo). Além disso, como se descobre nas edições mais recentes (The Black Dossier e Century: 1910), houve outras formações da Liga após os desastrosos eventos da invasão alienígena de 1898. Segundo declarou Moore, as aventuras do grupo e de seus personagens poderão ser contadas ainda por muitos anos, potencialmente abarcando todo o universo ficcional. Mas mesmo desconsiderando os lançamentos mais recentes e os que venham futuramente, os dois primeiros volumes de A Liga Extraordinária já merecem um lugar na história dos quadrinhos e da literatura!

10/06/2009

O saudoso Homem Animal de Grant Morrison.


O Homem Animal costumava ser um super-herói de terceiro escalão, sem grande importância ou popularidade. Mas, em meados de 1988, isso mudou completamente! Com o enorme sucesso e a ótima repercussão das histórias do Monstro do Pântano escritas por Alan Moore, a DC Comics saiu literalmente à caça de novos roteiristas britânicos que repetissem o feito. Assim, o que ficou conhecido como “a invasão britânica” incluiu nomes como Jamie Delano, Neil Gaiman e, é claro, Grant Morrison, o principal responsável por resgatar o Homem Animal do “Limbo dos Quadrinhos”.

O controvertido roteirista escocês pretendia apresentar à DC apenas a proposta de uma graphic novel do Batman (que se tornaria Asilo Arkham), mas os editores queriam algo mais. Assim, no trem para Londres, Morrison elaborou a proposta para uma minissérie com o esquecido super-herói de estranhos poderes animais. O projeto foi aceito e Morrison elaborou sua minissérie nos moldes do trabalho de Alan Moore para a revista Swamp Thing. Os editores gostaram tanto do trabalho, que propuseram a ele que transformasse o projeto da minissérie numa revista mensal.

Morrison teria então entrado em pânico, pois não fazia idéia do que fazer numa série mensal e não desejava continuar imitando o estilo de Moore. A resposta encontrada foi “O Evangelho do Coiote”, uma das mais inspiradas HQs de super-heróis já produzidas. Lançada na revista Animal Man n°5, a história mostra o encontro do personagem-título com um similar do coiote dos desenhos animados da Warner, numa narrativa repleta de metalinguagem e elementos da simbologia cristã. Marcante e inovadora, aquela edição estabeleceu a temática e o tom das vinte e uma edições seguintes e da Secret Origin do personagem.

Ao longo da série, Morrison resgatou personagens esquecidos, desenvolveu o tema dos direitos dos animais e mergulhou na metalinguagem. O resultado foram HQs inteligentes, conscientes e inovadoras. Quadrinhos de super-heróis nos quais o próprio gênero super-herói se torna um tema em discussão. Uma narrativa “metaficcional” na qual o protagonista se volta para o leitor e diz: “Eu posso ver você!”. Não faltando ainda um ato final no qual criador e criatura, Homem Animal e Grant Morrison, encontram-se para debater o sentido da vida. Em resumo, um trabalho realmente imperdível!

Os desenhos da série, quase sempre produzidos por Chas Truog e Doug Hazlewood, não eram os melhores do mundo, mas davam conta do recado (combinando inclusive com a estética da “Era de Prata” que a revista valorizava). Além disso, em se tratando do visual, Animal Man tinha um trunfo imbatível: as fantásticas capas produzidas por Brian Bolland (que podem ser conferidas em sequência no saite Cover Browser). Interpretando ou sintetizando os temas de cada edição, alguns dos trabalhos do ilustrador inglês são bastante engenhosos e realmente memoráveis. Bolland é também o capista da recém-lançada Last Days of Animal Man (assunto da próxima postagem).

Por seu caráter original e inovador, as vinte e sete histórias do Homem Animal produzidas por Grant Morrison & Cia. entraram para a história dos quadrinhos norte-americanos. Publicada há mais de vinte anos, esta série é prova de que com talento e inteligência até mesmo o mais idiota dos super-heróis pode se tornar um personagem interessante e relevante. Afinal, ao lado de Swamp Thing, Hellblazer e Sandman, a revista Animal Man foi uma das bases para a criação do selo Vertigo. Publicada no Brasil pelas editoras Abril e Brainstore, essa saudosa série merece uma reedição à altura!

