24/11/2015

“Civilização x Barbárie”?

Terrorismo é barbárie, e ponto final. Não há justificativa para o massacre de pessoas em nome de uma causa ou de uma divindade. Não há explicação racional que fundamente a irracionalidade homicida de indivíduos com armas e bombas que matam e mutilam pessoas que simplesmente exerciam o direito fundamental de viver suas vidas e fazerem suas livres escolhas de como viver essas vidas. Para os assassinos que realizam essas atrocidades, espalhar o medo e a sensação de insegurança, em outras palavras: disseminar o “terror”, parece ser o objetivo mais direto e mais efetivo.

Ainda assim, atos abomináveis como os ocorridos em Paris na noite de 13 de novembro parecem ter outro efeito que também serve aos objetivos distorcidos dos terroristas: o de aumentar distâncias, aprofundar diferenças e inflamar a infame retórica do “nós contra eles”. Infelizmente, nas horas e dias que se seguiram aos atentados em Paris, não faltaram manifestações de ódio e intolerância contra pessoas e comunidades muçulmanas. E isso não apenas da parte de indivíduos desinformados e preconceituosos, mas também de alguns dos principais “formadores de opinião” em nosso país, que não perderam a oportunidade de reproduzir a retórica do conflito “civilização contra barbárie” ou mesmo a concepção de uma “guerra de civilizações”. Mas é importante tentarmos ver essa questão de uma perspectiva mais ampla...

A noção ocidental de “civilizados” e “bárbaros” remonta aos tempos da Grécia antiga, quando as cidades-estado gregas enfrentaram a invasão dos exércitos persas. Foi herdada pelo Império Romano, que confrontava sua cultura clássica com as características próprias dos vários povos que buscava conquistar em sua expansão pela Europa e pelo Mediterrâneo afora. Após a ascensão do cristianismo no século IV, ela se cristalizou na imagem de uma Cristandade guardada por seus muros e crenças, contra um mundo repleto de povos pagãos e invasores bárbaros. Isso duraria até as cruzadas, quando a Europa medieval se mobilizou numa “guerra santa” para conquistar os lugares considerados sagrados no Oriente Médio.

Assim, durante a Idade Média, a civilização cristã da Europa e a civilização islâmica do Oriente Médio e norte da África de fato se enfrentaram num embate “civilizacional”, com diversos episódios sangrentos, como a tomada de Jerusalém pelos cruzados e a conquista de Constantinopla pelos turcos. Mas não se deve esquecer que esse embate político foi também um encontro de culturas, com episódios de tolerância e cooperação, como na cidade espanhola de Toledo. Esse encontro cultural deixou muitos frutos na arquitetura, na linguagem, nas ciências, propiciando a redescoberta da herança grega pela Europa, lançando as sementes da Renascença.

Voltando a nosso tempo, o antagonismo do “nós” contra “eles”, da “civilização” contra a “barbárie” só serve ao radicalismo, seja ocidental ou jihadista, pois fomenta o preconceito, baseando-se em estereótipos que não necessariamente têm qualquer ligação com a realidade. Identificar a comunidade muçulmana com o sectarismo assassino dos movimentos jihadistas é desinformação ou má-fé. Um fato é que a maioria absoluta dos seguidores do Islã não tem qualquer ligação com movimentos radicais que incitam a violência contra os “infiéis do Ocidente”. Outro fato é que, em termos de número de vítimas, são as próprias populações do Oriente Médio e do norte da África que mais têm sofrido com os atentados terroristas cometidos pela Al Qaeda, Boko Haram, ISIS e seus afiliados. Nesses lugares, a contagem de vítimas alcança a casa dos milhares, embora suas mortes não tenham o devido destaque em nossa mídia.

Por tudo isso, a retórica da “civilização contra barbárie”, tão popular na mídia e nas redes sociais, parece ter “pés de barro”, fundamentando-se numa falácia. Para exemplificar que as fronteiras entre “civilização” e “barbárie” não são tão delimitáveis assim, bastaria citar a criminosa invasão do Iraque em 2003, orquestrada pelos “falcões” de George W. Bush e seus afiliados ávidos por petrodólares. Ou lembrar que o ápice da cultura europeia no começo do século XX foi também o berço da maior abominação da História contemporânea: a Alemanha Nazista e o Holocausto. Como um todo, do Ocidente ao extremo Oriente, de norte a sul do globo, no final das contas não há tanto de “civilizado” na sociedade industrial moderna, movida por um impulso desenfreado de produção-consumo, que mina os recursos naturais do planeta gerando poluição e desequilíbrios social e ecológico.

Atentados como os ocorridos nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001 ou os de Londres em 7 de julho de 2005 têm suas supostas motivações políticas. Esses eventos abomináveis, como os ocorridos na noite de 13 de novembro em Paris, têm também suas distorcidas motivações ideológicas que buscam atacar valores e ideais preciosos para a maioria de nós: o direito à vida, o respeito pelas diferenças e o espírito de liberdade. Terrorismo é barbárie, e ponto final. ISIS e outros grupos de ideologia totalitária e atos genocidas devem ser combatidos e derrotados. Mas oremos, a Deus ou a Alá, para que o combate ao terror não repita os erros do passado recente, alimentando o ódio e fortalecendo o próprio mal que se busca eliminar.

(Enquanto isso, continuamos sonhando com o dia em que haverá paz e irmandade entre os povos; já que todos nós, homens e mulheres, ocidentais e orientais, “gregos e troianos”, somos o mesmo e um só: o povo humano.)

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