16/09/2016

Warp

Em 1996, o movimento de quadrinhos em BH estava no auge! Dezenas de quadrinistas, trabalhando individualmente ou reunidos em grupos, revistas regulares e esporádicas, páginas de crítica de HQ em jornais, programas na TV, festas de lançamento e eventos em lojas... O que no começo daquela década surgiu de maneira insipiente e desconexa atingia então seu ponto de ebulição, dando vida a uma verdadeira “cena quadrinística”. Quem não viveu aquele momento talvez não entenda a dimensão de toda a efervescência cultural que, antes mesmo dos grandes eventos como a Bienal Internacional e as edições do FIQ, já fazia de BH a capital brasileira dos quadrinhos.

Naquele ano, eu produzia as edições da revista Solar e me preparava para, no ano seguinte, lançar sua substituta, a Caliban. Para a nova publicação regular, além da continuação da série original do Solar, eu criava novas HQs e personagens. Entre eles, estava o alienígena Warp, que ganharia forma no expressivo traço do amigo Laz Muniz, que todos podem conferir na ilustração acima. Tendo apenas duas HQs publicadas, nos números 1 e 4 da revista, a série Warp era ao mesmo tempo uma paródia e uma crítica. Uma paródia dos muitos clones de um certo herói mutante de garras afiadas e uma crítica à violência gratuita superexplorada nos quadrinhos da época.

Olhando hoje para aquelas HQs e incluindo aí o roteiro de um terceiro capítulo que não chegou a ser desenhado, mais que a paródia ou a crítica aos quadrinhos da época, o que se sobressai são os “vilões” e as situações escolhidos para Warp enfrentar: uma gangue de neonazistas atacando uma mulher, um maluco religioso que mata pessoas a esmo e um grupo de mauricinhos que se diverte incendiando moradores de rua. Duas décadas depois, talvez esses temas pareçam até mais presentes do que em 1996... De qualquer forma, não deixo de me admirar também com a velocidade como o tempo passou, e que outro de meus personagens já esteja completando 20 anos de criação!

4 comentários:

Pedro Nicola disse...

Doutor, há alguns dias eu conversei contigo sobre a impressão que tenho em relação ao cenário nacional de HQs atualmente. Lembro de ter comentado que eu tenho visto muitos artistas extremamente talentosos publicando trabalhos com pouquíssima identidade. Sinto falta dos meus primórdios como leitor de HQ nacional quando, em meu primeiro FIQ (2005 ou 2007), os quadrinistas brasileiros lutavam por ALGUMA visibilidade e publicavam trabalhos incríveis, mesmo sendo com pouco investimento estético e financeiro. Será que tenho lido pouca coisa relevante?

Pedro Nicola disse...

Ou será que apenas estou sendo saudosista? hahaha

Wellington Srbek disse...

E aí, rapaz!
Não tenho acompanhado muito do que tem sido publicado atualmente (tanto que um dos trabalhos que não faço mais é o de crítico de quadrinhos). Mas tenho a impressão de que o mercado de HQs como um todo não melhorou nos últimos tempos. De qualquer forma, as coisas mudam e em momentos diferentes condições diferentes originam resultados diferentes, não necessariamente melhores ou piores.

Wellington Srbek disse...

Embora eu publique essas postagens falando sobre coisas acontecidas há 20 anos, não sou muito nostálgico; sempre tento pensar no próximo trabalho a ser criado. Mas tenho saudades daquele tempo em que tínhamos dezenas de quadrinistas em BH, produzindo e tentando publicar seus trabalhos, fazendo festas de lançamento, participando de eventos e programas de TV... Foram tempos muito bacanas e empolgantes, e é ótimo ter sido parte daquele momento!