21/04/2009

In Pictopia, uma pequena jóia de Alan Moore & Cia.


O roteirista inglês Alan Moore consagrou-se nos anos 80 por seu trabalho em séries e histórias extensas, a maior parte delas com algumas centenas de páginas. Por sua qualidade e originalidade, trabalhos como Miracleman e Watchmen revolucionaram e transformaram os quadrinhos de super-heróis, tornando-se clássicos imperdíveis. Enquanto se dedicava a esses verdadeiros monumentos do gênero, Moore também produziu histórias curtas para coletâneas e revistas de antologias. A melhor delas é provavelmente “In Pictopia!”, uma pequena jóia de treze páginas que usa a metalinguagem para falar de perda da identidade, decadência qualitativa e desvalorização do passado. Tudo isso com direito a um visual expressivo e doses equilibradas de nostalgia e emotividade.

“In Pictopia!” foi publicada em dezembro de 1986 no número 2 de Anything Goes! (revista lançada pelo editor Garry Groth com o objetivo de angariar fundos para as despesas de um processo judicial sofrido pelo The Comics Journal). Trazendo uma capa de Frank Miller, três ilustrações inéditas de Jack Kirby, HQs curtas de Jayme Hernandez e Sam Kieth, entre outros trabalhos, a antologia tinha como destaque principal a história escrita por Moore. Inicialmente, o roteirista havia se oferecido para produzir duas histórias de quatro páginas, que acabaram substituídas por um roteiro de oito páginas intitulado “Fictopia”. Ao chegar às mãos do desenhista Donald Simpson, o roteiro acabou sendo estendido para treze páginas e rebatizado como “In Pictopia!” (ao que consta, Moore concordou com essas alterações, que de fato levaram a um melhor resultado). O trabalho contou ainda com a participação dos desenhistas Peter Poplaski e Mike Kazaleh, do letrista Carl Stalling e do colorista Eric Vincent.

A história começa às cinco e meia da manhã, no quarto de Nocturno the Necromancer, personagem que tem as características gerais e um nome que lembra Mandrake o Mágico (detetive das tiras de aventura, criado por Lee Falk e Phill Davis). Como acontece todas as manhãs, o personagem é acordado antes da hora pelos gritos e murmúrios de seu vizinho de lado, Sammy Sleephead, que tem mais um pesadelo erótico com a própria mãe. Como de costume, Nocturno se levanta, coloca sua roupa (que inclui cartola, bengala e capa) e sai para conferir “quanto se perdeu”. Nas escadas ele encontra um marinheiro brutamontes e uma vizinha que, enquanto seu marido está ausente “secando”, tem que ganhar a vida se prostituindo. Para alguém que afirma viver nas áreas “em preto e branco” da cidade, até que a vida do narrador / protagonista tem muitos tons de cinza. De qualquer forma, Nocturno sabe e logo nos deixa saber que “só os super-heróis podem bancar uma vida em cores”.

Deprimido, o mágico encaminha-se para o “gueto” onde vivem os animais engraçados dos quadrinhos infantis e de humor. Mas dura pouco a satisfação trazida pelo ambiente nostálgico repleto de piadas visuais. A falta de oportunidades de “trabalho” havia levado pobreza e desolação até mesmo para aquela outrora animada região de Pictopia. Nocturno dirige-se então para os limites da cidade, onde sabe que encontrará seu velho amigo Flexible Flynn, uma evidente paráfrase do Homem-Borracha (super-herói cômico criado pelo genial Jack Cole). O amigo flexível lhe faz então um comentário sobre como o horizonte, preto e esfumaçado, parece cada dia mais próximo. Nocturno não nota qualquer diferença e ambos retornam à cidade para tomar uma cerveja. Já no bar testemunhamos um sóbrio monólogo feito por um embriagado Flynn, acerca de pessoas que estão desaparecendo ou sendo substituídas e também sobre as “gangues de novos heróis” que andam pela cidade, ameaçadoras.

Cansado da “paranóia” do amigo, Nocturno deixa o bar, encontrando em seguida um grupo de novos heróis que, por diversão, tortura uma versão do Pateta. O mágico começa então a acordar para a sombria realidade que toma conta de Pictopia. Identidades desfiguradas e o apagamento do passado tornaram-se parte de uma rotina silenciosa de perda e descaracterização. Mas pode ser tarde demais para ele e seu amigo! Como lhe explica um agente de demolição, aquela cidade das figuras estava mudando e na nova capital da ficção “algumas coisas simplesmente não se adequam mais à continuidade”. Imaginando-se num pesadelo, Nocturno corre atormentado pelas ruas, não encontrando mais cenários antes familiares e próximos. Chegando enfim aos limites da cidade, ele se agarra à cerca, tentando discernir o que se encontra naquele horizonte tomado por uma horripilante “massa industrial”. Neste momento, não há como não nos compadecermos do desespero do personagem.

Repleta de referências veladas ou explícitas a quadrinhos clássicos (como Little Nemo, Popeye, Betty Boop, Fantasma, Brucutu, Dick Tracy, Sobrinhos do Capitão...), “In Pictopia!” olha para trás e, em tom nostálgico, fala de queridos personagens que foram deixados de lado por um mercado sempre em busca do próximo sucesso. Mas a HQ também se volta para o que seria, em 1986, o futuro dos quadrinhos norte-americanos, quando super-heróis e anti-heróis cada vez mais violentos e “realísticos” tomariam conta das revistas. Aliás, é impressionante como os “novos heróis” desenhados por Donald Simpson e seus parceiros assemelham-se aos personagens de visual agressivo, lançados pela Image Comics a partir de 1992. Vale lembrar também que grande parte da “violência” e do “realismo” que tomou conta das revistas de super-heróis a partir da segunda metade dos anos 80 se deve especialmente ao trabalho de Alan Moore em Watchmen e A Piada Mortal.

Moore buscou reverter um pouco do efeito negativo que suas obras tiveram sobre os quadrinhos de super-heróis, produzindo a partir de 1993 séries que resgatavam a fantasia e ingenuidade das antigas revistas. Mas a abordagem metalinguística que vemos em 1963 e Supremo (que muitas vezes identifica o “continuum” da Física com a “continuidade” das revistas) já estava presente na brilhante, tocante e inovadora “In Pictopia!” (diga-se de passagem, esta história pode ter influenciado a criação da revolucionária “O Evangelho do Coiote”, escrita por Grant Morrison para a série Animal Man). Essa HQ curta de Moore & Cia. voltou a ser publicada em 2003, com uma nova colorização, na antologia biográfica The Extraordinary Works of Alan Moore (ao que parece, no entanto, ela foi excluída da recente versão revisada do livro). “In Pictopia!” merece ser lida por sua lúcida antevisão de uma indústria crescentemente padronizada e desumanizada, mas sobretudo por ser um relato ficcional emocionante e humano. Enfim, uma pequena jóia em meio à extensa obra do genial Alan Moore!

23/03/2009

Marvelman e a recriação genial dos super-heróis.


A história do personagem britânico Marvelman (que seria mais tarde rebatizado como Miracleman) começa nos Estados Unidos, no início dos anos 50. Na época a Fawcett Comics, editora responsável pelas aventuras do Capitão Marvel e sua “Família”, enfrentava um infame processo judicial movido pela National Periodical / DC Comics. No processo, a editora do Super-Homem acusava a concorrente de ter infringido os direitos autorais de seu personagem. A verdade, no entanto, era que em várias ocasiões as revistas do Capitão Marvel haviam superado as vendas das publicações do Homem de Aço, o que motivou a ação judicial baseada numa infundada acusação de plágio (afinal, o Capitão Marvel original é muito diferente do Super-Homem e até mesmo mais interessante que seu predecessor). No fim, o maior poder econômico da DC prevaleceu e a Fawcett, além de pagar uma indenização vultuosa, foi obrigada a suspender definitivamente a publicação do Capitão Marvel.

Acontece que o simpático herói da palavra mágica “Shazam!” também fazia sucesso na Grã-Bretanha, onde era reeditado por L. Miller & Son. Mas, com a suspensão da publicação do personagem nos Estados Unidos, Len Miller logo veria uma importante fonte de renda desaparecer. O sagaz editor não pensou duas vezes: contratou o estúdio do roteirista e desenhista Mick Anglo para produzir uma cópia mal-disfarçada do Capitão Marvel. Nas palavras do próprio Anglo (reproduzidas pelo editor Dez Skinn em seu texto especial sobre Marvelman, para a Warrior n°1): “Um dia Len me ligou e disse que queria me ver com urgência. Seu suprimento de material americano para a série Capitão Marvel havia sido repentinamente cortado. [Ele me perguntou:] Você tem alguma idéia? [...] Eu rapidamente respondi a ele que tinha um monte de idéias, e acabei recebendo uma demanda regular de trabalho pelos próximos seis anos”. Assim, por um artifício editorial, em fevereiro de 1954 nascia Marvelman, o mais popular super-herói britânico de todos os tempos.

No processo de transformação do Capitão Marvel em Marvelman, a capa foi deixada de lado e no lugar da roupa vermelha surgiu uma azul. Em vez de moreno, o novo personagem era loiro, trocando a identidade secreta de Billy Batson por Mike Moran. O herói britânico não deixaria de ter uma palavra mágica, substituindo a popular “Shazam!” pela bombástica “Kimota!”. Os demais membros da Família Marvel não foram esquecidos: Capitão Marvel Junior e Mary Marvel deram lugar a Young Marvelman e Kid Marvelman, originando a Família Marvelman. E para não quebrar a ligação dos leitores com as publicações, a numeração das revistas não foi zerada (a despeito da mudança de nome). Além disso, as HQs produzidas pelos roteiristas e desenhistas britânicos mergulhavam em elementos da fantasia e da ficção científica, sendo até mais ingênuas que as similares norte-americanas. O trabalho agradou em cheio, e segundo Anglo: “Os novos títulos foram recebidos com vendas crescentes e uma chuva de cartas de garotos entusiasmados”.

Publicadas entre 1954 e 1963, as revistas (inicialmente) semanais Marvelman e Young Marvelman somaram quase trezentas e cinquenta edições cada uma, tendo ainda a companhia mensal de Marvelman Family que somou trinta edições (isso sem falar em duas dezenas de anuais e álbuns especiais, livros para colorir, brinquedos, jogos e até mesmo uma carteirinha do fã-clube do herói). Em suma, um sucesso mercadológico! Contudo, na virada para os anos 60, nem todos os garotos britânicos eram fãs das revistas de Marvelman & Cia., com seus miolos em P&B e sua impressão em papel-jornal de baixa qualidade. Muitos preferiam mesmo os super-heróis das coloridas revistas da DC e Marvel, saídas do outro lado do Atlântico. Entre os meninos que prestigiavam as HQs do Flash ou do recém-lançado Quarteto Fantástico, estava um certo Alan Moore. Um dia, porém, não encontrando uma de suas revistas preferidas, o garoto resolveu dar uma chance a Mavelman. Por algum motivo, daquela vez as histórias do herói britânico conseguiram lhe agradar bastante.

Mais ou menos na mesma época, Moore leu uma reedição da revista de humor norte-americana Mad, que trazia a história “Superduperman”. Uma criação do genial Harvey Kurtzman e do talentoso Wally Wood, a HQ era uma inteligente sátira ao Super-Homem. Para Moore, o que Kurtzman fez naquele trabalho foi aplicar uma “lógica do mundo real” aos super-heróis, buscando alcançar o máximo de efeito cômico. Inspirado por “Superduperman”, o jovem fã de quadrinhos imaginou então uma história no estilo: o que aconteceria se Marvelman esquecesse sua palavra mágica? (e aquilo que na época não passou dos devaneios de um leitor, tempos depois se tornaria a semente de uma revolução). O que acabou caindo no quase total esquecimento foi o próprio Marvelman, depois que a L. Miller & Son foi à falência em 1963. Mas, passado o tempo, o promissor autor de quadrinhos Alan Moore disse, numa entrevista em 1981, que gostaria que alguém relançasse Marvelman para que ele pudesse escrevê-lo, pois tinha uma idéia “absolutamente brilhante” de como fazer isso.

Numa feliz coincidência, o editor Dez Skinn leu a entrevista e estava justamente pensando em resgatar Marvelman para uma antologia de quadrinhos que planejava lançar. Skinn entrou então em contato com Moore, que redigiu uma proposta para a reformulação do herói. Empregando uma técnica de desconstrução e partindo de seu devaneio juvenil, o roteirista criou uma história na qual um Mike Moran de meia-idade segue a vida, tendo se esquecido de que fôra o herói Marvelman (apenas “um sonho sobre voar” recorrente lhe dá alguma pista sobre aquele passado). Para completar, Moore inspirou-se na HQ “Superduperman” para aplicar uma “lógica do mundo real” aos super-heróis, voltada nesse caso a um efeito dramático (e não cômico, como no trabalho de Kurtzman). Dessa forma, é um incidente com terroristas numa usina nuclear que faz o personagem se lembrar da palavra mágica “Kimota!” (atomic de trás para frente). E assim, em março de 1982 nas páginas da Warrior n°1, ressurgia Marvelman e começava também uma revolução nos quadrinhos de super-heróis!

Com periodicidade mensal, a Warrior era publicada em P&B, formato magazine (21cm x 30cm), trazendo séries divididas em capítulos de cinco a oito páginas. A maior parte dos direitos autorais sobre personagens e histórias permanecia com os roteiristas e desenhistas, que se sentiam assim motivados a produzir seus melhores trabalhos. Inovadora, a revista chegava aos pontos de venda com bons desenhos e uma incomum mistura de terror, aventura, suspense e ficção científica (incluindo aí a originalíssima V for Vendetta, criada por Moore em parceria com David Lloyd). Logo de saída, Marvelman tornou-se a principal atração da Warrior, enquanto a genialidade dos roteiros era notada por autores de quadrinhos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Nos capítulos iniciais, a série contou com o minucioso traço de Garry Leach (que acumulava o cargo de diretor de arte da revista). A partir do sexto capítulo, Marvelman passou a ter os dinâmicos desenhos de Alan Davis (que na época também passava a colaborar com Moore nas séries Captain Britain para a Marvel UK e D.R. and Quinch para a 2000 AD).

Com o sucesso da nova versão, Skinn decidiu lançar Marvelman Special n°1, que trazia basicamente reimpressões de HQs dos anos 50, produzidas pela equipe de Mick Anglo. Mas, devido à utilização do nome do personagem no título da revista, a Marvel Comics (que se considera dona da palavra marvel no ramo dos quadrinhos) interferiu judicialmente. É interessante notar, porém, que o nome Marvelman (surgido em 1954 na revista que lançou o personagem) antecede a utilização do nome Marvel Comics, o que tornaria infundadas as alegações da editora norte-americana (não fosse seu maior poderio econômico). O fato é que a disputa judicial dificultou a continuação da série, causando também desavenças entre Skinn e Moore, o que resultou na suspensão de Marvelman no número 21 da Warrior (deixando incompleto o “Livro II” da série). Sem seu personagem mais popular e não sendo uma campeã de vendas, a revista chegou ao fim no número 26, em janeiro de 1985. De qualquer forma, sua contribuição para a história dos quadrinhos ocidentais já estava assegurada.

Desde o início, exemplares da Warrior chegavam aos Estados Unidos, sendo apreciados por novos artistas, que viam ali exemplos a serem seguidos. Marvelman em especial teve grande influência, por ser uma obra inovadora no gênero predominante naquele mercado. Os desenhos impecáveis criados por Leach e Davis já valiam uma olhada mais atenta. No entanto, o diferencial eram mesmo os roteiros de Moore, com sua aplicação de uma “lógica do mundo real” aos super-heróis. Trazendo textos marcantes e uma trama inteligente e contemporânea, Marvelman mistura História e ficção científica, maravilhamento e vida cotidiana, não faltando elementos intertextuais e metalinguísticos (que explicam o desaparecimento do herói por quase vinte anos e até mesmo como ele veio a ser um plágio do Capitão Marvel). Brilhante e original, a série foi a primeira recriação racionalista de um super-herói clássico, abrindo caminho para a reformulação dos heróis da DC Comics, para o Novo Universo Marvel e para obras revolucionárias como O Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Enfim, um clássico genial e imperdível!